Crônicas

O menino que escrevia versos

O menino e a palavra eram amigos desde sempre.

Inseparáveis como as horas e o tempo.

Sensação, coração e pensamento.

A palavra era a bola, a rasteira, a corrida, as travessuras…

A palavra era o rosto, as descobertas, as noites escuras.

O menino escrevia a vida e as suas cores em palavras pequenas, palavras grandes, palavras muitas ou palavras poucas. Cidades e
ruas.

A palavra se fazia chuva, sol, mar e vento, beijo e estrada, sonho, abraço, sentido, tudo e nada!

O menino era poeta! Dizia com assombro a mãe!

O menino era poeta! Falava paralisado o pai!

O menino se metia com os versos? Indagava um e outro familiar.

Não havia ser vivente que não questionasse o porquê dos versos.

A verdade é que o menino abria os olhos e, para enxergar o mundo, escrevia. Escrevia suas histórias, registrava suas memórias e
juntava lugares e nomes e sentimentos.

Misturava o que ouvia, inventava o que não existia e simplesmente escrevia…

Depois de algum tempo, já sabedores da situação, ninguém mais perguntava a razão.

O menino é assim mesmo!

Bola, papel, pião. Catavento, sopro, dragão.

Laço, entrelaço, uma mão.

Caminho, descaminho, construção.

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Campista Cabral

Campista Cabral, leitor assíduo dos portugueses Camões e Pessoa, do poetinha Vinícius, herdou deles o gosto pelo soneto. A condensação dos temas do cotidiano, assim como a reflexão sobre o fazer poético, parece procurar a sua existência empírica ou, nas palavras do poeta, um rosto perfeito, na estrutura do soneto. Admirador e também leitor obsessivo de Umberto Eco, Ítalo Calvino, José Cardoso Pires, Lobo Antunes, do mestre Machado de Assis e do moçambicano Mia Couto, retira dessas leituras o gosto pela metalinguagem, o prazer em trabalhar um espaço de discussão da criação literária em sua prosa. A palavra, a todo instante, é objeto base dos contos e das crônicas. A memória, o dia-a-dia, o amor, as sensações do mundo e os sentidos e significados da vida estão presos nos mistérios e assombros da palavra.

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