Crônicas

A inveja de cada dia nos dai hoje

Herdeiros. Gente que tem casa própria. Gente com família presente e, sobretudo, acolhedora e que sempre a respeitaram. Gente que se formou antes dos 25. Gente que come de tudo e não engorda. Gente que pode viajar, mesmo que seja uma vez ao ano. Gente que tem carreira acadêmica, doutorado aos 30. Gente que sabe falar outros idiomas bem e não tem medo ou vergonha de errar.

Veja bem: inveja não é ódio. É aquilo que eu gostaria de ter e não tenho; é algo para o qual posso, eventualmente, correr atrás. A inveja é só um sentimento, e a gente pode refletir sobre ele e tentar fazer acontecer. Não é esse monstro moral que todo mundo pinta. É super comum, todo ser humano sente. A gente sempre acha que a grama do vizinho é mais verde – e, cá entre nós, isso tem muito mais a ver com o jeito que o capitalismo organiza a nossa sociedade do que com algum defeito de caráter meu ou seu.

A sociologia traduz isso bem: o que descrevo não é falha de caráter de ninguém, mas a frustração que surge quando a vida bate de frente com a tal da meritocracia. O sistema vende todos os dias, a ideia de que basta suar a camisa que a gente chega lá. Mas, quando o ponto de partida é a escassez pura – tipo contar moedas no fim do mês para não passar fome –, a distância até a casa própria, o diploma aos 25, o doutorado ou a viagem de férias deixa de ser questão de esforço e passa a ser o que é: puro privilégio de berço (este que vem do esforço de muitas pessoas).

Quando olho para essa lista e sinto inveja, falo de coisas que sempre quis e sobre as quais, muitas vezes, não faço a menor ideia de por onde começar e nem sei se um dia terei. A inveja, como qualquer outro afeto, vem de fábrica no brinquedo que é o Homo sapiens. Na psicologia, mais voltado para a psicanálise, explica que a inveja (quando a gente não deixa ela nos paralisar) funciona como uma bússola. Ela mostra o que a gente quer e que o outro tem, transformando a dor em vontade de ir atrás. O problema é que a nossa cultura moralista adora mandar a gente varrer isso para debaixo do tapete, transformando a dor da desigualdade em culpa pessoal (“nossa, que feio eu sentir isso” ou “eu não deveria sentir isso”).

Aliás, escrevendo isso, me pego pensando: será que gente rica sente inveja? Do que eles teriam falta se já têm o mundo material nas mãos? Casa, carro, grana sobrando, família estruturada, estudo garantido, empresas e investimentos, viagem o tempo todo, o luxo de sentar num restaurante bom enquanto tem muita gente sem ter o que comer. Enfim, acho que só saberei se algum rico me contar, porque não ando com nenhum. E, quer saber? É irrelevante para minha caminhada, isso não vai pagar os meus boletos no fim do dia.

Existe um esforço enorme da sociedade para fazer a gente ter vergonha desse sentimento. “Como assim você vai admitir que tem inveja?” Parece que quem sente inveja carrega uma praga na ponta dos dedos. Olha, até deve ter quem jogue praga, mas a maioria de nós não. A maioria só quer olhar bem de perto para ter essa fome de ter o que o outro tem e tentar dar isso para si mesma. Mesmo que demore uma vida inteira. Mesmo que o mundo tente nos convencer do contrário. Mesmo que a gente precise lutar e virar o jogo só para ter o direito ao básico.

Mostrar mais

Jo Souza

Jo Souza nasceu em Belford Roxo, em 1999, e vive na Zona Norte do Rio de Janeiro. Graduanda em Serviço Social pela UFRJ, é cronista e autora independente. Como escritora negra e periférica, encontra na filosofia do absurdo um ponto de partida para refletir sobre o cotidiano urbano, suas tensões e contradições. Sua escrita transita entre a contundência e a sensibilidade, transformando experiências comuns em narrativas de forte identidade autoral. Escreve desde a adolescência e, em 2026, publicou seu primeiro livro, Crônicas de uma Desencaixada.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar