
Seu Gentil e sua necessária esperança
Seu Gentil é um sujeito deveras singular. Desses que a gente admira e, ao mesmo tempo, desaprova. Persistente para alguns; teimoso para outros. Positivo para uns; lunático para tantos. Mas, para todos aqueles que o conhecem razoavelmente bem, uma figura que não passa despercebidamente.
Dentre as suas características mais peculiares, o seu redentor otimismo é a que mais incomoda. Chamo sua positividade de “redentora”, pois ela transmite algo verdadeiramente libertador. Não é aquele simples otimismo do torcedor de futebol que acredita na reação de seu time até o apito final. Não é a paixão totalmente desprovida da razão. É algo muito mais profundo e que retrata sua essência como ser humano. E essa característica é, de fato, incômoda porque nem todo mundo parece estar em condições de tê-la. Não raro, semeamos inveja e desprezo somente por nossas incapacidades pessoais.
O otimismo de seu Gentil tampouco tem a ver com aquela famigerada Síndrome de Poliana. Você se lembra dela? Aquela menina da literatura infantojuvenil que queria ganhar uma boneca, mas recebeu apenas um par de muletas. Em vez de ficar chateada com o presente recebido, sentiu-se feliz justamente por não precisar dele. Pois é… Eu não vejo em nosso simpático amigo essa desoladora e irritante ingenuidade. O que mais me chama a atenção nele é, sobretudo, sua genuína esperança na humanidade.
A gente abre os jornais e só lê notícias desanimadoras. Aliás, hoje em dia, não se abre mais nenhum jornal. Salvo alguns dinossauros analógicos, abrimos, no máximo, o site de algum portal de notícias. Mas as informações são quase sempre aterradoras: guerra não sei onde, roubo de não sei o quê, tragédia com não sei quem. É inundação; é queimada; é avalanche; é acidente aéreo, mas também rodoviário; é trapaça aqui e acolá. Eu me pergunto: de que material nosso otimismo deve ser feito para aguentar tantas pancadas?
— O senhor ainda acredita que um dia teremos um mundo mais justo para todos? — pergunto, despretensiosamente, àquele que viu e viveu de tudo um pouco.
— Mas é claro que sim, meu filho! É preciso acreditar e seguir lutando pelos nossos ideais! — responde-me quem costuma dar lições de vida gratuitas, mesmo não tendo a pretensão de ensinar ninguém.
Como um grafeno, seu Gentil resiste a toda a sorte de golpes. Dos mais baixos aos mais debilitantes, dos mais inofensivos aos mais violentos. Se a estrutura atômica do grafeno lembra um favo de mel, a personalidade de seu Gentil lembra tanto a doçura de uma criança como o equilíbrio de um mestre ancião. Porém, diferentemente do mais duro dos materiais, sua natureza não conduz eletricidade, mas sim esperança. Uma saudável e necessária esperança.
Em tempos de tantos dissabores, quando até o mais utópico dos idealistas pode hesitar em suas mais profundas convicções, pessoas como seu Gentil costumam destacar-se pelo seu inquebrantável estado de espírito. Como uma espécie de farol, elas nos orientam em nossas distintas trajetórias e sinalizam os perigos vindouros. De alguma forma, aprendi que um dos piores riscos com os quais podemos nos deparar é a falta de esperança. Uma cilada como essa pode muito bem nos enredar mortalmente e borrar nossa aptidão para um bom discernimento.
Se existe um antídoto contra essa armadilha, seu Gentil nunca me falou. Mas o que sua vida demonstra é quão libertadora pode ser a resistência. Cada um a sua maneira, na alucinante engrenagem da vida, lutando por algo maior e acreditando em dias melhores. Aparentemente tão simples quanto realmente complexo. Pois talvez seja esse o ingrediente que confere um verdadeiro e nobilitante sentido as nossas vidas.























