Guilherme Backes

  • A arte de não se levar a sério

    Poucas são as pessoas que realmente sabem como não se levarem a sério. Infelizmente, não faço parte desse privilegiado grupo. Mas posso afirmar que esses seres iluminados costumam ter uma expectativa de vida mais longeva que os demais mortais, com menos cortisol e mais endorfina. Em outras palavras, menos estresse e mais alegria. A bem da verdade, para não ficar apenas em elucubrações pseudocientíficas e melhor sustentar minha tese, usarei o exemplo de um velho e estimado amigo chamado Jânio.

    Diferente de seu tocaio Jânio Quadros – que se levou muito a sério, tentou uma manobra política estapafúrdia e deu com os burros n’água -, meu amigo Jânio sabe como não se levar a sério com maestria. É o tipo de sujeito que faz galhofa de si, escarnece de seus defeitos e zomba de seus erros. Mas quem o conhece bem, como é o meu caso, sabe que suas idiossincrasias não se dão por autocomiseração tampouco por autodesprezo. Pelo contrário! A leveza característica com que lida consigo e com os outros sugere uma paz de espírito e uma inteligência emocional invejáveis.

    Creio que a primeira vez que a elevada maturidade espiritual de Jânio chamou minha atenção foi quando assisti a sua derrota no campeonato de botão do bairro. Em plena adolescência, não tínhamos tantos compromissos para os quais dar mediana importância. Aquele torneio, entretanto, valia mais que a honra de todos os seus competidores. Um fim de semana inteiro dedicado à magia do futebol de botão, desde o sorteio de grupos até a entrega do troféu. Jânio, notório botonista do bairro, era considerado o favorito ao título por todos os comentaristas esportivos da região. Embalado por uma campanha avassaladora e invicta, chegou à final com pinta de campeão. O problema é que, ao comemorar seu único gol na partida, machucou sua mão direita. Com apenas a esquerda à sua disposição, não conseguiu mais jogar satisfatoriamente e levou uma virada triunfal de seu oponente. Apesar dos olhos marejados, superou o baque e, muito dignamente, reconheceu a vitória com um sorriso no rosto e um abraço em seu adversário.

    A segunda vez foi quando soube de seu fracasso no concurso para a Receita Federal. Muitos podem até tentar contemporizar o feito, mas fui testemunha de seu comprometimento e de sua dedicação para aquele certame. Sei o quão importantes eram aqueles malditos exames para ele. Por mais de um ano, Jânio dedicou, diariamente, horas a fio na preparação para as provas. Priorizou os estudos, prescindiu do futebol das quartas-feiras, abriu mão de muitas festas. Mas, infelizmente, a aprovação não foi conquistada. Todos nós, amigos de Jânio, pensávamos que ele sucumbiria a uma fase de desgosto e de tristeza profundos. Ledo engano! No dia seguinte à divulgação da lista de aprovados, lá estava Jânio fazendo piada de seu malogro e organizando o futebol daquela semana.

    Devo admitir que por muito tempo, esses e outros feitos de Jânio me passaram despercebidos. Geralmente, levamos um tempo para compreender o significado e a importância de muitos dos eventos que testemunhamos. Talvez por desatenção, talvez por insensibilidade. O fato é que a vida seguia seu rumo, sem que a altivez de Jânio pudesse ser, devidamente, apreciada por mim e pelos demais amigos. Até que um dia assisti à uma entrevista dada por uma veterana e renomada atriz. Com mais de seis décadas de trabalhos na televisão, no teatro e no cinema, a octogenária artista foi perguntada sobre qual seria seu segredo para tamanha longevidade.

    Não se levar a sério – sentenciou, muito originalmente, a jovem senhora.

    A simplicidade e a objetividade de tal resposta cativaram minha atenção. Quase imediatamente, a figura de Jânio veio-me à mente como um poderoso exemplo de vida. Não somente pelo modo com que lidou com alguns de seus fracassos, senão que por suas atitudes mais cotidianas. Livre das insanas métricas de perfectibilidade e de produtividade, meu amigo concebe uma vida mais equilibrada e saudável. Ciente de suas limitações, mas também de suas qualidades, celebra menos os resultados instagramáveis do que os longos processos de aprendizagem. Longe de levá-lo ao desleixo ou à passividade, sua visão de mundo permite-lhe desfrutar da graça e da beleza da vida nas coisas aparentemente mais simples e banais.

    Pessoas que se levam, demasiadamente, a sério tendem a ser chatas e egocêntricas. Em tempos de tantas rabugices e malquerenças, nada melhor do que desfazer carrancas e maus-humores com boas doses de humor. Colocando em xeque, antes de tudo, nossa sisudez, teremos mais chances de administrar nossas falhas e de apreciar nossas conquistas. Oxalá possamos todos aprender mais com pessoas como Jânio!

  • Fragmentos de mais uma noite em claro

    Abro os olhos e vejo que o sol vespertino de um certo domingo ainda teima em transmitir um pouco de vida a um fétido e pestilento cômodo. Pelas frestas da janela, a luz do sol ilumina meu quarto, aparentemente vandalizado por poderosos demônios desconhecidos. Aos poucos, recobro minhas forças e sinto o peso de mais uma interminável e irresponsável bebedeira. Em meio a uma breve crise de consciência, escuto uma batida na porta.

    —  Carlos Alberto! Você está bem? —  pergunta Miriam, minha vizinha de porta.

    —  Vou deixar aqui um remedinho pra você. Toma! Vai melhorar! —  insiste aquela que talvez tenha sido meu mais fiel anjo da guarda.

    Com a boca seca e a cabeça latejante, tento refazer, mentalmente, o percurso da noite passada. Mas é tudo tão confuso! Memória e imaginação misturam-se como duas amantes que compartilham entre si os mesmos lençóis. Um turbilhão de imagens e de sons passa pela minha cabeça, sem que eu possa compreender o que significa tudo aquilo.

    Vejo em minha frente uma rua iluminada, algumas mesas sobre a calçada, muitas pessoas animadas. O vaivém de copos e de garrafas enfeitiça este passeante já desobrigado de eventuais compromissos. O sorriso naquele rosto dá continuidade a uma sequência de ações e reações não planejada para aquela noite. Já não estou mais sozinho, pois escuto sua voz alternar momentos de doçura com outros de altivez. Com facilidade, a conversa flui e explora diversos assuntos: música, literatura, política e até futebol. A atração provocada pelo seu olhar só poderia ser mantida por seu humor inteligente e sarcástico. O gosto de seus lábios e a maciez de sua pele impelem-me a querer mais de sua companhia.

    —  Já está tarde, preciso ir embora  diz aquela com quem combino um próximo encontro.

    Não estou mais em sua companhia. Dou um passo à frente, respiro fundo e vejo outras pessoas igualmente alvoroçadas. O ambiente é outro, mas a música alta e a excitação generalizada sugerem que a noite ainda chegará ao seu ápice. Três mesas de sinuca dispostas ao fundo do salão oferecem mais uma opção de diversão a uma pequena súcia de boêmios. Parece que a saudável confraternização do fim de semana começa a dar lugar para os excessos de uma noite imprevisível. Mas eu continuo lá… Necessito permanecer onde estou! Não sei como exatamente, mas aquilo tudo me dá força para respirar com mais vigor. As amarguras de uma vida mal concebida são anestesiadas a cada gole daquela bebida enganadoramente milagrosa.

    De repente, o barulho da jogatina é interrompido por gritos e alguns copos quebrados. A algazarra toma conta do bar, alguns tentam se proteger, outros são enxotados de lá. Minha mente e meu corpo já não interagem da mesma forma. Minhas percepções de tempo e de espaço alteraram-se, completamente. Enfim, as muitas lacunas que se apresentam em minha memória começam a distorcer a narrativa que eu tentava, em vão, construir.

    Vozes altissonantes e rostos desfigurados surgem aqui e acolá. Como se estivesse em um baile de máscaras, não consigo mais identificar aqueles que me cercam. Não são amigos, pois querem sugar o pouco de energia que ainda me resta. O cenário, mais uma vez, mudou! Não há mais mesas, não há mais alegria. São poucos os remanescentes. O fogo daquele isqueiro é ofuscado pelo farol dos poucos carros que cruzam a avenida em alta velocidade. Não tenho ideia de que horas são, mas os pássaros já começaram a cantoria. Não sei onde estou, mas começo a caminhar. De alguma maneira, sei que ainda tenho um endereço para onde me dirigir. Passa uma viatura de polícia, um rapaz faz a sua corrida matinal, a senhora faz suas compras na feira do bairro. Um novo dia começou! E eu aqui… Desgraçado e só!

    Não adianta negar e tentar se enganar, inconsequentemente. Se continuar na mesma toada, essa vida de excessos ainda vai me matar! Chegou o momento de tomar uma resolução e de acabar com tudo isso. Vou atender o telefone, organizar essa bagunça e dar início a uma vida nova!

    —  Alô! Carlos Alberto, você vai demorar? Esqueceu que hoje é aniversário do Marcelo?! Tá todo mundo aqui! Não se esqueça de trazer algumas bebidas! – ordena uma voz conhecida, porém não identificada.

    Na verdade, as palavras que acabei de ouvir soaram mais como um cândido pedido do que como uma maliciosa ordem. E que bom saber que sentiram minha falta! Posso dar uma rápida passada por lá, dar um abraço no aniversariante e voltar cedo para casa. Quer saber?! Que se foda tudo! Não fiz mal a ninguém, e tudo o que fiz foi com o meu dinheiro. Vou tomar um banho, comer alguma coisa e ir, sim, àquela festa! Somente amanhã será uma nova segunda-feira, dia de valorosas resoluções e de intrépidos recomeços.

  • A Vida e as suas Escolhas

    E se, de repente, nos fosse dada a capacidade de vivenciar as consequências de decisões que não tomamos? Não falo, evidentemente, de questões rotineiras e banais, o que seria uma insanidade total. Mas somente de escolhas que podiam ter transformado nossas vidas por completo. Como reagiríamos, se tivéssemos a possibilidade de sentir as tempestades e as bonanças de caminhos nunca percorridos? Ainda conseguiríamos nos reconhecer por trás de tão distintas experiências?

    Diante da improbabilidade do desenvolvimento de uma tecnologia que permita tal maluquice, recorramos, pois, a um exercício mental de digressão. Como o aluno que aplica uma prova real sobre sua operação matemática inicial, poderíamos, dessa forma, especular a respeito da conveniência de nossas escolhas. Eu sei, minha cara leitora! A vida é, infinitamente, mais complexa e incerta do que uma operação matemática. Mas você também já deve ter-se imaginado como estaria agora, caso tivesse feito uma escolha diferente em algum momento de sua vida.

    Geralmente, essas conjecturas vêm às nossas mentes quando quebramos a cara ou estamos, simplesmente, com algum tempo disponível. Mas, contrariando a agitação desvairada desta cidade, não tenho podido reclamar de escassez de tempo. Poderia, aqui, enriquecer minha fala com a descrição de uma grande desilusão amorosa ou de uma demissão laboral. Mas, se assim agisse, faltaria com a verdade e sabotaria o objetivo inicial do exercício de imaginação proposto. Por mais incerto que esteja a respeito da real utilidade de tal esforço, preciso parecer convincente, não acha? A bem da verdade, o que está por trás de tudo isso é uma vã e pueril tentativa de experimentar diferentes vidas – umas melhores; outras nem tanto.

    Pergunto-me, volta e meia, o que teria acontecido comigo, se não tivesse pegado aquele ônibus, feito aquela viagem, começado uma conversa trivial com aquela jovem. Ou ainda, se tivesse escolhido outra profissão, insistido em estender aquela estadia, dito “até breve” em vez de “adeus”. Claro está que as decisões que tomamos ou deixamos de tomar podem afetar, diretamente, não apenas as nossas vidas, como as de outras pessoas também. Até mesmo aqueles que nunca vimos à nossa frente podem ser impactados por elas. Quantas pessoas alegam, por aí, ter encontrado a sua alma gêmea por acaso? Nesse sentido, o acaso nada mais foi do que o resultado de uma decisão anterior, por mais involuntário que possa ele ter sido. Ah, sim… Aquela parada rápida na cafeteria do centro da cidade teria sido tão banal, caso nunca tivesse propiciado o encontro entre dois corpos e duas mentes que se complementam tão bem! Teria eu sentido o prazer de tamanha excitação, caso não tivesse ido àquela festa supostamente tão chata e desanimada?

    Realmente, o que mais me fascina como consequência de nossas próprias escolhas são, justamente, essas relações interpessoais que estabelecemos com maior ou menor frequência. Penso que a riqueza de nossas interações sociais reflete a complexidade de uma grande teia social que construímos ao longo de nossas vidas. Quanto mais intensas e enriquecedoras forem essas nossas experiências com outras pessoas, mais resistentes serão os seus fios. Mas, além das relações amorosas e sexuais, existem os mais variados tipos de interação. Dessa forma, seria eu capaz de compreender tão precocemente o valor de uma verdadeira amizade, caso tivesse ignorado aquele jovem mais novo que me fez uma pergunta tão idiota? Ou ainda, poderia eu ter esse tipo de conversa com você, nobre leitora, caso não tivesse decidido escrever sobre a vida e seus encantos misteriosos?

    De fato, não podemos comparar o que vivemos com o que podíamos ter vivido. Além disso, é evidente que não dispomos de tanto controle sobre nossas vidas. No entanto, as frequentes contingências que se abatem sobre elas são intermediadas por resoluções que, de vez em quando, nós tomamos – mesmo que despretensiosamente. Por mais que as consequências não tenham sido planejadas e que as ações não tenham sido, profundamente, avaliadas, a bruma que esconde o que está diante de nós também faz parte das nossas vidas. Nós somos nós somente porque vivemos as agruras, os prazeres, os aprendizados e as decepções de nossas caminhadas de um jeito que somente nós podíamos ter vivido.

    Enfim, creio que não importa se um dia quisemos, realmente, estar aqui. Mais interessante é saber como chegamos a este estágio. É desse tipo de particularidade que somos feitos. Nem sempre essa singularidade será do agrado de outras pessoas. Mas, quando aprendemos a valorizá-la, ficamos mais livres para seguir nossos caminhos, por mais tortuosos que eles possam ser. Assim sendo, não existem, pois, decisões certas ou erradas! Por mais equivocadas que possam parecer, todas elas ajudaram a moldar o nosso ser.

  • Um Fim de Tarde

    A agitação urbana de um fim de tarde qualquer esconde a beleza dos detalhes de uma rotina, por vezes, sufocante. O encontro involuntário de corpos esconde histórias de superação e de fracasso. Rostos pálidos, corpos suados, almas vazias. A garotinha olha pela janela do vagão. Alguns ficaram na estação! Não houve tempo, mas haverá uma segunda chance. O silêncio dos que entraram convida-me à observação. São Bento, Sé, Japão-Liberdade. Mais pessoas entram no vagão; outras tantas ficam pelo caminho. Meu destino está longe, ainda há tempo para reflexões.

    O jovem à frente carrega em sua mochila diversos sonhos. Em meio a tantos livros, suas habilidades vão sendo, aos poucos, lapidadas. Em breve, alguém poderá até pagar por elas. Mas, hoje, o dia não foi dos mais gratificantes. Seu rosto expressa a decepção por uma resposta mal formulada. A única pergunta que não poderia ser feita foi, justamente, uma das escolhidas por seu algoz. Uma só questão capaz de soterrar o esforço de uma noite em claro. Sim, apenas uma noite! Convenhamos: outros afazeres eram, igualmente, inadiáveis. Mas a resignação é o remédio mais barato com que saudamos nossas impotências.

    A senhora ao lado leva consigo um bolo cuidadosamente mantido sobre seu colo. O esmero é tanto, que fico até constrangido por parecer indiscreto. Mas não posso deixar de notar um certo ar de satisfação e de orgulho pela obra finalizada. Foi ela que ficou encarregada de fazer a sobremesa, já que para seus comensais são as mãos dela as mais competentes na arte da culinária. Tamanha responsabilidade nada mais é do que o reconhecimento por um talento aperfeiçoado pelos serviços diários de uma brava dona de casa. Sua netinha mais velha, adentrando a adolescência, merece mais esse empenho! Ai de quem ousasse tirar dela essa saborosa tarefa!

    Olho para o outro lado, e vejo um rapaz. Não mais carrega dentro de si aquela ingenuidade tão típica dos jovens, mas ainda não sucumbe ao peso das próprias frustrações. Sua coluna ainda é ereta; seus braços ainda são rijos. Suas escolhas, porém, não foram as melhores. O contraste entre a vida sonhada e a vida vivida faz dele um ser humano, talvez, infeliz. Nem sempre está pensativo, pois raramente tem tempo para essas coisas! Mas, nesta tarde, o seu olhar vazio e a sua coluna arqueada denunciam a melancolia de sua existência. Até mesmo os trabalhadores mais eficientes podem envergar sob o peso de decepções tão profundas. É necessário continuar, seguir em frente! “Amanhã vai ser outro dia” – é o que costuma dizer um tal de Chico por aí.

    A dois passos de mim, a jovem concentra sua atenção na tela de seu celular. Pelo movimento de seus dedos e o sorriso em seus lábios, mantém uma conversa bastante animada. Quiçá por descuido, lança um breve olhar em minha direção. Seus olhos não chegam a ser de ressaca, mas projetam intensidade e mistério. Está a poucas estações de encontrar sua amada. Tão jovem, tão certa de tudo! No começo, tudo foi tão doloroso, mas eles tiveram de aceitar. A mãe acolheu; o pai renegou; o irmão não entendeu. Hoje em dia, se o tabu foi quebrado, a antiga cumplicidade familiar ainda pena para ser restabelecida. Mas, um dia, ele vai dobrar os próprios preconceitos!

    Histórias de vida tão distintas que aguçam a minha curiosidade pelo desconhecido. A frenética e amorfa multidão ganha cadência e toma formas mais humanas. E eu, minha cara amiga? Por que carrego esse semblante? Tristeza, contemplação, fadiga ou apenas vadiagem? Amanhã, não terei tempo para tamanha divagação. Também faço parte da mesma engrenagem! Por ora, é preciso seguir o fluxo. De volta a uma rotina modorrenta, minha estação já está logo ali.

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