Guilherme Backes

  • As meias rotas do Presidente

    Não raramente, atribuímos a personagens importantes da história oficial qualidades inigualáveis e sobre-humanas. Altas autoridades, políticos de grande projeção, empresários bem-sucedidos, artistas de renome, todos eles adquirem um status que os coloca vários degraus acima da grande massa dos mais vis mortais. A fama, a riqueza e/ou o poder de que desfrutam obrigam-nos a projetar em suas figuras as características necessárias para que a atração e o frenesi que costumam provocar sejam, devidamente, justificados e legitimados.

    Ainda no começo de minha carreira profissional quando já não estava mais tão deslumbrado com o jornalismo, mas também não me indispunha com facilidade para aventuras investigativas -, fui designado por minha chefa para cobrir a visita de nosso então Presidente da República a um país árabe. Quando fui comunicado de tal missão, devo admitir que um misto de receio com satisfação tomou conta de mim. Afinal, para alguém acostumado a trabalhar como setorista em Brasília, mais afeito a questões de política doméstica do que de política exterior, o desafio da empreitada não poderia passar despercebido. A viagem do Presidente poderia, todavia, significar meu primeiro passo numa tão sonhada carreira como correspondente internacional.

    Como nunca fui uma exceção às regras que melhor caracterizam nossa sociedade, em geral, e nossa psique, em particular, posso dizer que eu também sofria daquela idealização pueril e ingênua que nos acomete com certa frequência. Aquele personagem, em especial, por ocupar o mais alto cargo representativo de nossa República, não poderia incitar no ainda inexperiente profissional nada menos do que temor e deferência. O problema é que, enquanto o respeito abria portas, o receio criava uma barreira instransponível entre nós dois. Não ousava fazer a ele perguntas um pouco mais incômodas não por falta de oportunidade ou por parca relevância. Estou certo de que as questões que me vinham à mente eram pertinentes e condiziam com o que meu público buscava saber. O que me imobilizava, porém, era imaginar aquele ser humano sobre um pedestal supremo e inatingível.

    Aos trancos e barrancos, tentei lidar com essas limitações da melhor forma possível. No fundo, estava ciente de que as perspectivas de curto prazo não eram nada animadoras. Até que, durante nossa estadia no exterior, o Presidente foi convidado a visitar uma mesquita na capital daquele belíssimo país. A princípio, apenas mais um compromisso protocolar na atribulada agenda de um chefe de Estado. Apesar do laicismo do país visitado, tal gesto poderia, de alguma forma, consolidar a almejada aproximação dos nossos potenciais clientes árabes. No entanto, o detalhe que nosso governante desconhecia é que, ao entrar na mesquita, pediriam a ele que retirasse seus sapatos. Assim, o que seria um pormenor transformou-se, rapidamente, numa fonte de embaraço e de comicidade.

    Talvez por desmazelo, talvez por descuido… Não importa! As meias do Senhor Presidente da República estavam rasgadas! Não posso cometer a difamação de dizer que estavam sujas! Isso, não! Por uma questão de ética, não costumo aumentar o teor das fofocas. Digo, das notícias! A cena foi, levemente, constrangedora, mas não chegou a gerar um incidente diplomático. A verdade é que aquelas meias estavam muito esburacadas, especialmente a que tentava, em vão, cobrir o pé direito! E para deleite de todos os fotógrafos presentes, os dedos daqueles pés quase desnudos pareciam encolher-se de vergonha, como se aquela mínima contração pudesse mitigar o efeito visual da insólita cena.

    — Por que não me avisaram que eu teria de ficar descalço?! perguntou a seus assessores um furibundo e envergonhado, mas ainda educado, chefe de Estado.

    Após o primeiro impacto, o experiente e matreiro político teve a habilidade suficiente para fazer daquele imprevisto mais uma oportunidade de aproximação de seus interlocutores árabes. Como um verdadeiro sem-vergonha, quebrou o protocolo com risadas e piadas, dando àquela situação um elevado grau de informalidade e de descontração. Mas, para mim, aquele acidente de percurso do homem mais poderoso de nossa República foi um autêntico divisor de águas. Reveladoras da simplicidade mais humana e comezinha, aquelas meias rotas e escangalhadas esfacelaram o muro que se erguia entre mim e o Presidente. E se, em minha mente, aquele poderoso homem caía, fragorosamente, de sua base celestial, quem mais poderia incutir medo e timidez neste não mais jovem correspondente internacional?

    Hoje em dia, não sei se o agora ex-Presidente continua descuidado com suas meias. Mas o que ele me ensinou, ainda que involuntariamente, segue guardado como um antídoto contra esses medos que habitam em nosso inconsciente. Vez ou outra, devo lembrar essa peculiar história a fim de superar meus bloqueios internos. No fim das contas, somos todos feitos da mesma matéria! Mas, então, onde estaria nosso diferencial? Creio, pois, que ele deve estar apenas na espirituosidade com que revelamos nossa face mais humana diante de terceiros, sendo eles estranhos ou não.

  • A tirania da coerência

    Desde cedo, acostumamo-nos a avaliar a coerência como uma elogiável característica a ser vista nas atitudes de algumas pessoas. Em sua ausência, as divergências entre o que se diz e o que se faz costumam ser apontadas com a virulência de que apenas os mais empedernidos moralistas dispõem. Mas uma vivência menos tirânica e intransigente pode sugerir que todos nós, sem exceção, refletimos em nossos atos as próprias contradições internas. Diferentemente de máquinas cuidadosamente planejadas, somos seres incompletos e em permanente mutação.

    Evidentemente, nem sempre essas transformações levam-nos às nossas melhores versões. Por mais que tentemos acreditar numa história linear de superação e de evolução, somos apresentados a desafios que nos fazem, volta e meia, sucumbir moral e animicamente. No entanto, as histórias de sucesso tendem a alcançar mais espectadores que os relatos de fracasso. Poucos parecem ser aqueles que nutrem uma honesta simpatia pelos derrotados e marginalizados. Em vista disso, creio ser suficiente contar o caso não de um errante qualquer, mas o de uma respeitada pessoa que viu na própria incoerência sua tábua de salvação. Conhecer um pouco de Rodolfo Pacheco ajudar-nos-á, pois, a rever alguns de nossos dogmas existenciais – essas supostas verdades absolutas que nos fazem ser tão casmurros e cabeças-duras.

    Dedicado pai de família, honesto e trabalhador, seu Pacheco era um típico pequeno-burguês a habitar uma de nossas efervescentes cidades. Proprietário de uma loja de materiais de construção, seu trabalho não lhe conferiu grande riqueza. Mas, apesar dos sacrifícios e da austeridade, ascendeu socialmente, chegando a ter uma vida razoavelmente confortável. Teimoso por natureza e sovina por convicção, não admitia que seus funcionários fizessem corpo mole durante o expediente. Se o trabalho era coisa a ser levada a sério, a disciplina acompanhava-o também em casa, onde sua esposa conseguia, muito raramente, amansá-lo. À relativa harmonia familiar sobrepunha-se, entretanto, a rigidez na criação de seu único filho. Seu Pacheco projetava em Diego nada menos do que a excelência, tanto em seus estudos como em seus afazeres fora da escola.

    — Ai de você, se um dia souber que anda fazendo coisa errada por aí! Não criei filho pra ser vagabundo! — prevenia um pai excessivamente preocupado com as armadilhas que rodeiam a juventude.

    Para satisfazer seu ego, seu Pacheco costumava comparar-se com os outros. Visava, especialmente, a família de seu antigo vizinho Antônio Ramires, pai de dois filhos adolescentes e servidor público. Se o trabalho do pobre vizinho gerava um certo desprezo, muito pior era o tipo de criação que a família Ramires dispensava para seus rebentos. Excessivamente permissivo e liberal, Antônio

    deveria, segundo o antiquado seu Pacheco, ser visto como um espantalho moral para todo e qualquer cidadão de bem, devidamente cioso dos perigos que ideias muito modernas representariam às famílias e à juventude.

    Essa discreta antipatia por Antônio foi, ao longo de muitos anos, alimentada por futricos e fofocas até que Diego revelou ter transcendido os limites de uma criação tão rígida. Tomado pela mais lancinante angústia, mas também pela mais resoluta coragem, Diego revelou a seus pais ser homossexual. Tamanho desplante não poderia, obviamente, passar sem maiores consequências! Onde já se viu?! O descaramento custou a antiga e superficial harmonia da casa. Não era mais possível dirigir a palavra tampouco o olhar àquele indecente jovem que vivia sob o mesmo teto do impoluto Rodolfo Pacheco! Se o amor não era costumeiramente expressado, nunca havia faltado conforto material àquele que outrora era chamado de filho.

    Por muitos anos, o suporte materno foi o único esteio que amparou o pobre rapaz. Sem perspectiva de mudança na relação com seu pai, Diego formou-se na faculdade e foi trabalhar no estrangeiro. Não sei dizer em qual país, mas atravessou o Atlântico – distante o suficiente para tentar esquecer o sofrimento que um pai pode causar a seu filho. Mas, com o tempo, até mesmo as pessoas mais inflexíveis e intransigentes são capazes de surpreender. De vez em quando, o grande espetáculo da vida demanda improvisos e correções, haja vista a limitada serventia de seus roteiros. Assim, foi por meio de um telefonema que Diego soube que seu pai, angustiado por uma doença terminal, desejava corrigir o maior de todos os seus erros.

    Que bom que você veio, meu filho! Eu não poderia descansar em paz, se não pudesse te pedir perdão por ter sido tão injusto com você.

    Entre lágrimas e beijos, abraçaram-se pai e filho. Talvez pela primeira vez, Diego sentia como era ser amado por seu pai. Seu nervosismo e sua apreensão foram abafados pelo calor que emanava do peito daquele homem tão claramente debilitado, mas tão forte e impávido em outros tempos. Todo o sofrimento causado por anos de desprezo esmaecia diante do reconhecimento paterno de que estava errado. Não obstante o pedido de perdão ter chegado somente na véspera de seus derradeiros estertores, a sinceridade de tal ato transbordava dos olhos do enfermo pai. Diego sabia o quão difícil seria para um sujeito tão caturra e grosseirão como o pai reconhecer um erro e expressar seu amor. Nem mesmo a deprimente situação em que se encontrava reduziria a importância do último capítulo da história de Rodolfo Pacheco.

    Seu Pacheco foi, ao longo de praticamente toda sua vida, escravo de uma determinada visão de mundo. Suas ideias não admitiam o diferente, o heterogêneo, o sincrético. Não estava autorizado sequer a colocar em dúvida a valência moral de tal código de conduta. Mas seu último ato gravou na memória e no coração de seu filho que algumas de nossas incoerências podem ser salutares.

    Mais do que romper os grilhões de seus preconceitos, seu Pacheco conseguiu libertar-se, enfim, da tirania de uma inútil e nefasta coerência.

  • A arte de não se levar a sério

    Poucas são as pessoas que realmente sabem como não se levarem a sério. Infelizmente, não faço parte desse privilegiado grupo. Mas posso afirmar que esses seres iluminados costumam ter uma expectativa de vida mais longeva que os demais mortais, com menos cortisol e mais endorfina. Em outras palavras, menos estresse e mais alegria. A bem da verdade, para não ficar apenas em elucubrações pseudocientíficas e melhor sustentar minha tese, usarei o exemplo de um velho e estimado amigo chamado Jânio.

    Diferente de seu tocaio Jânio Quadros – que se levou muito a sério, tentou uma manobra política estapafúrdia e deu com os burros n’água -, meu amigo Jânio sabe como não se levar a sério com maestria. É o tipo de sujeito que faz galhofa de si, escarnece de seus defeitos e zomba de seus erros. Mas quem o conhece bem, como é o meu caso, sabe que suas idiossincrasias não se dão por autocomiseração tampouco por autodesprezo. Pelo contrário! A leveza característica com que lida consigo e com os outros sugere uma paz de espírito e uma inteligência emocional invejáveis.

    Creio que a primeira vez que a elevada maturidade espiritual de Jânio chamou minha atenção foi quando assisti a sua derrota no campeonato de botão do bairro. Em plena adolescência, não tínhamos tantos compromissos para os quais dar mediana importância. Aquele torneio, entretanto, valia mais que a honra de todos os seus competidores. Um fim de semana inteiro dedicado à magia do futebol de botão, desde o sorteio de grupos até a entrega do troféu. Jânio, notório botonista do bairro, era considerado o favorito ao título por todos os comentaristas esportivos da região. Embalado por uma campanha avassaladora e invicta, chegou à final com pinta de campeão. O problema é que, ao comemorar seu único gol na partida, machucou sua mão direita. Com apenas a esquerda à sua disposição, não conseguiu mais jogar satisfatoriamente e levou uma virada triunfal de seu oponente. Apesar dos olhos marejados, superou o baque e, muito dignamente, reconheceu a vitória com um sorriso no rosto e um abraço em seu adversário.

    A segunda vez foi quando soube de seu fracasso no concurso para a Receita Federal. Muitos podem até tentar contemporizar o feito, mas fui testemunha de seu comprometimento e de sua dedicação para aquele certame. Sei o quão importantes eram aqueles malditos exames para ele. Por mais de um ano, Jânio dedicou, diariamente, horas a fio na preparação para as provas. Priorizou os estudos, prescindiu do futebol das quartas-feiras, abriu mão de muitas festas. Mas, infelizmente, a aprovação não foi conquistada. Todos nós, amigos de Jânio, pensávamos que ele sucumbiria a uma fase de desgosto e de tristeza profundos. Ledo engano! No dia seguinte à divulgação da lista de aprovados, lá estava Jânio fazendo piada de seu malogro e organizando o futebol daquela semana.

    Devo admitir que por muito tempo, esses e outros feitos de Jânio me passaram despercebidos. Geralmente, levamos um tempo para compreender o significado e a importância de muitos dos eventos que testemunhamos. Talvez por desatenção, talvez por insensibilidade. O fato é que a vida seguia seu rumo, sem que a altivez de Jânio pudesse ser, devidamente, apreciada por mim e pelos demais amigos. Até que um dia assisti à uma entrevista dada por uma veterana e renomada atriz. Com mais de seis décadas de trabalhos na televisão, no teatro e no cinema, a octogenária artista foi perguntada sobre qual seria seu segredo para tamanha longevidade.

    Não se levar a sério – sentenciou, muito originalmente, a jovem senhora.

    A simplicidade e a objetividade de tal resposta cativaram minha atenção. Quase imediatamente, a figura de Jânio veio-me à mente como um poderoso exemplo de vida. Não somente pelo modo com que lidou com alguns de seus fracassos, senão que por suas atitudes mais cotidianas. Livre das insanas métricas de perfectibilidade e de produtividade, meu amigo concebe uma vida mais equilibrada e saudável. Ciente de suas limitações, mas também de suas qualidades, celebra menos os resultados instagramáveis do que os longos processos de aprendizagem. Longe de levá-lo ao desleixo ou à passividade, sua visão de mundo permite-lhe desfrutar da graça e da beleza da vida nas coisas aparentemente mais simples e banais.

    Pessoas que se levam, demasiadamente, a sério tendem a ser chatas e egocêntricas. Em tempos de tantas rabugices e malquerenças, nada melhor do que desfazer carrancas e maus-humores com boas doses de humor. Colocando em xeque, antes de tudo, nossa sisudez, teremos mais chances de administrar nossas falhas e de apreciar nossas conquistas. Oxalá possamos todos aprender mais com pessoas como Jânio!

  • Fragmentos de mais uma noite em claro

    Abro os olhos e vejo que o sol vespertino de um certo domingo ainda teima em transmitir um pouco de vida a um fétido e pestilento cômodo. Pelas frestas da janela, a luz do sol ilumina meu quarto, aparentemente vandalizado por poderosos demônios desconhecidos. Aos poucos, recobro minhas forças e sinto o peso de mais uma interminável e irresponsável bebedeira. Em meio a uma breve crise de consciência, escuto uma batida na porta.

    —  Carlos Alberto! Você está bem? —  pergunta Miriam, minha vizinha de porta.

    —  Vou deixar aqui um remedinho pra você. Toma! Vai melhorar! —  insiste aquela que talvez tenha sido meu mais fiel anjo da guarda.

    Com a boca seca e a cabeça latejante, tento refazer, mentalmente, o percurso da noite passada. Mas é tudo tão confuso! Memória e imaginação misturam-se como duas amantes que compartilham entre si os mesmos lençóis. Um turbilhão de imagens e de sons passa pela minha cabeça, sem que eu possa compreender o que significa tudo aquilo.

    Vejo em minha frente uma rua iluminada, algumas mesas sobre a calçada, muitas pessoas animadas. O vaivém de copos e de garrafas enfeitiça este passeante já desobrigado de eventuais compromissos. O sorriso naquele rosto dá continuidade a uma sequência de ações e reações não planejada para aquela noite. Já não estou mais sozinho, pois escuto sua voz alternar momentos de doçura com outros de altivez. Com facilidade, a conversa flui e explora diversos assuntos: música, literatura, política e até futebol. A atração provocada pelo seu olhar só poderia ser mantida por seu humor inteligente e sarcástico. O gosto de seus lábios e a maciez de sua pele impelem-me a querer mais de sua companhia.

    —  Já está tarde, preciso ir embora  diz aquela com quem combino um próximo encontro.

    Não estou mais em sua companhia. Dou um passo à frente, respiro fundo e vejo outras pessoas igualmente alvoroçadas. O ambiente é outro, mas a música alta e a excitação generalizada sugerem que a noite ainda chegará ao seu ápice. Três mesas de sinuca dispostas ao fundo do salão oferecem mais uma opção de diversão a uma pequena súcia de boêmios. Parece que a saudável confraternização do fim de semana começa a dar lugar para os excessos de uma noite imprevisível. Mas eu continuo lá… Necessito permanecer onde estou! Não sei como exatamente, mas aquilo tudo me dá força para respirar com mais vigor. As amarguras de uma vida mal concebida são anestesiadas a cada gole daquela bebida enganadoramente milagrosa.

    De repente, o barulho da jogatina é interrompido por gritos e alguns copos quebrados. A algazarra toma conta do bar, alguns tentam se proteger, outros são enxotados de lá. Minha mente e meu corpo já não interagem da mesma forma. Minhas percepções de tempo e de espaço alteraram-se, completamente. Enfim, as muitas lacunas que se apresentam em minha memória começam a distorcer a narrativa que eu tentava, em vão, construir.

    Vozes altissonantes e rostos desfigurados surgem aqui e acolá. Como se estivesse em um baile de máscaras, não consigo mais identificar aqueles que me cercam. Não são amigos, pois querem sugar o pouco de energia que ainda me resta. O cenário, mais uma vez, mudou! Não há mais mesas, não há mais alegria. São poucos os remanescentes. O fogo daquele isqueiro é ofuscado pelo farol dos poucos carros que cruzam a avenida em alta velocidade. Não tenho ideia de que horas são, mas os pássaros já começaram a cantoria. Não sei onde estou, mas começo a caminhar. De alguma maneira, sei que ainda tenho um endereço para onde me dirigir. Passa uma viatura de polícia, um rapaz faz a sua corrida matinal, a senhora faz suas compras na feira do bairro. Um novo dia começou! E eu aqui… Desgraçado e só!

    Não adianta negar e tentar se enganar, inconsequentemente. Se continuar na mesma toada, essa vida de excessos ainda vai me matar! Chegou o momento de tomar uma resolução e de acabar com tudo isso. Vou atender o telefone, organizar essa bagunça e dar início a uma vida nova!

    —  Alô! Carlos Alberto, você vai demorar? Esqueceu que hoje é aniversário do Marcelo?! Tá todo mundo aqui! Não se esqueça de trazer algumas bebidas! – ordena uma voz conhecida, porém não identificada.

    Na verdade, as palavras que acabei de ouvir soaram mais como um cândido pedido do que como uma maliciosa ordem. E que bom saber que sentiram minha falta! Posso dar uma rápida passada por lá, dar um abraço no aniversariante e voltar cedo para casa. Quer saber?! Que se foda tudo! Não fiz mal a ninguém, e tudo o que fiz foi com o meu dinheiro. Vou tomar um banho, comer alguma coisa e ir, sim, àquela festa! Somente amanhã será uma nova segunda-feira, dia de valorosas resoluções e de intrépidos recomeços.

  • A Vida e as suas Escolhas

    E se, de repente, nos fosse dada a capacidade de vivenciar as consequências de decisões que não tomamos? Não falo, evidentemente, de questões rotineiras e banais, o que seria uma insanidade total. Mas somente de escolhas que podiam ter transformado nossas vidas por completo. Como reagiríamos, se tivéssemos a possibilidade de sentir as tempestades e as bonanças de caminhos nunca percorridos? Ainda conseguiríamos nos reconhecer por trás de tão distintas experiências?

    Diante da improbabilidade do desenvolvimento de uma tecnologia que permita tal maluquice, recorramos, pois, a um exercício mental de digressão. Como o aluno que aplica uma prova real sobre sua operação matemática inicial, poderíamos, dessa forma, especular a respeito da conveniência de nossas escolhas. Eu sei, minha cara leitora! A vida é, infinitamente, mais complexa e incerta do que uma operação matemática. Mas você também já deve ter-se imaginado como estaria agora, caso tivesse feito uma escolha diferente em algum momento de sua vida.

    Geralmente, essas conjecturas vêm às nossas mentes quando quebramos a cara ou estamos, simplesmente, com algum tempo disponível. Mas, contrariando a agitação desvairada desta cidade, não tenho podido reclamar de escassez de tempo. Poderia, aqui, enriquecer minha fala com a descrição de uma grande desilusão amorosa ou de uma demissão laboral. Mas, se assim agisse, faltaria com a verdade e sabotaria o objetivo inicial do exercício de imaginação proposto. Por mais incerto que esteja a respeito da real utilidade de tal esforço, preciso parecer convincente, não acha? A bem da verdade, o que está por trás de tudo isso é uma vã e pueril tentativa de experimentar diferentes vidas – umas melhores; outras nem tanto.

    Pergunto-me, volta e meia, o que teria acontecido comigo, se não tivesse pegado aquele ônibus, feito aquela viagem, começado uma conversa trivial com aquela jovem. Ou ainda, se tivesse escolhido outra profissão, insistido em estender aquela estadia, dito “até breve” em vez de “adeus”. Claro está que as decisões que tomamos ou deixamos de tomar podem afetar, diretamente, não apenas as nossas vidas, como as de outras pessoas também. Até mesmo aqueles que nunca vimos à nossa frente podem ser impactados por elas. Quantas pessoas alegam, por aí, ter encontrado a sua alma gêmea por acaso? Nesse sentido, o acaso nada mais foi do que o resultado de uma decisão anterior, por mais involuntário que possa ele ter sido. Ah, sim… Aquela parada rápida na cafeteria do centro da cidade teria sido tão banal, caso nunca tivesse propiciado o encontro entre dois corpos e duas mentes que se complementam tão bem! Teria eu sentido o prazer de tamanha excitação, caso não tivesse ido àquela festa supostamente tão chata e desanimada?

    Realmente, o que mais me fascina como consequência de nossas próprias escolhas são, justamente, essas relações interpessoais que estabelecemos com maior ou menor frequência. Penso que a riqueza de nossas interações sociais reflete a complexidade de uma grande teia social que construímos ao longo de nossas vidas. Quanto mais intensas e enriquecedoras forem essas nossas experiências com outras pessoas, mais resistentes serão os seus fios. Mas, além das relações amorosas e sexuais, existem os mais variados tipos de interação. Dessa forma, seria eu capaz de compreender tão precocemente o valor de uma verdadeira amizade, caso tivesse ignorado aquele jovem mais novo que me fez uma pergunta tão idiota? Ou ainda, poderia eu ter esse tipo de conversa com você, nobre leitora, caso não tivesse decidido escrever sobre a vida e seus encantos misteriosos?

    De fato, não podemos comparar o que vivemos com o que podíamos ter vivido. Além disso, é evidente que não dispomos de tanto controle sobre nossas vidas. No entanto, as frequentes contingências que se abatem sobre elas são intermediadas por resoluções que, de vez em quando, nós tomamos – mesmo que despretensiosamente. Por mais que as consequências não tenham sido planejadas e que as ações não tenham sido, profundamente, avaliadas, a bruma que esconde o que está diante de nós também faz parte das nossas vidas. Nós somos nós somente porque vivemos as agruras, os prazeres, os aprendizados e as decepções de nossas caminhadas de um jeito que somente nós podíamos ter vivido.

    Enfim, creio que não importa se um dia quisemos, realmente, estar aqui. Mais interessante é saber como chegamos a este estágio. É desse tipo de particularidade que somos feitos. Nem sempre essa singularidade será do agrado de outras pessoas. Mas, quando aprendemos a valorizá-la, ficamos mais livres para seguir nossos caminhos, por mais tortuosos que eles possam ser. Assim sendo, não existem, pois, decisões certas ou erradas! Por mais equivocadas que possam parecer, todas elas ajudaram a moldar o nosso ser.

  • Um Fim de Tarde

    A agitação urbana de um fim de tarde qualquer esconde a beleza dos detalhes de uma rotina, por vezes, sufocante. O encontro involuntário de corpos esconde histórias de superação e de fracasso. Rostos pálidos, corpos suados, almas vazias. A garotinha olha pela janela do vagão. Alguns ficaram na estação! Não houve tempo, mas haverá uma segunda chance. O silêncio dos que entraram convida-me à observação. São Bento, Sé, Japão-Liberdade. Mais pessoas entram no vagão; outras tantas ficam pelo caminho. Meu destino está longe, ainda há tempo para reflexões.

    O jovem à frente carrega em sua mochila diversos sonhos. Em meio a tantos livros, suas habilidades vão sendo, aos poucos, lapidadas. Em breve, alguém poderá até pagar por elas. Mas, hoje, o dia não foi dos mais gratificantes. Seu rosto expressa a decepção por uma resposta mal formulada. A única pergunta que não poderia ser feita foi, justamente, uma das escolhidas por seu algoz. Uma só questão capaz de soterrar o esforço de uma noite em claro. Sim, apenas uma noite! Convenhamos: outros afazeres eram, igualmente, inadiáveis. Mas a resignação é o remédio mais barato com que saudamos nossas impotências.

    A senhora ao lado leva consigo um bolo cuidadosamente mantido sobre seu colo. O esmero é tanto, que fico até constrangido por parecer indiscreto. Mas não posso deixar de notar um certo ar de satisfação e de orgulho pela obra finalizada. Foi ela que ficou encarregada de fazer a sobremesa, já que para seus comensais são as mãos dela as mais competentes na arte da culinária. Tamanha responsabilidade nada mais é do que o reconhecimento por um talento aperfeiçoado pelos serviços diários de uma brava dona de casa. Sua netinha mais velha, adentrando a adolescência, merece mais esse empenho! Ai de quem ousasse tirar dela essa saborosa tarefa!

    Olho para o outro lado, e vejo um rapaz. Não mais carrega dentro de si aquela ingenuidade tão típica dos jovens, mas ainda não sucumbe ao peso das próprias frustrações. Sua coluna ainda é ereta; seus braços ainda são rijos. Suas escolhas, porém, não foram as melhores. O contraste entre a vida sonhada e a vida vivida faz dele um ser humano, talvez, infeliz. Nem sempre está pensativo, pois raramente tem tempo para essas coisas! Mas, nesta tarde, o seu olhar vazio e a sua coluna arqueada denunciam a melancolia de sua existência. Até mesmo os trabalhadores mais eficientes podem envergar sob o peso de decepções tão profundas. É necessário continuar, seguir em frente! “Amanhã vai ser outro dia” – é o que costuma dizer um tal de Chico por aí.

    A dois passos de mim, a jovem concentra sua atenção na tela de seu celular. Pelo movimento de seus dedos e o sorriso em seus lábios, mantém uma conversa bastante animada. Quiçá por descuido, lança um breve olhar em minha direção. Seus olhos não chegam a ser de ressaca, mas projetam intensidade e mistério. Está a poucas estações de encontrar sua amada. Tão jovem, tão certa de tudo! No começo, tudo foi tão doloroso, mas eles tiveram de aceitar. A mãe acolheu; o pai renegou; o irmão não entendeu. Hoje em dia, se o tabu foi quebrado, a antiga cumplicidade familiar ainda pena para ser restabelecida. Mas, um dia, ele vai dobrar os próprios preconceitos!

    Histórias de vida tão distintas que aguçam a minha curiosidade pelo desconhecido. A frenética e amorfa multidão ganha cadência e toma formas mais humanas. E eu, minha cara amiga? Por que carrego esse semblante? Tristeza, contemplação, fadiga ou apenas vadiagem? Amanhã, não terei tempo para tamanha divagação. Também faço parte da mesma engrenagem! Por ora, é preciso seguir o fluxo. De volta a uma rotina modorrenta, minha estação já está logo ali.

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