Guilherme Backes

  • A Vida e as suas Escolhas

    E se, de repente, nos fosse dada a capacidade de vivenciar as consequências de decisões que não tomamos? Não falo, evidentemente, de questões rotineiras e banais, o que seria uma insanidade total. Mas somente de escolhas que podiam ter transformado nossas vidas por completo. Como reagiríamos, se tivéssemos a possibilidade de sentir as tempestades e as bonanças de caminhos nunca percorridos? Ainda conseguiríamos nos reconhecer por trás de tão distintas experiências?

    Diante da improbabilidade do desenvolvimento de uma tecnologia que permita tal maluquice, recorramos, pois, a um exercício mental de digressão. Como o aluno que aplica uma prova real sobre sua operação matemática inicial, poderíamos, dessa forma, especular a respeito da conveniência de nossas escolhas. Eu sei, minha cara leitora! A vida é, infinitamente, mais complexa e incerta do que uma operação matemática. Mas você também já deve ter-se imaginado como estaria agora, caso tivesse feito uma escolha diferente em algum momento de sua vida.

    Geralmente, essas conjecturas vêm às nossas mentes quando quebramos a cara ou estamos, simplesmente, com algum tempo disponível. Mas, contrariando a agitação desvairada desta cidade, não tenho podido reclamar de escassez de tempo. Poderia, aqui, enriquecer minha fala com a descrição de uma grande desilusão amorosa ou de uma demissão laboral. Mas, se assim agisse, faltaria com a verdade e sabotaria o objetivo inicial do exercício de imaginação proposto. Por mais incerto que esteja a respeito da real utilidade de tal esforço, preciso parecer convincente, não acha? A bem da verdade, o que está por trás de tudo isso é uma vã e pueril tentativa de experimentar diferentes vidas – umas melhores; outras nem tanto.

    Pergunto-me, volta e meia, o que teria acontecido comigo, se não tivesse pegado aquele ônibus, feito aquela viagem, começado uma conversa trivial com aquela jovem. Ou ainda, se tivesse escolhido outra profissão, insistido em estender aquela estadia, dito “até breve” em vez de “adeus”. Claro está que as decisões que tomamos ou deixamos de tomar podem afetar, diretamente, não apenas as nossas vidas, como as de outras pessoas também. Até mesmo aqueles que nunca vimos à nossa frente podem ser impactados por elas. Quantas pessoas alegam, por aí, ter encontrado a sua alma gêmea por acaso? Nesse sentido, o acaso nada mais foi do que o resultado de uma decisão anterior, por mais involuntário que possa ele ter sido. Ah, sim… Aquela parada rápida na cafeteria do centro da cidade teria sido tão banal, caso nunca tivesse propiciado o encontro entre dois corpos e duas mentes que se complementam tão bem! Teria eu sentido o prazer de tamanha excitação, caso não tivesse ido àquela festa supostamente tão chata e desanimada?

    Realmente, o que mais me fascina como consequência de nossas próprias escolhas são, justamente, essas relações interpessoais que estabelecemos com maior ou menor frequência. Penso que a riqueza de nossas interações sociais reflete a complexidade de uma grande teia social que construímos ao longo de nossas vidas. Quanto mais intensas e enriquecedoras forem essas nossas experiências com outras pessoas, mais resistentes serão os seus fios. Mas, além das relações amorosas e sexuais, existem os mais variados tipos de interação. Dessa forma, seria eu capaz de compreender tão precocemente o valor de uma verdadeira amizade, caso tivesse ignorado aquele jovem mais novo que me fez uma pergunta tão idiota? Ou ainda, poderia eu ter esse tipo de conversa com você, nobre leitora, caso não tivesse decidido escrever sobre a vida e seus encantos misteriosos?

    De fato, não podemos comparar o que vivemos com o que podíamos ter vivido. Além disso, é evidente que não dispomos de tanto controle sobre nossas vidas. No entanto, as frequentes contingências que se abatem sobre elas são intermediadas por resoluções que, de vez em quando, nós tomamos – mesmo que despretensiosamente. Por mais que as consequências não tenham sido planejadas e que as ações não tenham sido, profundamente, avaliadas, a bruma que esconde o que está diante de nós também faz parte das nossas vidas. Nós somos nós somente porque vivemos as agruras, os prazeres, os aprendizados e as decepções de nossas caminhadas de um jeito que somente nós podíamos ter vivido.

    Enfim, creio que não importa se um dia quisemos, realmente, estar aqui. Mais interessante é saber como chegamos a este estágio. É desse tipo de particularidade que somos feitos. Nem sempre essa singularidade será do agrado de outras pessoas. Mas, quando aprendemos a valorizá-la, ficamos mais livres para seguir nossos caminhos, por mais tortuosos que eles possam ser. Assim sendo, não existem, pois, decisões certas ou erradas! Por mais equivocadas que possam parecer, todas elas ajudaram a moldar o nosso ser.

  • Um Fim de Tarde

    A agitação urbana de um fim de tarde qualquer esconde a beleza dos detalhes de uma rotina, por vezes, sufocante. O encontro involuntário de corpos esconde histórias de superação e de fracasso. Rostos pálidos, corpos suados, almas vazias. A garotinha olha pela janela do vagão. Alguns ficaram na estação! Não houve tempo, mas haverá uma segunda chance. O silêncio dos que entraram convida-me à observação. São Bento, Sé, Japão-Liberdade. Mais pessoas entram no vagão; outras tantas ficam pelo caminho. Meu destino está longe, ainda há tempo para reflexões.

    O jovem à frente carrega em sua mochila diversos sonhos. Em meio a tantos livros, suas habilidades vão sendo, aos poucos, lapidadas. Em breve, alguém poderá até pagar por elas. Mas, hoje, o dia não foi dos mais gratificantes. Seu rosto expressa a decepção por uma resposta mal formulada. A única pergunta que não poderia ser feita foi, justamente, uma das escolhidas por seu algoz. Uma só questão capaz de soterrar o esforço de uma noite em claro. Sim, apenas uma noite! Convenhamos: outros afazeres eram, igualmente, inadiáveis. Mas a resignação é o remédio mais barato com que saudamos nossas impotências.

    A senhora ao lado leva consigo um bolo cuidadosamente mantido sobre seu colo. O esmero é tanto, que fico até constrangido por parecer indiscreto. Mas não posso deixar de notar um certo ar de satisfação e de orgulho pela obra finalizada. Foi ela que ficou encarregada de fazer a sobremesa, já que para seus comensais são as mãos dela as mais competentes na arte da culinária. Tamanha responsabilidade nada mais é do que o reconhecimento por um talento aperfeiçoado pelos serviços diários de uma brava dona de casa. Sua netinha mais velha, adentrando a adolescência, merece mais esse empenho! Ai de quem ousasse tirar dela essa saborosa tarefa!

    Olho para o outro lado, e vejo um rapaz. Não mais carrega dentro de si aquela ingenuidade tão típica dos jovens, mas ainda não sucumbe ao peso das próprias frustrações. Sua coluna ainda é ereta; seus braços ainda são rijos. Suas escolhas, porém, não foram as melhores. O contraste entre a vida sonhada e a vida vivida faz dele um ser humano, talvez, infeliz. Nem sempre está pensativo, pois raramente tem tempo para essas coisas! Mas, nesta tarde, o seu olhar vazio e a sua coluna arqueada denunciam a melancolia de sua existência. Até mesmo os trabalhadores mais eficientes podem envergar sob o peso de decepções tão profundas. É necessário continuar, seguir em frente! “Amanhã vai ser outro dia” – é o que costuma dizer um tal de Chico por aí.

    A dois passos de mim, a jovem concentra sua atenção na tela de seu celular. Pelo movimento de seus dedos e o sorriso em seus lábios, mantém uma conversa bastante animada. Quiçá por descuido, lança um breve olhar em minha direção. Seus olhos não chegam a ser de ressaca, mas projetam intensidade e mistério. Está a poucas estações de encontrar sua amada. Tão jovem, tão certa de tudo! No começo, tudo foi tão doloroso, mas eles tiveram de aceitar. A mãe acolheu; o pai renegou; o irmão não entendeu. Hoje em dia, se o tabu foi quebrado, a antiga cumplicidade familiar ainda pena para ser restabelecida. Mas, um dia, ele vai dobrar os próprios preconceitos!

    Histórias de vida tão distintas que aguçam a minha curiosidade pelo desconhecido. A frenética e amorfa multidão ganha cadência e toma formas mais humanas. E eu, minha cara amiga? Por que carrego esse semblante? Tristeza, contemplação, fadiga ou apenas vadiagem? Amanhã, não terei tempo para tamanha divagação. Também faço parte da mesma engrenagem! Por ora, é preciso seguir o fluxo. De volta a uma rotina modorrenta, minha estação já está logo ali.

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