Crônicas

A Vida e as suas Escolhas

E se, de repente, nos fosse dada a capacidade de vivenciar as consequências de decisões que não tomamos? Não falo, evidentemente, de questões rotineiras e banais, o que seria uma insanidade total. Mas somente de escolhas que podiam ter transformado nossas vidas por completo. Como reagiríamos, se tivéssemos a possibilidade de sentir as tempestades e as bonanças de caminhos nunca percorridos? Ainda conseguiríamos nos reconhecer por trás de tão distintas experiências?

Diante da improbabilidade do desenvolvimento de uma tecnologia que permita tal maluquice, recorramos, pois, a um exercício mental de digressão. Como o aluno que aplica uma prova real sobre sua operação matemática inicial, poderíamos, dessa forma, especular a respeito da conveniência de nossas escolhas. Eu sei, minha cara leitora! A vida é, infinitamente, mais complexa e incerta do que uma operação matemática. Mas você também já deve ter-se imaginado como estaria agora, caso tivesse feito uma escolha diferente em algum momento de sua vida.

Geralmente, essas conjecturas vêm às nossas mentes quando quebramos a cara ou estamos, simplesmente, com algum tempo disponível. Mas, contrariando a agitação desvairada desta cidade, não tenho podido reclamar de escassez de tempo. Poderia, aqui, enriquecer minha fala com a descrição de uma grande desilusão amorosa ou de uma demissão laboral. Mas, se assim agisse, faltaria com a verdade e sabotaria o objetivo inicial do exercício de imaginação proposto. Por mais incerto que esteja a respeito da real utilidade de tal esforço, preciso parecer convincente, não acha? A bem da verdade, o que está por trás de tudo isso é uma vã e pueril tentativa de experimentar diferentes vidas – umas melhores; outras nem tanto.

Pergunto-me, volta e meia, o que teria acontecido comigo, se não tivesse pegado aquele ônibus, feito aquela viagem, começado uma conversa trivial com aquela jovem. Ou ainda, se tivesse escolhido outra profissão, insistido em estender aquela estadia, dito “até breve” em vez de “adeus”. Claro está que as decisões que tomamos ou deixamos de tomar podem afetar, diretamente, não apenas as nossas vidas, como as de outras pessoas também. Até mesmo aqueles que nunca vimos à nossa frente podem ser impactados por elas. Quantas pessoas alegam, por aí, ter encontrado a sua alma gêmea por acaso? Nesse sentido, o acaso nada mais foi do que o resultado de uma decisão anterior, por mais involuntário que possa ele ter sido. Ah, sim… Aquela parada rápida na cafeteria do centro da cidade teria sido tão banal, caso nunca tivesse propiciado o encontro entre dois corpos e duas mentes que se complementam tão bem! Teria eu sentido o prazer de tamanha excitação, caso não tivesse ido àquela festa supostamente tão chata e desanimada?

Realmente, o que mais me fascina como consequência de nossas próprias escolhas são, justamente, essas relações interpessoais que estabelecemos com maior ou menor frequência. Penso que a riqueza de nossas interações sociais reflete a complexidade de uma grande teia social que construímos ao longo de nossas vidas. Quanto mais intensas e enriquecedoras forem essas nossas experiências com outras pessoas, mais resistentes serão os seus fios. Mas, além das relações amorosas e sexuais, existem os mais variados tipos de interação. Dessa forma, seria eu capaz de compreender tão precocemente o valor de uma verdadeira amizade, caso tivesse ignorado aquele jovem mais novo que me fez uma pergunta tão idiota? Ou ainda, poderia eu ter esse tipo de conversa com você, nobre leitora, caso não tivesse decidido escrever sobre a vida e seus encantos misteriosos?

De fato, não podemos comparar o que vivemos com o que podíamos ter vivido. Além disso, é evidente que não dispomos de tanto controle sobre nossas vidas. No entanto, as frequentes contingências que se abatem sobre elas são intermediadas por resoluções que, de vez em quando, nós tomamos – mesmo que despretensiosamente. Por mais que as consequências não tenham sido planejadas e que as ações não tenham sido, profundamente, avaliadas, a bruma que esconde o que está diante de nós também faz parte das nossas vidas. Nós somos nós somente porque vivemos as agruras, os prazeres, os aprendizados e as decepções de nossas caminhadas de um jeito que somente nós podíamos ter vivido.

Enfim, creio que não importa se um dia quisemos, realmente, estar aqui. Mais interessante é saber como chegamos a este estágio. É desse tipo de particularidade que somos feitos. Nem sempre essa singularidade será do agrado de outras pessoas. Mas, quando aprendemos a valorizá-la, ficamos mais livres para seguir nossos caminhos, por mais tortuosos que eles possam ser. Assim sendo, não existem, pois, decisões certas ou erradas! Por mais equivocadas que possam parecer, todas elas ajudaram a moldar o nosso ser.

Guilherme Backes

Guilherme Backes é bacharel em Relações Internacionais pela UFSM e mestre em Ciência Política pela UFRGS. Gaúcho de Cruz Alta, atualmente reside na cidade de São Paulo. Estudioso de temas políticos e sociais, vê a Literatura não apenas como um refúgio pessoal, senão também como uma ferramenta para mergulhar mais profundamente nas entranhas de nossa sociedade. Escreve às quarta-feiras no Crônicas Cariocas

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