Guilherme Backes no Crônicas Cariocas

  • A sorte está lançada

    Em tempos de inteligência artificial, nada mais parece escapar dos famigerados algoritmos. Se curto um post aleatório ou compro um hambúrguer, se sofro de enxaqueca ou pego um empréstimo… Pouco importa! Meus dados estão aí, prontos para serem coletados, armazenados e monetizados. Se eles retratam nossos comportamentos, que tal surrupiar nossas identidades e torná-las rentáveis?

    Fico horas a fio navegando pelas redes sociais. São tantos os meus perfis, que já nem sei mais as minhas senhas. Postar vídeos curtos, contactar amigos e conhecidos, exibir minha rotina, sobrevalorizar meu currículo, expor meus pensamentos, compartilhar minhas fotos. O importante é fazer parte dessa grande comunidade virtual. Ser seguido e seguir quem está no hype. Quantas visualizações? Quantas curtidas? Será que vai viralizar? Quantos seguidores já tenho? Criar conteúdo! Mas que tipo de conteúdo? Engajamento! Mas engajar para quê? Sei lá! Não há tempo a perder. O feed é infinito e quem desaparece pode ser, totalmente, esquecido. Não quero ter minha existência negada. Precisamos de reconhecimento. Afinal, vivemos em sociedade.

    Quanta alegria, quanta saúde, quanta riqueza! Seria eu um pobre desafortunado diante de tão bem-aventurados seres? Aqui não há sermão, pois não há montanha à vista. Quando a ansiedade aperta, recorro ao fast food – algo bem mais mundano. Pouco romântico, mas visceralmente prazeroso. O cardápio de opções é tão grande, é tanta coisa saborosa! Batata frita, hambúrguer, cachorro-quente, pizza, refrigerante… Minha nossa, não sei o que escolher! Paga-se com o cartão de crédito. Que delícia! Mas foi tão rápido! Fugaz como um cometa que desaparece diante de nossos olhos. Ainda preciso de um doce! Passa-se o cartão, novamente! Depois a gente vê como pagar a maldita fatura.

    O colesterol está alto. O bom ou o ruim? Não sei, acho que o tal de LDL. A glicose também não está muito boa. Ah, a culpa é daquele docinho! Digo, daqueles docinhos, no plural. Tudo bem, tem um remedinho bom que você pode achar na farmácia mais próxima. Só precisa de prescrição médica. Fácil conseguir! E tem outro também para a sua insônia! Já aproveita para pegar aquele que lhe sugeri para a sua lombalgia. E a enxaqueca? Olha que ela pode voltar, hein! Melhor prevenir do que remediar. E haja organismo para tanto medicamento! Da farmácia para casa, de casa para um médico. Acho que exagerei na automedicação.

    O dinheiro está curto? Melhor recorrer a um empréstimo consignado. Os juros não são tão baixos, mas é o melhor que se consegue. O cartão de crédito estourou o limite, e do cheque especial nem se fala. Como vou pagar tanta dívida? O déficit é fiscal, mas a aflição é física. O drama é coletivo, mas o sofrimento é individual. O salário não chega sequer à terceira semana do mês. A culpa é sua, pois não sabe administrar o dinheiro. Mas está tudo tão caro! Calma, eu sei. Tenho um amigo que consegue esse dinheiro. Agiota? Não diria isso. Prefere penhorar suas joias? Todos estamos no mesmo barco. Sei não… Está vendo aquele transatlântico ali?

    Big Tech, Big Food, Big Pharma, Big Money. Perdoem-me pelo anglicismo, mas dizem que a globalização derruba fronteiras. Nossa amada Flor do Lácio pode ficar enciumada. São tantos os termos criados pelo Tio Sam que já não dou mais conta de levianas traduções. Conseguiremos fugir de tamanha distopia? Pode apostar que sim! Sonhar é necessário e a sorte está lançada. Aliás, já tentou alguma bet?

  • Os famosos doces de Pelotas

    Dizem os entendidos no assunto que não conseguimos recordar lembranças de nossa primeira infância por conta de uma tal amnésia infantil. Por razões que escapam de minha leiga compreensão, nossas recordações mais antigas não passam, muitas vezes, de fragmentos dispersos entre sensações, odores, sons e gostos desconexos.

    Mas daqueles doces eu me lembro muito bem… Talvez por eu ter, àquela época, cerca de 11 anos e estar, portanto, numa idade um pouquinho mais madura. Talvez por aqueles quitutes serem tão deliciosos e inesquecivelmente apetitosos. O fato é que aquelas guloseimas faziam a alegria não apenas minha, como de toda a criançada do bairro. Sabíamos todos nós que, a cada primeira semana de mês, a ruidosa e empoeirada caminhonete do vendedor de doces de Pelotas despontava na esquina da João Manoel com a Pinheiro Machado. Era o momento em que nossas famílias aproveitavam para abastecer suas despensas com um pouco daquelas delícias feitas em tão longínquos endereços.

    Se não me engano, Jorge era seu nome. Digo isso com pouca certeza, pois obviamente o foco de minha atenção não era o vendedor em si, tampouco o desenrolar da negociação pecuniária entre ele e minha mãe. Aquelas caixinhas retangulares recheadas de doces hipnotizavam minha mente, despertavam meu olfato, avivavam meu olhar e excitavam meu paladar. Quindins, pasteis de Santa Clara, camafeus, papos de anjo, olhos de sogra, queijadinhas. E, para os menos tradicionais, um pouco avessos à herança culinária lusitana, havia aqueles deleitosos bombons de morango. Todos eles cuidadosamente dispostos dentro de duas grandes sacolas escuras de viagem.

    — Que pena! Desta vez, ficaremos sem quindim — comentava, tristemente, minha mãe.

    — Tenho mais na caminhonete! Vou lá buscar para a senhora — retrucava o diligente vendedor.

    E como se não bastasse a fartura de guloseimas já expostas em nossa sala, Jorge voltava com mais caixinhas de quindim e com alguma novidade para nós. Como todos seus fregueses, tínhamos nossas preferências que não podiam faltar, mas, evidentemente, estávamos sempre abertos a experimentações degustativas. Jorge sabia o poder que detinha sobre seus clientes com aqueles manjares. A maestria com que os manejava perante nossos olhos fundia a delicadeza dos movimentos de uma bailarina com a precisão dos de um marceneiro. Para mim, a magia daquele cenário era feita, inicialmente, das cores vivas daquelas iguarias com o complemento posterior do sabor de cada uma delas.

    Feitas as escolhas, minha função naquele ato estava cumprida. Começavam, então, as negociações entre Jorge e minha mãe. Como num ritual minuciosamente encenado e repetido uma vez por mês, Jorge alisava seu bigode e retirava de uma das sacolas uma calculadora e um bloco de notas. Pelo que podia entender, ali estavam contabilizadas as suas vendas da semana ou do mês. Impossível relembrar os detalhes das tratativas, pois naquele momento eu já me deliciava com algum dos doces recém comprados. O almoço acabara de ser digerido, e Jorge sabia que aquela era a melhor hora para tentar a gula de seus fregueses.

    Eu não sei dizer por quanto tempo tivemos aqueles doces de Pelotas mensalmente dispostos em nossa cozinha. A percepção sobre o tempo muda conforme a fase da vida. Com 11 anos, minha impressão era de que o tempo custava muito para passar. Tantas eram as novidades a serem descobertas com aquela idade, que um ano só comportava uma miríade de acontecimentos. Vai ver aqueles doces surgiram em minha infância para que eu dispusesse de tempo suficiente para bem apreciá-los. Se fosse mais velho, a rotina de horários e de compromissos reduziria a relevância daqueles doces em minha vida.

    Quanto a Jorge, o vendedor de doces de Pelotas, o certo é que um dia ele não veio mais a nossa casa. Não sei se minha mãe resolveu parar de comprar seus doces, se Jorge nos trocou por fregueses mais endinheirados ou se ele simplesmente mudou de ramo. Só sei que um dia o presente virou passado e aqueles doces transformaram-se em lembrança. Uma feliz e tão saborosa lembrança.

  • O velho saudosismo de todos nós

    Por alguma razão que desafia meus parcos conhecimentos, todos nós somos mais ou menos saudosistas. Com isso, não quero dizer que estejamos, naturalmente, inclinados a um pungente estado de melancolia. Talvez o caso requeira alguns cuidados, mas não chega ao absurdo de tal fatalismo. De toda forma, creio que o passado seja um personagem que insiste em ser valorizado, mesmo quando seus atributos só podem ser, medianamente, apreciados.

    — Bom mesmo era no tempo do finado Clécio! Aquele galego era dos bons! Com ele, não tinha essa bagunça que virou esse condomínio!

    Peço desculpas pela interrupção, mas a amiga haverá de entender a indignação do infeliz morador. São altas horas da madrugada, e o pobre coitado ainda não conseguiu pregar os olhos. O antigo síndico, Clécio de Andrade, era um capitão reformado do Exército. Sujeito de poucos amigos, com sessenta e tantos anos de idade, fazia da administração daquele condomínio a sua grande profissão de fé. Após tantos anos de caserna, gerenciava-o com a mesma disciplina que um jovem tenente costuma liderar seu pelotão. Aqueles eram outros tempos, e, de fato, os moradores do Edifício Baronesa de Itu não desfrutavam mais das mesmas paz e tranquilidade. Hoje em dia, seu Clécio não está mais entre nós, aquelas antigas famílias já não moram mais ali, e a maioria dos condôminos é formada por estudantes que vieram do interior do estado. Não se tem mais aquele senso de comunidade, sabe?

    — Antigamente, os jogadores honravam a camisa do time. Agora, só querem saber de dinheiro, festinha e badalação. E é um mais perna de pau que o outro!

    Já esse é o seu Manoel, um ilustre futebolista frustrado do bairro. Nunca o vi jogar, mas todos dizem que era bom de bola. Parece que foi até selecionado para jogar por um grande clube de São Paulo, mas uma grave lesão no joelho o tirou dos campos. Privado de seu sonho de menino, continuou acompanhando os jogos do seu time do coração como torcedor fanático que é. O problema é que a atual fase não é das melhores, e aquela esquadra tem sucumbido com frequência aos adversários. Para contrastar com o presente de sucessivas e vexatórias derrotas, o longínquo passado de gloriosos títulos ainda alenta o sofrido coração daquele aficionado. Mas é impossível não associar a decadência atual do futebol local aos problemas contemporâneos da juventude e aos excessos midiáticos que envolvem as estrelas do mais popular dos esportes. As mais disseminadas teses sociológicas de botequim convergem em afirmar que o futebol de outrora era muito melhor do que o praticado atualmente. Também pudera! Como comparar Pelé e Garrincha com o que se tem hoje?

    — Essa roubalheira toda não tem fim, mesmo! Antigamente, a gente ainda via político honesto e de brio! Hoje é só sem-vergonha corrupto!

    Essa foi a primeira reação de dona Marina, ao ler a notícia de que o fundo de pensão dos servidores municipais estava envolvido numa falcatrua das brabas. Dos pormenores do esquema, ela não sabia dizer muita coisa. Mas estava convicta de que, quando jovem, essas maracutaias não ocorriam. Claro está que sempre houve malandros ali e acolá querendo levar vantagens indevidas. E, evidentemente, na política não era diferente. O problema é que, para ela, a desfaçatez tinha se difundido tanto, que o que costumava ser a triste exceção virou a perniciosa regra. De suas reminiscências mais distantes, nada havia de menção aos desvios de verba pública tampouco às compras de votos. Não é para menos! Prestes a gozar de sua aposentadoria do serviço público municipal, preocupava-se com os efeitos que um possível rombo naquele fundo geraria sobre sua renda. Naquele edulcorado passado, não tinha tantas contas para pagar nem uma custosa artrite reumatoide para tratar.

    O passado brindou-nos com uma vida mais tranquila e pacata; Pelé e Garrincha não mais encantam o mundo futebolístico; e os larápios de hoje envergonham os de ontem. Frente a sentenças do tipo, o presente resigna-se com a sua contumaz inferioridade. Sujeito de boa autoestima, sabe que mais cedo ou mais tarde suas qualidades serão reconhecidas e rememoradas por todos nós. O desprezo com que muitas vezes ele é tratado não é capaz de sustentar sua condenação de primeiro grau. Quando essa injustiça salta aos olhos, o próprio tempo dá um jeito de reparar os erros de nosso incauto juiz interno. Diferentemente do passado, tipo impertinente e egocêntrico, o presente tem paciência de sobra para que seus defeitos sejam esquecidos e suas qualidades, realçadas.

    Não sei por que me estendo em demasia nessa argumentação. Antigamente, conseguia ser mais claro e objetivo. Já hoje em dia, quando sou interrompido abruptamente, perco-me em divagações e em solilóquios. Na verdade, acho que bom mesmo era quando não havia tempo a perder com especulações desse tipo. Mas naquela época eu reclamava da escassez de tempo… Ah, esse velho saudosismo de todos nós!

  • O que te mantém vivo?

    Uma ideologia política, uma crença religiosa, uma visão de mundo ou um passatempo qualquer. A ambição por riqueza, a busca de reconhecimento, a luta por poder ou a simples necessidade de sobrevivência. Muitas podem ser as razões que nos mantêm vivos. Das mais vulgares às mais sublimes; das mais egocêntricas às mais altruístas. A natureza daquilo que nos estimula a levantar todas as manhãs pode dizer muito sobre nós mesmos, nossas histórias e nossas perspectivas.

    Não falo do que simplesmente nos anestesia, meu caro amigo. A essência das coisas que mitigam o sofrimento e apagam certas lembranças difere daquilo que nos injeta ânimo e disposição para construir um futuro melhor. Não basta resistir; é preciso superar! Volta e meia, encontramos pessoas que, apesar de todas as adversidades enfrentadas, dispõem da energia necessária para seguir suas respectivas caminhadas. Por mais que tentem desumanizá-las e tornar suas vidas insuportáveis, elas se negam a simplesmente fazer parte de uma desconhecida e misteriosa engrenagem. Elas vivem, têm sonhos, acreditam em dias melhores, compartilham momentos de alegria e outros de tristeza. Mas de onde vem toda essa resiliência?

    Vejamos o exemplo de meu vizinho Paulão: com tantos vis progenitores por aí, não poderia deixar de mencionar sua história. Pelo menos desde que o conheço, trabalha na construção civil. Mesmo nas auroras mais frias deste inclemente inverno, nosso valoroso pedreiro fecha a porta de sua casa e sai em busca do sustento de sua família. Viúvo e pai de duas filhas adolescentes, esse orgulhoso piauiense não se deixa esmorecer facilmente. Sem muito tempo disponível para o lazer, sua vida resume-se, basicamente, ao trabalho. Mas seus olhos brilham, seu sorriso contagia e suas gargalhadas animam o ambiente em que se encontra.

    Perguntava-me, com ingênua e honesta curiosidade, o que faz Paulão levantar cedo todas as manhãs, pegar dois ônibus para o trabalho, levar seu corpo à exaustão em troca de um salário, voltar a sua casa num ônibus abarrotado de gente, dormir algumas horas e começar tudo de novo na manhã seguinte. Como é possível seguir em frente com tanta dificuldade? O que estaria por trás dessa aparente alienação? Com um misto de admiração e de incompreensão, via aquele pobre homem envelhecer precocemente numa rotina estafante e embrutecedora. Muitos foram os anos de minha ignorância até que conseguisse compreender a sua verdadeira razão de vida.

    — Meu sonho é formar minhas duas meninas, seu Veloso. Não quero que elas tenham uma vida tão dura como a minha – confessou-me Paulão num raro dia de descanso.

    Outro exemplo é o de Maroca, aquela senhora que trabalha há muitos anos na casa da família Gouveia. Devota de São Judas Tadeu, o santo das causas impossíveis, essa cozinheira de mão cheia veio de muito longe. Carregando um pequeno rebento em seus braços, a jovem mulher veio atrás do marido e de uma vida melhor. Mas seus sonhos logo depararam-se com a dura realidade de uma mulher que se casou com um homem violento e alcoólatra. Teve mais dois filhos com ele, aguentou poucas e boas, criou sua prole sozinha, viuvou. E continua trabalhando como se tivesse apenas vinte e tantos anos de idade. Muitos devem ter sido os momentos de tristeza e de solidão, mas a aguerrida mulher ainda teima em persistir.

    — Não há de ser nada, seu Veloso! Deus não dá a cruz mais pesada do que podemos carregar – aconselhava-me uma solícita Maroca, ao me ver manquitolando por causa de uma lombalgia.

    Se a criação das filhas constitui a seiva que dá vida a Paulão, Maroca respalda suas mais profundas esperanças na crença de que Deus está com ela. Ambos acreditam em dias melhores, cumprem suas tarefas cotidianas, enfrentam os inúmeros percalços que surgem em suas tortuosas caminhadas. Vidas de intensa provação, mas repletas de dignidade e de humanidade. Não faço aqui um elogio à pobreza, mas o que me fascina é a altiva e rebelde resiliência que identifico nos dois casos. Poderíamos cair no pretensioso julgamento segundo o qual a ignorância em que vivem torna a brevidade e as agruras da vida mais aceitáveis. Mas quem somos nós para inferirmos tal coisa? Alguns livros lidos e rabiscados não nos tornam imunes ao sofrimento humano. O que nos dá vida nem sempre pode ser facilmente alcançado pela razão humana. No fim das contas, todos nós somos mais ou menos ignorantes.

    Mesmo tendo vivido algumas décadas, ainda me pergunto, de vez em quando, qual seria o grande estímulo de minha vida. Um livro a ser escrito, uma viagem a ser feita, um conhecimento a ser atingido? Apesar da vida remediada, pareço desconhecer o que realmente dá sentido a minha vida. A busca permanente por algo que me complete tem sido uma fonte de indagação e até de aflição. Mas, ultimamente, tenho considerado a possibilidade de que nada disso exista. Quanto mais cabelos brancos temos nós, mais tendemos a menosprezar o excessivo romantismo. Talvez essa procura por um Santo Graal desconhecido e inalcançável é que constitua, em si, a grande força que mobiliza as minhas energias.

    Divagações de um velho professor aposentado. Apenas isso! Espero não ter te aborrecido com esses devaneios. A juventude que ainda corre pelas tuas veias prescinde de considerações superficialmente filosóficas como essas. Enquanto não descubro minha grande força motriz, preciso dedicar-me a uma função, digamos, bem mais trivial: comprar pães para o lanche da tarde. Até logo, amigo!

  • Um aniversário diferentemente especial

    Algumas pessoas não costumam dar muita importância a datas comemorativas. Conheço pessoas que parecem fazer questão de esquecer até o dia de seu aniversário. Datas que marcam o dia de uma profissão, de um santo padroeiro, de um clube de futebol, de um município e de uma batalha vencida. São tantas as datas a serem lembradas, que se torna difícil até mesmo ao mais organizado dos mortais saber o que será comemorado nesta ou na próxima semana. Mas, para mim, existe uma grande exceção: o meu aniversário.

    O dia 12 de janeiro, desde que me conheço por gente, é uma data a ser comemorada por representar o início de tudo. Claro que antes de minha chegada a este mundo no distante ano de 1988, o planeta Terra já seguia os seus contínuos movimentos de rotação e de translação, as pessoas já tinham os seus problemas a serem resolvidos, outras datas eram comemoradas e muitos povos já haviam guerreado entre si. Mas, defendendo-me de possíveis acusações de demasiado egocentrismo, esclareço de antemão que esses e outros acontecimentos passaram a existir em minha consciência somente depois daquele dia 12 de janeiro. É apenas nesse sentido que costumo, com uma pitada de humorismo duvidoso adicionado a sobras de requentada presunção, proclamar o meu aniversário como a gênese de tudo.

    Foi com esse tipo de pensamento que aguardei, ansiosa e diligentemente, a chegada de mais um dos meus aniversários. Já que, por um capricho do destino, a data cairia numa segunda-feira, a festa teria de ser transferida para o sábado seguinte. Apesar da importância da efeméride, começar uma semana com os prazeres de uma pequena tertúlia demandaria um tempo que a maioria dos convidados não teria naquele dia. Obviamente, essa incompatibilidade entre os compromissos laborais e a grande data festiva não agradaria a nenhum ortodoxo seguidor de protocolos. Afinal, a exclusividade de um aniversário requer que a comemoração seja feita em sua data precisa. Algumas adaptações são, porém, necessárias e até as convenções mais tradicionais costumam ser quebradas com frequência. Para que todos nós pudéssemos encerrar os árduos trabalhos daquela semana, brindando mais um ano de minha não tão destacada existência, o rega-bofe ficou, então, para o primeiro sábado posterior. Mas aquele importante dia 12 não passaria, de forma alguma, despercebido. Como um filho que se sente ignorado por seu pai, aquele dia faria de tudo para chamar a minha atenção. Mesmo que da pior maneira possível, recorrendo a birras e a desobediências, a segunda-feira em questão seria, indelevelmente, registrada em minha memória. Logo às 5h, antes mesmo do sol começar a aquecer aquela manhã, fui despertado por uma vexatória queda de minha cama. Não estava em quarto desconhecido tampouco sobre uma cama nova. Entretanto, o improvável aconteceu! E, para que não pudesse ousar em dormir novamente, caí sobre o ventilador que havia deixado no chão. Se a noite já havia sido tremendamente abafada, o começo daquela manhã superou toda e qualquer expectativa tragicômica.

    Com o ventilador quebrado, o abafamento já me parabenizava pelo jubileu. Não adiantava insistir, pois o sono já estava perdido. Decidido a não esmorecer perante a primeira dificuldade de um dia especial, tratei de ir à loja de eletrodomésticos mais próxima para comprar um ventilador novo. Mais do que por gosto, um presente por necessidade! Mas quem disse que a compra seria fácil e rápida? Por algum motivo desconhecido, as maquininhas de cartão pareciam ter entrado em greve por tempo indeterminado. Após algumas tentativas frustradas e muitos olhares impacientes, precisei recorrer ao caixa eletrônico. Com o dinheiro em mãos, não poderia resolver a grande saga do ventilador sem o vexame de um escorregão na saída da loja.

    Resignado com as agruras de uma manhã singular, encaminhava-me de volta a minha casa, quando Tupã, a todo-poderosa entidade indígena, resolveu prestar as suas homenagens com os primeiros trovões daquele dia tão promissor. A pouca distância entre a loja e a minha casa não foi suficiente para evitar um reparador, mas pouco desejado banho de chuva. Se a resistência do chuveiro funcionou a contento, o mesmo não pode ser dito a respeito deste desajeitado cozinheiro que tentava fazer uma simples refeição para seu almoço. Um telefonema que se estendeu por alguns longos minutos, e a panela de arroz acusou meu esquecimento com aquele desagradável e inconfundível cheiro de queimado.

    A tarde não seria mais discreta, visto que a cadeira na qual me sentava não suportou meu sobrepeso. Apesar do sedentarismo e do gosto por comidas gordurosas, acreditava não estar sobrecarregando aquela velha companheira de trabalho. Mas nem sempre a verdade é sutil, e os sustos também nos servem para rever antigos estilos de vida. Enquanto ainda planejava a melhor forma de romper o ciclo nada virtuoso de guloseimas e bebidas açucaradas, a natureza parecia compadecer-se com minhas aflições, ao me presentear com uma bela noite estrelada. O destino, todavia, continuava impaciente e, como quem finaliza seu pobre e infeliz oponente no tatame, desferiu um inexplicável apagão elétrico por quase uma hora. Assim, a famigerada segunda-feira encerrava suas traquinadas com um belo e solitário jantar à luz de velas.

    Apesar de todos esses incidentes, os primeiros dias de cada ano continuam fazendo parte de uma espécie de contagem regressiva. Caindo da cama ou tropeçando na rua, queimando o almoço ou jantando às escuras, mal posso esperar por meu próximo aniversário. Que seja, no entanto, uma data marcada por circunstâncias menos desastrosas! Sem recusar os presentes que, porventura, queiram dar, um dia menos desafortunado é, pois, tudo o que posso desejar para uma data tão pessoalmente especial.

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