Crônicas

Embriagada

Em uma segunda-feira caótica, me deparei com um cenário incomum: estava eu, no balcão de um bar, pedindo uma taça de vinho. Reparei que, ao meu lado, estava um homem. Aparentava ter a minha idade, tinha o rosto ingênuo e bebia um drink.

O início da conversa foi inevitável. Meu dia tinha sido tão difícil que conversar sobre qualquer banalidade era melhor do que nada. Depois de algumas taças, a conversa não queria ser terminada, e aquele homem, que agora já tomava forma, era estranhamente familiar.

Eu deveria enxergá-lo como ele era: um homem que não queria ficar. Mas eu só conseguia enxergar a troca de confidências, o estranho conforto em ser entendida e examinada com o zelo de alguém que vê algo pela primeira vez. Trocamos telefones e eu fui embora.

Os dias passavam, e nossas conversas não acabavam… não havia qualquer barreira, já éramos íntimos. Ele me chamou pra sair, e aquele (re)encontro foi a confirmação de que éramos duas diferenças que agora pareciam uma só coisa. Várias taças de vinho foram tomadas enquanto eu apreciava tudo o que sentia.

Estava claro que havia algo ali, junto com todo o meu saber do que ele era — e do que se permitia ser. O caminho da saída era o mais conhecido e prudente, mas esperei. Pedi outra taça. E outra. E mais uma.

Meu medo crescia, mas tudo o que eu queria fazer era pedir outra taça. Eu olhava para ele e queria continuar olhando. Eu sentia aquilo tudo que antecede o maior sentimento do mundo.

Por isso, mergulhei no mundo dele enquanto ele mergulhava no meu, sem saber ao certo o que aquilo seria, mas era inegável que já era algo grandioso só por existir.

Ele era a definição da embriaguez.

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Fernanda Perini

Fernanda Perini é carioca, advogada especialista em Direito das Famílias e encontrou na escrita, ainda no ensino médio, uma forma de compreender o que nem sempre cabe em palavras. Entre histórias de amor, rupturas, escolhas, perdas e recomeços, aprendeu a observar as contradições dos sentimentos humanos. Escreve sobre o que vive, o que observa e o que imagina — misturando realidade e ficção para transformar aquilo que sente em histórias.

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