Fernanda Perini

  • Seu nome no mundo

    Existem entrelaços perigosos, e é seguro dizer que, depois de 72 horas de confidências indistintas, esse é um deles. Inauguramos uma nova fase: eu te contei um segredo. Um gesto tão pequeno e tão grande.

    A trilha sonora de fundo combina com a adrenalina que eu sinto, tão diferente de todo o resto, e diz: “você parece tão legal, fique”. E eu já associo essa música a você. Afinal, essa é a história que parece um encanto no meio de tantos desencontros.

    E, de repente, em um horário inapropriado para uma quarta-feira, eu percebi que quero dizer seu nome. E quero dizer para inaugurar seu nome no meu mundo.

    A primeira vez que se diz o nome de alguém é um marco. Hoje eu disse seu nome em voz alta pela primeira vez e talvez eu o repita tantas outras vezes que isso se torne quase um mistério a ser descoberto pelos demais meros mortais do meu mundo.

    Hoje eu disse seu nome, talvez amanhã eu repita. E talvez eu diga sem parar… até nunca me cansar.

  • Embriagada

    Em uma segunda-feira caótica, me deparei com um cenário incomum: estava eu, no balcão de um bar, pedindo uma taça de vinho. Reparei que, ao meu lado, estava um homem. Aparentava ter a minha idade, tinha o rosto ingênuo e bebia um drink.

    O início da conversa foi inevitável. Meu dia tinha sido tão difícil que conversar sobre qualquer banalidade era melhor do que nada. Depois de algumas taças, a conversa não queria ser terminada, e aquele homem, que agora já tomava forma, era estranhamente familiar.

    Eu deveria enxergá-lo como ele era: um homem que não queria ficar. Mas eu só conseguia enxergar a troca de confidências, o estranho conforto em ser entendida e examinada com o zelo de alguém que vê algo pela primeira vez. Trocamos telefones e eu fui embora.

    Os dias passavam, e nossas conversas não acabavam… não havia qualquer barreira, já éramos íntimos. Ele me chamou pra sair, e aquele (re)encontro foi a confirmação de que éramos duas diferenças que agora pareciam uma só coisa. Várias taças de vinho foram tomadas enquanto eu apreciava tudo o que sentia.

    Estava claro que havia algo ali, junto com todo o meu saber do que ele era — e do que se permitia ser. O caminho da saída era o mais conhecido e prudente, mas esperei. Pedi outra taça. E outra. E mais uma.

    Meu medo crescia, mas tudo o que eu queria fazer era pedir outra taça. Eu olhava para ele e queria continuar olhando. Eu sentia aquilo tudo que antecede o maior sentimento do mundo.

    Por isso, mergulhei no mundo dele enquanto ele mergulhava no meu, sem saber ao certo o que aquilo seria, mas era inegável que já era algo grandioso só por existir.

    Ele era a definição da embriaguez.

  • Cinzas

    Como um anjo caído, eu virei cinzas, me dispersando por cada lugar que passei. Gritei aos céus para que me recebessem de volta, enquanto bebia minha dor.

    Nenhuma luta para me levar ao cosmos foi suficiente, somente muito sangue foi derramado.

    Era a batalha interminável das duas coisas que me sobraram: a busca pela indiferença dos sentimentos, como uma boa estoica, e a hedonista que tentava sobreviver.

    Enquanto anjo caído, espalhei a dor que queimava como o inferno dentro de mim e que me enfeitiçava com um beijo gentil em meus lábios.

    Nesse descompasso, perdi o controle das horas, dos dias e de mim mesma. Tudo que eu tinha era um quarto escuro, borrado de lágrimas que insistiam em cair.

    Fui velada viva, enquanto amaldiçoavam meu nome em meus ouvidos e desejavam que eu ficasse. Meu luto por mim mesma continuava, envolvendo tudo que fui no passado, o nada que eu era naquele presente, e o futuro jamais seria o mesmo.

    Depois de velada e cremada, voltei ao início: como cinzas. Dessa vez, em pequenas andanças, fui recolhendo minhas cinzas. O fogo que antes ardia em mim começava a amornar. Esse era meu recomeço, meu acordar.

    Começava minha corrida contra o tempo. Era a hora. Eu precisava refazer meus passos pra não cair em descompasso.

    Revivi por mil anos todos os sentimentos que já habitaram em mim, encontrei flashes esquecidos de felicidade e amor.

    Vivi a eternidade desses momentos e colei entre meus ossos e minha pele, para que nunca mais saíssem de mim.

    Despedi-me do meu outro ser, porque sabia que esse começo queimava, mas de vontade de ser, estar e viver. Era o tipo de fogo que incendeia e não o que queima.

    Tudo era avassalador. Um pequeno sorriso, uma pequena paixão e milhares de momentos que começavam a se repetir, fazendo de mim a criatura que mais rogava por desejo.

    Fui, enfim, sentenciada. Liberdade era a palavra que gritava em minha cabeça. Eu podia morrer de outras mil formas, mas não dessa, porque nenhum pedaço meu era mais da minha dor.

    Fechei a conta. Fui aceita no céu.

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