Fernanda Perini no Crônicas Cariocas

  • Cinzas

    Como um anjo caído, eu virei cinzas, me dispersando por cada lugar que passei. Gritei aos céus para que me recebessem de volta, enquanto bebia minha dor.

    Nenhuma luta para me levar ao cosmos foi suficiente, somente muito sangue foi derramado.

    Era a batalha interminável das duas coisas que me sobraram: a busca pela indiferença dos sentimentos, como uma boa estoica, e a hedonista que tentava sobreviver.

    Enquanto anjo caído, espalhei a dor que queimava como o inferno dentro de mim e que me enfeitiçava com um beijo gentil em meus lábios.

    Nesse descompasso, perdi o controle das horas, dos dias e de mim mesma. Tudo que eu tinha era um quarto escuro, borrado de lágrimas que insistiam em cair.

    Fui velada viva, enquanto amaldiçoavam meu nome em meus ouvidos e desejavam que eu ficasse. Meu luto por mim mesma continuava, envolvendo tudo que fui no passado, o nada que eu era naquele presente, e o futuro jamais seria o mesmo.

    Depois de velada e cremada, voltei ao início: como cinzas. Dessa vez, em pequenas andanças, fui recolhendo minhas cinzas. O fogo que antes ardia em mim começava a amornar. Esse era meu recomeço, meu acordar.

    Começava minha corrida contra o tempo. Era a hora. Eu precisava refazer meus passos pra não cair em descompasso.

    Revivi por mil anos todos os sentimentos que já habitaram em mim, encontrei flashes esquecidos de felicidade e amor.

    Vivi a eternidade desses momentos e colei entre meus ossos e minha pele, para que nunca mais saíssem de mim.

    Despedi-me do meu outro ser, porque sabia que esse começo queimava, mas de vontade de ser, estar e viver. Era o tipo de fogo que incendeia e não o que queima.

    Tudo era avassalador. Um pequeno sorriso, uma pequena paixão e milhares de momentos que começavam a se repetir, fazendo de mim a criatura que mais rogava por desejo.

    Fui, enfim, sentenciada. Liberdade era a palavra que gritava em minha cabeça. Eu podia morrer de outras mil formas, mas não dessa, porque nenhum pedaço meu era mais da minha dor.

    Fechei a conta. Fui aceita no céu.

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