
Uma amiga
Esta semana perdi uma amiga, uma daquelas que não passam despercebidas na multidão e por isso nos mostram aspectos da vida que não enxergamos sozinhos. Escrevo sobre ela para aliviar o luto porque, mesmo sabendo que ao longo da vida todos sofremos perdas, nunca estamos preparados para elas, ainda que anunciadas. Às vezes acho que a vida não passa de um jogo de soma zero: quem nos traz mais alegria é também quem nos traz mais tristeza ao partir.
Multifacetada, ela influenciou muita gente, cada um de maneira diferente. Impressionante a diversidade das pessoas que se manifestaram. Em comum a sensação de que, embora o mundo parecesse agora mais triste, o que o seu convívio ensinou permaneceria intacto. Deixou um legado profissional importante, foi pioneira em algumas áreas – essa parte eu delego aos biógrafos que saberão contar melhor.
Minha amiga era tudo menos invisível. Exuberante, generosa, comunicativa, espalhava alegria e, ao mesmo tempo era muito fechada e discreta, sabia falar (em sete idiomas) e calar (em sete idiomas). Nela conviviam todas as contradições. Não cabia em nenhuma categoria. Só nela mesma.
Amava a família acima de tudo. Um tipo inesquecível, como disse o marido. Já se conheciam vagamente quando se encontraram de verdade. Foi uma paixão fulminante como poucas. Paixão e amor desde os primeiros tempos, quando timidamente foram assumindo a relação, até o final quando, ela já doente, ficavam de mão dadas e ela sorria. Tão marcante na vida quanto na morte.
Pensarei nela toda vez que ouvir uma piada que lhe agradaria. Algum dia vou tirar os brincos dizendo ‘Vocês já viram como meus brincos são bonitos? Então não preciso mais deles’. Quem sabe até coloque gelo na cerveja, algo que a vi fazer mais de uma vez. Pode ser que fique horrível, não importa. Obrigada, amiga.























