
As tentativas de WALDINEIDE
A primeira vez que tentou se matar, tinha dezoito anos. Entrou no mar de São Conrado e nadou até cansar e perder as forças. Foi resgatada pelo helicóptero dos bombeiros. Aos salva-vidas, envergonhada, não revelou a tentativa malfadada de suicídio. Ironicamente, ainda agradeceu por ter sido salva.
Waldineide amaldiçoava o pai pelo nome recebido. Seu Waldir era porteiro de um prédio na Barra da Tijuca. Ele, a mulher, Neide, e a filha moravam num barraco na Rocinha. Waldineide preferia chamar de comunidade.
Talvez nem quisesse de fato morrer, apenas momentaneamente aplacar sua dor. Sentia a pior das dores, as desconhecidas, as que vinham da alma. Nada valia a pena nesta vida. Para seu Waldir, a filha era só meio maluca.
Na segunda tentativa, ela subiu no parapeito do terraço de um edifício. O vento frio batendo em seu rosto pareceu querer empurrá-la para trás. Olhou para baixo, medindo a altura da queda. Nesse momento, descobriu que tinha vertigem de altura. Desistiu.
A frustração foi enorme e ela começou a se achar incapaz até para se matar. Sentia-se ridícula. Não merecia permanecer viva.
Seguiu tentando.
Planejou enfiar sua cabeça no fogão e se envenenar com o gás. O cheiro forte, no entanto, alertou sua mãe que a retirou à força. Seu Waldir, quando soube, disse que a filha estava precisando de uma boa surra. Dona Neide impediu, a menina era sensível e devia estar passando por algum problema sério. Na verdade, eram incontáveis problemas. O atual era não conseguir se matar com competência.
Uma amiga que soube das tentativas dela, falou sobre a existência de um serviço pela Internet de valorização da vida, que oferecia apoio emocional a quem tentava o suicídio. Waldineide desconfiava desse tipo de ajuda virtual e não se interessou. Além do que, estava decidida. Na próxima vez não iria falhar.
No seu íntimo, temia por novo fracasso. Foi quando optou por matar-se com roleta russa. Havia algo lúdico que a atraía: o acaso definiria o seu futuro. Pegou o revólver do pai na gaveta, retirou as balas, deixando apenas uma na agulha e rolou o tambor.
Colocou a arma no canto da testa e apertou o gatilho. Para sua sorte, ou azar, nada. Waldineide tentou mais uma vez. Como não tivesse morrido, suspeitou que não era para ela morrer com um tiro na cabeça. O destino decidira.
Tinha gente que morria engasgada com azeitona, gente que morria de susto, de bala perdida ou atropelada por bicicleta, por que ela não conseguia? Sentia-se um ser mais risível do que já era.
Não tomaria veneno para ratos, queria morrer com mínima dignidade, não como uma roedora de esgoto. Ainda havia a possibilidade do tradicional expediente de cortar os pulsos, mas ela não podia ver sangue, que desmaiava.
Waldineide começou a se desesperar. Escolheu uma forma mais randômica: andaria, de madrugada, por lugares ermos e sinistros. Algum bendito marginal da favela completaria o trabalho. Depois de alguns dias perambulando por vielas e becos, finalmente, um assaltante a abordou. Ela ansiava pelo corriqueiro “a bolsa ou a vida” para, de forma categórica, devolver: “a bolsa, idiota. Atira logo”. Entretanto, escutou o habitual “perdeu”. Segurou com as duas mãos a bolsa e encarou-o: “pode me matar!”. O meliante, pego de surpresa, olhou-a de cima a baixo. Ela concluiu que, enfim, sua hora havia chegado e aguardou, de olhos fechados, o desfecho. O assaltante puxou-a pelo braço, levou-a para trás de um tapume e começou a rasgar suas roupas. Waldineide pretendia morrer, não ser estuprada. Enfrentou-o como pôde. Depois de muita luta, já exausta, com o maldito sobre seu corpo, conseguiu pegar no chão sua bolsa com o revólver da roleta russa. Tinha só uma bala. Apertou o gatilho no pescoço do bandido e ouviu o estampido. Em choque, desvencilhou-se do corpo ensanguentado dele, arrumou-se com o que havia restado de roupa e saiu correndo em disparada. Só queria fugir dali. Desaparecer, sumir do mundo.
Soube depois pelos jornais que o tal rapaz fora encontrado vivo. Era tudo que ela queria, que ele sobrevivesse. A morte era dela, ele não tinha nada a ver com isso.
Waldineide havia tomado uma decisão. A melhor maneira de realmente se conhecer era fazer o contrário. Numa manhã como outra qualquer, levantou da cama, escovou os dentes e foi até a cozinha. Pegou uma faca e a afiou, pacientemente. Dessa vez não ia vacilar. Enquanto cortava em fatias o filé de frango para o almoço, pensava na vida que teria pela frente.























