Claudia Valle

  • Ontológico, hedonismo e deletério

    Nem tudo está perdido em matéria de palavras. Esta semana, em diferentes textos, encontrei ontológico, hedonismo e deletério. Uma delas, não confesso qual, me obrigou a ir ao dicionário. Não eram textos de filosofia profunda, apareceram como se fossem palavras corriqueiras. Não são. O dicionário está cheio delas, a maioria esquecidas e empoeiradas, talvez aguardando a ressurreição. Quando uma desaparece definitivamente leva consigo uma forma de ver o mundo.

    Admito que implico com algumas palavras. Se pudesse as baniria por lei. Uma delas é progenitora. Só serve para noticiário policial ou conversa com meliante. Neste último caso com a devida cautela: periga ele não entender.

    • Como vai sua progenitora?
    • Progenitora é a sua mãe.
    • Exatamente.

    Na mesma linha vai cônjuge. A única vantagem é não ter gênero definido, mas isso é vantagem recente em palavra antiga. Se o seu cônjuge apresentar você como ‘minha cônjuge’ peça divórcio. Trata-se de falsa erudição, nem sei por que casaram. Pode ser até que ele seja um adorador do gerúndio! Fuja igualmente de gente de vocabulário limitado ou deturpado tipo táuba, às vezes contagia e a cura é difícil.

    Implico com nubente, acho patíbulo triste e gáudio antiquada. Tenho sentimentos por cabotino e perspicaz. As palavras e eu somos realmente inseparáveis. Elas ajudam a moldar ideias: mais palavras, mais nuances de pensamento. Diversidade é tudo. Mas, se houver opção, prefiro as menos pretensiosas. Podem não acreditar, mas é complicado escrever simples.

    Outro dia quis descrever um árabe usando aquela túnica comprida comum entre eles. Escrevi caftan e o corretor de textos sublinhou a palavra em vermelho. Caftã também não deu certo. Tudo bem, vamos ver a tradução em português. É cafetã ou cafetão. Como? Não dá para dizer que o cara usava um cafetão! Optei pela palavra em inglês mesmo, escrevi kaftan. É claro que o corretor reclamou. Fazer o quê? Se não temos uma palavra adequada, roubamos de outra língua.

    E o que dizer quando, em conversa informal, um amigo diz valhacouto? A gente até para de respirar para aproveitar o momento porque uma coisa assim dificilmente se repetirá em nossa vida. Ouvir alguém utilizar palavras como amiúde, azêmola ou excelsa nos dá alguma esperança. Não a de que todas as palavras vão sobreviver – essa eu já perdi – mas a de que sempre existirão pessoas cuja conversa é um deleite.

  • Ai, minhas orelhas!

    Ando com muita pena das minhas orelhas porque as pobres estão ficando de abano. Daqui a pouco vou precisar de uma plástica.

    Eu já havia detectado o problema por causa dos óculos que as coitadas são obrigadas a suportar e dos brincos que uso desde sempre. Mesmo tentando que ambas as coisas se tornassem cada vez mais leves, sentia que minhas orelhas se vergavam aos poucos, com uma contribuição nada desprezível da facilidade com que as cartilagens, e quase todo o resto do corpo, vêm abaixo com o passar do tempo. E a agravante de que na família há vários casos de surdez por velhice, o que torna grande a chance de no futuro acrescentar um aparelho auditivo a tudo isso.

    Para completar o quadro, agora as orelhas ainda têm que aguentar os elásticos e o peso das máscaras que usaremos permanentemente até sabe-se lá quando. É penduricalho demais para as frágeis orelhas.

    Médicos e outros profissionais de saúde vão dizer que isso não é nada comparado com a situação deles, forçados a usar máscaras durante horas. Compreendo que seja difícil, mas há uma grande diferença: tais pessoas escolheram a profissão e já sabiam das desvantagens. No nosso caso foi o tal do corona, com quem já estou perdendo a paciência, que nos trouxe esse sacrifício extra.

    Aguentem firme, orelhinhas! Vai passar.

  • Divagando

    Reza a lenda que quando os conquistadores espanhóis chegaram à América apresentaram-se montados em cavalos. Os nativos, que nunca tinham visto um animal assim, e muito menos armaduras reluzentes, enxergaram naquilo uma coisa só, meio homem, meio bicho de quatro patas.

    Pode não ter sido bem assim no século dezesseis, mas se os alienígenas aportassem hoje em certos locais da Terra, talvez achassem que o telefone celular faz parte do nosso corpo, uma coisa assim meio homem, meio tela.

    Andar agarrado ao celular é a marca registrada destas primeiras décadas do século vinte e um. Como essa simbiose vai evoluir é difícil prever. Quase sempre a realidade surpreende e contraria as expectativas de quem arrisca um palpite porque a visão do que vem por aí em tecnologia é privilégio de uns poucos gênios. A icônica fala de Steve Jobs ao declarar que as pessoas não sabem do que precisam até que você lhes mostre. Só uma coisa é certa: não há volta atrás.

    O que deslumbra uma geração não causa o menor espanto na seguinte. O que achamos maravilhoso hoje será banal amanhã. No futuro quem se lembrará de que o celular foi inicialmente um telefone, visto que esse é o uso menos comum que fazemos dele? Se é que ainda existirão celulares. E quem se recordará de nós que ainda nos lembramos de onde vem o sentido de rodar um filme ou revelar uma foto?

    E por que isso deveria nos preocupar, já que sempre foi desse jeito?

  • Malta

    Malta é um arquipélago no Mediterrâneo habitado desde cerca de 5200 AC e que foi invadido pelos mais variados povos. Os últimos a passarem por lá foram os britânicos cuja influência vai desde a língua inglesa, que divide espaço com o maltês, até a mão de trânsito pela esquerda. Tornou-se um país independente em 1964 e agora faz parte da União Europeia.

    As principais ilhas são Malta e Gozo, a primeira muito mais turística do que a segunda, mas ambas com sítios arqueológicos importantes. Quem se interessar pelo tema não deve perder as ruínas do templo de Hagar Quim datadas entre 3200-2500 AC. As construções desde os templos pré-históricos até hoje usam predominantemente a pedra calcária, a única encontrada na região. O pequeno e bem estruturado museu, The Limestone Heritage, ilustra a extração e o uso dessa pedra.

    Os malteses afirmam que por sua posição estratégica Malta foi o local mais bombardeado da segunda guerra mundial: localizada perto da Sicília e do norte da África era uma base valiosa para os britânicos e seus aliados. A reconstrução respeitou a arquitetura original e agregou elementos modernos de forma elegante. Pequenos balcões fechados e coloridos enfeitam as fachadas das casas dando às ruas um ar bastante peculiar. Valeta, a capital, é vibrante e muito bonita. Próximas ficam Vittoriosa, Cospícua e Senglea, conhecidas como as três cidades, igualmente interessantes. A costa é toda recortada e compõe cenários marítimos deslumbrantes. Há muitas marinas e passeios de barco disponíveis, uns que mostram vistas da cidade e outros que levam a grutas de águas azuis. No interior também é imperdível visitar Mdina, linda cidade com muralhas e palácios do século XV, Rabat onde existem catacumbas e Mosta com sua Rotunda que tem o terceiro maior vão livre do mundo. A história de Malta é fascinante.

    Em Valeta fica a sede dos Cavaleiros da Ordem de Malta, ou Cavaleiros de São João Batista, uma ordem religiosa fundada no Século XI como ordem hospitalar para acolher os feridos das cruzadas e que mais tarde se transformou em ordem militar; atualmente é uma organização humanitária. Restou uma grande Enfermaria que hoje é usada para fins culturais e vale a pena conhecer. Visita obrigatória é a Co-Catedral de São João Batista, em homenagem ao patrono da ordem, onde há obras de Caravaggio, um pintor excepcional e um encrenqueiro idem que se refugiou em Malta para escapar dos inimigos. Associada à ordem está também a famosa Cruz de Malta de oito pontas.

    Como destino turístico Malta, com menos de quinhentos mil habitantes, foi uma grata surpresa. Ponham na lista.

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar