Crônica de Marcio Paschoal

  • Rosane desistiu

    Meu nome é Rosane. Detesto quando me chamam de Rosana. Friso sempre o “e” no final. Não sou uma mulher exigente. E a carência está me fazendo ficar ainda menos. Sinto falta de transar, sinto falta de romance, sinto falta de um homem a quem possa admirar.

    A questão é que não me encanto com facilidade. Não será um abdômen definido, um bíceps malhado ou um rostinho perfeito que me fará ficar animada. Homens com barriga, pouco cabelo, aceito desde que
    mostrem vida inteligente. Sou daquelas que curte quem pensa e se expressa bem. Não precisa ser um gênio nem um pesquisador científico.

    Basta não me envergonhar na frente dos outros.

    Se é adepto do fisiculturismo, joga futebol americano ou ouve rap ou sertanejo, ligo o sinal de alerta, estou fora. Para mim, o tesão é o intelecto. Um entendimento mínimo de quem sabe a diferença entre meio advérbio e meia para sapato. Um simples erro de concordância já me dá um nó na garganta e calafrios. “É nóis” ou “a gente vamos” é a senha para o portal do inferno.

    Pode ser praga ou justamente por só buscar homens com certa cultura, mas todos aqueles de quem me aproximo, mostram-se uns tapados congênitos. Parece proposital, uma trama urdida para me tirar do sério.

    É só eu me interessar por alguém e lá vêm os barbarismos.

    Outro dia, no metrô, avistei um homem elegante e com ótima aparência. Usava óculos, estava em pé, lendo um livro. Puxei conversa e perguntei qual o livro que lia. Era um manual desses para ansiedade.

    Autoajuda clássico. O indício foi claro, mas ainda insisti. Perguntei para onde ele estava indo. O golpe veio avassalador: vou a um bazar “beneficiente”. Brochei. Nem com toda a boa intenção e filantropia.

    Num bar, um rapaz veio pedir se podia me fazer “compania”. Respondi que “compania” não seria possível. Companhia, sim. Ela pareceu não ter entendido. “Posso me sentar com você, “menas” se estiver esperando alguém. Ainda frisou o “menas”. Emudeci. Fiz cara de ódio. Ele desistiu a tempo, acho que finalmente havia entendido.

    A fim de evitar esse tipo de encontros tóxicos, passei a frequentar lugares mais de acordo com minhas perspectivas: museus, bibliotecas, lançamentos, vernissages. Num sábado, Centro Cultural, parada na porta aguardando uma amiga, um carinha lindo se aproximou e me disse: pode entrar que é tudo “gratuíto”. Cheguei a me arrepiar.

    É um tal de “soltar” do ônibus, “resistros” de chuveiros, vamos “tudo” na praia, “seje” em vez de seja, mulheres “estrupadas”, “mindingos” pelas ruas e “imbigos” à mostra. Uma desgraça.

    Prestes a desistir, encontrei um tipo especial. Lia Proust no original, conhecia astrologia e mapas astrais, ia a festivais de cinema e tinha um papo ótimo. Era gay. Quis cortar os pulsos.

    Quem sabe um dia, ache um companheiro que combine atração física e intelecto. Sem gostar de “mortandela”, sem “cardaço” no tênis, que não tenha “ramela” no olho, não more numa casa “germinada” nem tenha medo de chuva de “granito”.

    Talvez desista. Pode ser uma grande “perca” de tempo.

  • Marta ainda não está morta

    Marta acordou e foi logo verificando sua respiração. Tudo em ordem, estava viva. O que fazer? Levantou-se resignada, bocejou, deu uns muxoxos e foi ao banheiro.

    Ultimamente esse ritual de despertar e continuar respirando se repetia. Perguntava-se por que não morria de vez. Sua memória fraquejava, as pernas doíam, as articulações tinham deixado de articular e o joelho esquerdo parecia fora do lugar, uma geleia. Sem contar a labirintite.

    Curiosamente ainda lembrava de passagens da sua infância: a primeira viagem, o primeiro milho cozido na espiga, o primeiro beijo roubado, tudo bem claro em sua mente.

    No entanto, não estava bem certa de quantos bisnetos tinha. E os netos? Sabia de um que nunca tinha visto. Podia ser alguma doença congênita, quem sabe até estivesse morto. Talvez a quisessem poupar.

    Exatamente isso que a incomodava: sempre a suspeita de comiseração familiar, como se todos, em conluio, planejassem esconder dela o que julgavam coisas ruins ou notícias tristes. Não seria ela capaz de entender, aceitar ou suportar as rudezas da vida?

    Agora, largada na cama, assistia de perto à menina, cuidadora contratada para ela. Sentia-se péssima naquela situação de dependência, necessitada de babá, um retrocesso ingrato, humilhação que ela pensava não merecer.

    O que Marta mais temia não era acordar e descobrir-se sem vida; nem eram as dúvidas sobre reencarnação, ou se o fim viesse a significar mesmo o fim de tudo. Detestava admitir e a ninguém confessava, mas tinha era pavor de morrer.

    E toda manhã, ao acordar, o mesmo ritual de verificar a respiração e constatar que vinha lá um novo e longo dia, cansativo e fastidioso.

    Os filhos raramente a visitavam. Justificavam afazeres e problemas diversos, e ela sentia-se mesmo um estorvo. Sem contar que os amigos andavam sumidos ou eram quase todos já falecidos. A monotonia carcomia pelas beiradas.

    Sua cuidadora, menina paciente e emburrada, dizia-se enfermeira. Parecia um daqueles robôs, sempre atrás dela para remédios e advertências. Levava-se a sério e achava a vida um desenrolamento de responsabilidades. Uma chata.

    As horas para Marta custavam a passar. Arrastadas. Um de seus prazeres, o café da manhã: fatia de mamão com açúcar, banana amassada com grãos, café com leite desnatado e o pão com manteiga ou requeijão. Era sagrado.

    Não comia muito no almoço, qualquer coisa servia desde que não faltasse arroz. Dormia uma hora à tarde e depois lia alguma coisa no jornal ou via televisão. Marta era assídua de novelas. À noite, na maioria das vezes, sopa. Exceção feita à de cebola. Detestava cebolas, forçavam lágrimas e Marta sempre odiou chorar.

    Matava seu tempo também no celular que recentemente aprendera a usar. Apenas o básico. Ligava especialmente para filha mais velha, a fim de saber as novidades. Somente as boas ou inúteis, porque as reais não lhe eram permitidas. Marta era cardíaca, tinha obstrução nas artérias e hipertensão controlada à base de comprimidos.

    Ainda fazia uso de fitoterápicos para dormir, que quase nada adiantavam. Dormia pouquíssimo. Ironia de vida que costumava repetir nas conversas “quando era jovem e amava a vida, sentia um sono irresistível, agora que odiava viver, dormia cada vez menos”.

    Seu pulmão era outro ponto fraco. Tossia sem parar. Logo ela que nunca havia posto um cigarro na boca. Tinha um único vício e que lhe deixara o fígado baleado: era chegada a umas cachacinhas. Ainda hoje, se
    dessem uma trégua ou nas comemorações em família, tomava uma taça de vinho ou encarava um a latinha de cerveja gelada. Só para amenizar o travo das saudades.

    E de que tinha saudades? Atualmente de nada. Talvez de manter-se animada para seguir vivendo. E o que a mantinha viva, respirando, tossindo, com as dores nas articulações, sem a cachaça e o joelho esquerdo destroçado? Simplesmente o medo paralisante de morrer.

    Marta ficava a imaginar sua morte, ela se despreendendo do corpo e escutando as pessoas “Dona Marta está morta! Partiu dessa pra outra! Descansou, enfim”. Quem fosse a seu enterro, e seriam poucos, que a
    velassem com respeito. Ao menos, evitassem as piadas e disfarçassem o incômodo de estarem ali.

    Estranhamente, naquela noite, ao se preparar para dormir, pressentiu no ar algo diferente. A hora da partida se acercava. Era quase palpável, Marta sabia. Deitou-se, então, com o melhor pijama, lingerie nova, até perfumou-se. Devia ser dessa vez.

    Demorou uma eternidade para dormir, ainda sem saber para aonde iria, se para o nada ou noutra vida, uma empersária milionária, uma atriz de televisão, uma flor num vaso ou um batráquio. Até imaginou-se reencarnando numa lagartixa. Acabou adormecendo, de tosse e cansaço.

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