Contos

Deus me livre de uma morte cruel

Quantos dias me separam do meu fim? É somente uma curiosidade. Não tem nada de trágico no meu pensamento. Quero saber para gozar da vida. Já pensou se eu soubesse? Marta, minha amiga da repartição, recebeu o diagnóstico de seis meses de vida, por causa de um câncer de mama que se alastrou. Foi embora rápido, antes do tempo previsto, depois de fazer uma última viagem a passeio, para Portugal, local que queria muito conhecer, terra de seus antepassados. Robério, outro amigo querido, morreu em razão de um mal súbito. A esposa o encontrou duro na cama, após ter voltado da academia. Um trauma sem tamanho. Até hoje ela não fala sobre o fato. Dois dramas seguidos, que me fizeram pensar. Já estou com cinquenta e oito anos. Pretendo, se Deus permitir, preparar uma festança para os meus sessenta, com um trio elétrico tocando axé das antigas – sou alucinado por isso. Marlene, minha esposa, diz que falo muita besteira. Meus filhos têm raiva quando menciono a morte. Penso que não vou viver muito, por isso aproveito a vida, saio em dias de semana para cuidar de um bar que abri, na esquina da Nelson Mandela com a Juarez Távora. É bem frequentado. Toca-se de tudo, de rock a chorinho. Ainda continuo na repartição, não sou aposentado. Meus filhos pedem, insistentemente, que eu pare com esse negócio de bar (O formigueiro), mas eu gosto de gente, e essa é a melhor maneira de me inteirar da vida dos meus clientes-amigos. A morte me espreita, é bem verdade. Ano passado sofri um acidente de carro, no qual não tive culpa alguma; um carro atravessou a preferencial e bateu na minha lateral, com força. Com o impacto, fiquei com algumas (grandes) escoriações, tive de parar no hospital. Os médicos disseram que por pouco não fiquei preso às ferragens; que dali, provavelmente, não sairia com vida. Marlene me cobra juízo, parcimônia e um pouco de amor próprio. Ora, tenho todas essas qualidades, só ela que não percebe; sou um homem que zela pela vida, só que em abundância. Meu filme está queimado em casa, por isso passo boa parte dos dias fora. Nos sábados é sagrado tomar a minha cervejinha, e o bar fica por conta do Genésio, meu ajudante. Não sou de ferro, tenho de desopilar. Enquanto não sei nada sobre a minha morte, que para mim sempre está logo ali, vou aproveitando ao máximo as oportunidades que a vida me concede. Se é de morrer um dia, que seja na mais absoluta farra, com a presença dos que amo. Deus me livre de uma morte cruel; eu não mereço. Vida que segue… Estou agora no trabalho, sem nada para fazer, por isso escrevo estas palavras, para o meu diário. Quero preparar um livro de memórias. Ou seja, serei imortal para os que me lerem. Vamos em frente, com fé e um pouco de bandalheira, porque a vida não é para os fracos de coração.

Mostrar mais

Adriano Espíndola Santos

Adriano Espíndola Santos é autor de “O sussurro cálido da negação”, “Flor no caos”, “Contículos de dores refratárias”, “o ano em que tudo começou”, “Em mim, a clausura e o motim”, “Não há de quê”, “Amparo secreto”, “Viver morrendo” e “Arraia-ralé”. Advogado. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. instagram.com/adrianobespindolasantos/ e escreve no Crônicas Cariocas às sextas-feiras.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar