Tenho tanto para dizer. Engasgado. Entalado. Falei enquanto pude. Sou conhecido nacionalmente, por ser historiador e filósofo, e, principalmente, com o conhecimento que tenho, por defender a soberania, a justiça social e a democracia. Quando meu pai era vivo, tinha algum respaldo, porque ele foi do movimento estudantil, lutou contra a ditadura militar, inclusive foi preso por isso; amargou anos de sofrimento, até mudar de cidade e conhecer a minha mãe, momento em que tudo se tornou mais tranquilo – ele só queria viver em paz. Era um homem de muitas histórias. Felizmente tive tempo de ouvir algumas, apesar de ele não gostar de falar. Era um homem pacato, até parece que não viveu tudo o que viveu. Durante muito tempo quis se manter isolado, não participar de nada relacionado à política, porque tudo aquilo que experienciou lhe fez mal, a ponto de não querer resgatar as memórias. No entanto, ele me aplaudia, em silêncio, quando bradava meus louvores à democracia, lá no comecinho da minha jornada. O tempo passou. Meu pai faleceu em meados de 2011, de uma doença traiçoeira, o câncer no cérebro. Por ser muito estudioso, era respeitado pela família; todos o viam como uma âncora, como o provedor da sabedoria. Depois de tudo, sem a sua inestimável presença, sou somente a ovelha negra da família. Respeitavam o meu pai, mas por que não me respeitam? Dois primos me apoiam, apesar de serem “neutros”. Um votou no Caiado e o outro, no Zema – para se ter uma noção da disparidade de consciência, ou falta de consciência política. No geral, não suportam o meu nojo ao capitalismo. Penso que não suportam a mim, à minha expressão, que é toda comunista. Não aguentam o meu desplante de ser o que sou, só porque quero o bem comum. Minha tia me falou que isso não eram modos de se portar, principalmente na internet; com a voz grave, quase a me proibir de falar – tive medo; ela é a mandachuva ricaça da família. Pelo andar da carruagem, passando essas eleições para presidente, em que temos a democracia em xeque, vou parar o meu canal no YouTube e minhas divulgações nas redes sociais. Estou, de verdade, cansado de brigar. Talvez seja um tempo rigoroso que eu tire para cuidar de mim. Talvez eu me cale, na hora que mais precisam de mim. Talvez eu fale, e não terá fim.
Adriano Espíndola Santos no Crônicas Cariocas
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Engasgo
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Em boa hora
Fui arrebatado por aquele olhar. Nem sabia que sentimento algum podia me pegar. Profetizei, seguro, que não me “juntaria” com alguém até estabilizar a minha vida financeira. Depois que acabei o namoro com Daniela, com quem achava que iria casar (um namoro morno e regular), resolvi me dedicar aos estudos e à profissão. Sou recém-formado em Odontologia (faz três anos que concluí o curso) e estou fazendo das tripas coração para montar um consultório no centro da cidade, pois a movimentação lá é grande. Ainda atendo por consultórios terceirizados, incansavelmente, dia e noite, para juntar a minha grana e montar o citado consultório. É o meu sonho, e é nisso que me fio. Acreditava que não tinha tempo para pensar em coisas diferentes disso. Liana fez com que eu quebrasse a promessa. Ela é inteligente e sensível, duas características que me atraem. Logo senti uma tranquilidade no coração. Já não era movido por tantas obrigações, para um fim que poderia ser incerto. Eu estava apostando todas as fichas no lugar errado, somente na profissão. Liana, então, quieta, chegou aos poucos, sem se afobar. Parece que ela sabia que eu era uma onça cismada. Tomou a iniciativa de falar comigo quando pegamos o elevador no seu sexto andar, no dia 16 de janeiro. Ela, ao contrário, era aberta, expansiva, e não tinha dificuldade de se relacionar; tanto que provou ser uma mulher encantadora. Depois de muita conversa no WhatsApp, combinamos de tomar um vinho no restaurante Santi. Foi uma noite maravilhosa, onde em que pudemos mostrar os nossos defeitos e qualidades, rindo bastante de alguns comportamentos que os dois tinham, algo parecido. Éramos bondosos e prestativos, duas qualidades que distinguimos no ato. Ela cuidava da mãe viúva, e eu, do pai viúvo. Rimos até da possibilidade de apresentá-los um ao outro, para ver se dava rock. A conversa sempre fluía lindamente. Nunca tinha acontecido isso na minha vida: me “juntei” com quatro meses de relacionamento. Não podíamos viver afastados. Diminuí o trabalho para ficar mais um pouco admirando a sua beleza. A mulher tem uma aura inebriante – sou suspeito para falar. Antes, morávamos sós (essa informação privilegiada ela deve ter conseguido com o Jorge, o porteiro bocão). Hoje, moramos juntos, no meu apartamento, já todo montado e estruturado, com cama de casal (sim, o meu subconsciente já previa um relacionamento). O dela está alugado (renda extra para uma jornalista freelancer). Formamos uma linda família, com quatro gatos (juntamos nossos dois pares). Ela espera o nosso neném e está deitada à minha frente, dormindo, sonhando, com leves espasmos; com as pernas estiradas e as mãos postas embaixo da cabeça, deixando-se bela, como um anjo de candura. Nunca esperei um amor assim.
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Emoção fora de hora
Nara sacudiu a minha cabeça, de novo. Ela tem o poder de me bagunçar. Sabendo que sou autista e não me dou bem com o imprevisto, deveria me preservar. Na última semana, ela tomou sozinha uma decisão importante: disse que ia comprar um husky siberiano. Moramos num apartamento de aproximadamente 110m². Ela brinca com a minha paciência e com a minha sanidade. Passei noites em claro pensando em como demovê-la de tal decisão. Veja só, já temos três gatos. Para ela, o que importa é que, quando pequena, criou dois huskies siberianos, e tem uma saudade danada daquela época. Só que, convenhamos, ela morava numa casa de, talvez, 300m², que tinha inclusive um canil, pois meu sogro amava os cachorros. Ou seja, morava com gatos, cachorros e passarinhos, sem comprometer o espaço – hoje, sobre pássaro enjaulado, ela tem repugnância. E eu não posso abrir o bico, porque estou “botando catinga” para as coisas de seu interesse; sou uma espécie de mal agouro para os seus arroubos de felicidade. Agora, passa o dia a procurar nos anúncios o bendito cachorro, e vem me mostrar o resultado, toda contente. Minha expressão, no entanto, é de aceitação, sem vibração. E, perceba, essa ideia é antiga, mas voltou com força total depois da morte de sua mãe, dona Aglais; daí o porquê de ser um assunto tão delicado. Enquanto ela efetivamente não compra, penso que isso é somente um sonho. O pior é que não posso abandonar o amor que sinto por ela, jamais. Na verdade, é uma paixão avassaladora que nos une, e quero sempre vê-la feliz – contanto que não me comprometa. Não é por acaso que estamos casados há vinte anos. Optamos por não ter filhos, porque sabemos que ser pai e mãe é uma responsabilidade tremenda. E, também, não temos aptidão para sermos pais, viajamos muito, trabalhamos muito, e tudo isso inviabiliza a criação. Então, hoje somos somente pais de pets. Não sei como vou lidar quando esse cachorro chegar. Nem ela quer saber se o condomínio aceita um animal desse porte – pelo menos, nunca vi um animal aqui maior que o Shin Tzu da minha vizinha Renata, do 601. Mas ela quer, e, quando quer, não há jeito que mude o fato sacramentado. A mulher, além de toda a força que tem, é opiniosa. Ela fala em se candidatar a síndica, possivelmente para viabilizar as suas vontades. Na última briga que tivemos, por causa do cachorro, ela sugeriu que preferia o cachorro a ficar comigo – culpa do Lucky e da Brigitte, seus antigos cachorros, que iluminaram os seus dias, quando criança. Falou isso como se dissesse que os incomodados que se retirem. Fiquei magoado, principalmente por não poder divergir dos assuntos de sua autoridade. Nara promete que vai buscar o cachorro até a próxima semana. Enquanto isso, preparo o coração para mais uma emoção fora de hora.
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Deus me livre de uma morte cruel
Quantos dias me separam do meu fim? É somente uma curiosidade. Não tem nada de trágico no meu pensamento. Quero saber para gozar da vida. Já pensou se eu soubesse? Marta, minha amiga da repartição, recebeu o diagnóstico de seis meses de vida, por causa de um câncer de mama que se alastrou. Foi embora rápido, antes do tempo previsto, depois de fazer uma última viagem a passeio, para Portugal, local que queria muito conhecer, terra de seus antepassados. Robério, outro amigo querido, morreu em razão de um mal súbito. A esposa o encontrou duro na cama, após ter voltado da academia. Um trauma sem tamanho. Até hoje ela não fala sobre o fato. Dois dramas seguidos, que me fizeram pensar. Já estou com cinquenta e oito anos. Pretendo, se Deus permitir, preparar uma festança para os meus sessenta, com um trio elétrico tocando axé das antigas – sou alucinado por isso. Marlene, minha esposa, diz que falo muita besteira. Meus filhos têm raiva quando menciono a morte. Penso que não vou viver muito, por isso aproveito a vida, saio em dias de semana para cuidar de um bar que abri, na esquina da Nelson Mandela com a Juarez Távora. É bem frequentado. Toca-se de tudo, de rock a chorinho. Ainda continuo na repartição, não sou aposentado. Meus filhos pedem, insistentemente, que eu pare com esse negócio de bar (O formigueiro), mas eu gosto de gente, e essa é a melhor maneira de me inteirar da vida dos meus clientes-amigos. A morte me espreita, é bem verdade. Ano passado sofri um acidente de carro, no qual não tive culpa alguma; um carro atravessou a preferencial e bateu na minha lateral, com força. Com o impacto, fiquei com algumas (grandes) escoriações, tive de parar no hospital. Os médicos disseram que por pouco não fiquei preso às ferragens; que dali, provavelmente, não sairia com vida. Marlene me cobra juízo, parcimônia e um pouco de amor próprio. Ora, tenho todas essas qualidades, só ela que não percebe; sou um homem que zela pela vida, só que em abundância. Meu filme está queimado em casa, por isso passo boa parte dos dias fora. Nos sábados é sagrado tomar a minha cervejinha, e o bar fica por conta do Genésio, meu ajudante. Não sou de ferro, tenho de desopilar. Enquanto não sei nada sobre a minha morte, que para mim sempre está logo ali, vou aproveitando ao máximo as oportunidades que a vida me concede. Se é de morrer um dia, que seja na mais absoluta farra, com a presença dos que amo. Deus me livre de uma morte cruel; eu não mereço. Vida que segue… Estou agora no trabalho, sem nada para fazer, por isso escrevo estas palavras, para o meu diário. Quero preparar um livro de memórias. Ou seja, serei imortal para os que me lerem. Vamos em frente, com fé e um pouco de bandalheira, porque a vida não é para os fracos de coração.