Contos

Apenas uma bolinha

Ele achava que o mundo estava diminuindo. Disse isto num churrasco com os amigos naquele encontro habitual do condomínio. Foi para casa. Deitado, olhando o teto que lhe parecia mais baixo, ele ainda ouvia as gargalhadas do pessoal. “Tá diminuindo teu cérebro, isto sim”.

Acordou cansado, algo recorrente nos últimos meses, como se algo estivesse lhe sugando as energias durante o sono. Olhou a mancha no travesseiro. Aumentava dia a dia, um líquido escuro que escorria do seu ouvido direito e que deixava uma crosta ressecada por dentro da orelha. Na primeira que vez que aconteceu ele procurou o médico, um velho amigo da faculdade da cadeira de medicina. O diagnóstico foi enigmático: “isto acabaria acontecendo qualquer dia”. Não questionou. Considerou tratar-se de mais uma das tantas bobagens daquele professor esquisitão, que apesar da amizade de longa data, lhe causava um certo ranço por conta de suas posições políticas.

Parou diante da rampa que levava ao piso do anfiteatro e das salas de música onde lecionava todas as manhãs. Parecia estranhar o lugar. Sabia que ali era o seu local de trabalho, mas, com o pescoço curvado para a tela do celular, tudo o que vinha na sua cabeça era a imagem de extratos bancários, programas de TV sobre investimentos financeiros e lançamentos imobiliários em Miami, para onde viajava a cada ano com toda a família. Ergueu a cabeça por um instante e olhou para a rua. Percebeu que além do outro lado da calçada não havia nada, um vazio, como se a paisagem de edifícios que se estendia até os altos da cidade tivesse sido apagada com uma borracha. Sentiu-se tonto, achou que ia cair e sentou-se num banco de ripas ao lado da rampa. Isto já acontecera outras vezes e tornara-se mais frequente junto com outras anomalias que ele percebeu surgirem nos últimos tempos.

Começou a rir quando viu um boneco balançando em frente ao posto de gasolina, na esquina depois da grade que cercava o terreno da universidade. Incomodou-se e parou de rir. Estranho aquilo, pensou. Outro dia quase perdera o folego ao gargalhar de forma descontrolada da água que escorria em espiral na pia do banheiro masculino. Sorte que estava sozinho, pensou no momento.

Chegou tarde em casa, mais do que de costume. Tinha entrado no metrô na direção errada e de tão apressado acabou passando direto pelo grupo de amigos que o chamava para um vinhozinho no pergolado, numa área ajardinada do condomínio.

O socorro chegou na madrugada. O mal cheiro que vinha do seu apartamento começou a incomodar logo ao anoitecer. Sumira do convívio e do trabalho havia dias. Bateram em sua porta, tentaram seu celular, mas nenhuma resposta.

O bombeiro derrubou a porta do apartamento e levou a mão sobre o nariz. Apesar da máscara, o cheiro era repugnante. E o assombro ao entrar em seu quarto: as paredes forradas de bandeiras verde e amarelo, cartazes de manifestações, chapéus, bonés, cornetas, e ele mesmo deitado sobre a cama enrolado em uma bandeira do Brasil. Estava imóvel. O bombeiro se aproximou e virou lentamente sua cabeça. Viu a mancha escura imensa que se espalhava por sobre o travesseiro. Uma bolinha pequena escorreu do ouvido do defunto e acomodou-se numa dobra do lençol. O policial que acompanhava o procedimento pegou a bolinha e a olhou cuidadosamente.

“Parece um cérebro em miniatura”.

Riram. Depois colocou a bolinha num saquinho plástico e saíram.

Luiz Divino do Lago

Luiz Divino do Lago nasceu em Campestre, MG, em 17 de julho de 1956. Tem as seguintes publicações: “O Viajador”, romance, 1998, Editora Litteris, “Natalie disse boa sorte aos mendigos”, contos, 2023, Editora Litteralux, “Queda de braço no tabuleiro de Deus”, romance, 2024, Editora Nauta e “As ondas pequenas que estapeiam as pilastras do cais”, poesia, 2025, Editora Laranja Original. Já fez teatro, escreveu, produziu e dirigiu filmes, já compôs e cantou e, para espantar o tédio, é também comediante. É formado em Produção Audiovisual e pós graduado em Artes Visuais pelo Instituto de Artes, da UNESP.

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