
No dia seguinte
O Zé balançou a cabeça, recostou-se no sofá, acariciando os cabelos, a cara, as orelhas, o nariz. Quando chegou no nariz, ele acordou. Olhou a Cida do lado, sardentinha, de olhos claros.
Eram mais de três horas da tarde, e ele dormindo. Um gosto de cabo de guarda-chuva na boca! A Cida falava que tudo bem, ele ficou meio alegre ontem à noite, mas quem é que não ficou?
Todo mundo achou o Zé engraçado, só o Boi que ficou meio contrariado. O Boi é assim, é só alguém chegar muito perto da Zefa. E a Zefa até que estava gostando da conversa, só ficou chateada quando o Zé derramou molho de macarrão nas costas dela.
Todo mundo adorou o Zé no jantar. O dono do restaurante é que ficou preocupado, mas bem que ele estava gostando. O Zé cantava bonito, o dono do restaurante só tinha medo de que os vizinhos chamassem a polícia com tanto barulho.
O Zé cantou sem parar, por mais de uma hora. Quando cantou aquela dos políticos fazendo strip-tease no bordel, todos exigiram silêncio, aos gritos. Ninguém queria perder nada. Quando os protestos acabavam, o Zé recomeçava.
A Cida insistia para o Zé jantar, mas quem diz dele comer alguma coisa! Quando o garçom se aproximava, o Zé repetia e repetia que era irmão dele, que a mãe tinha separado os dois porque eram muito feios. O garçom ficou puto da vida.
Mais puto ficou o cara no fundo do salão, aquele da gravata vermelha e amarela que o Zé queria arrumar, e quase enforcou o homem! Ainda bem que a Cida conseguiu levar o Zé embora, trançando as pernas e tudo. O Zé dava dois passos e caía, e queria
cumprimentar cada poste, cada árvore do caminho.
Pior quando o Zé ergueu a perna, querendo mijar, como um cachorrinho num poste.
Depois abraçou uma árvore, disse que a copa, os galhos, as folhas brilhavam ao luar.
Disse que a árvore tinha uma aura, que ele podia ver a alma da árvore.
A Cida acabou ficando encantada com o Zé. Achava que aquela noite tinha sido a mais importante da vida deles. Agora à tarde ela acariciava o Zé com uma ternura imensa.
Até lhe serviu mais um gole de conhaque, para rebater.
O Zé bebeu e ficou olhando a Cida, com um olhar alheado – quem era a Cida?























