Conto de Sábado

  • Queda livre

    Resolveu descer do elevador no vigésimo nono. A conversa mole do Severino, o ascensorista, o incomodava. Não estava com paciência para ouvir suas reclamações sobre a incompetência do governo e o mau desempenho do time do coração na partida da véspera. Preferiu seguir a pé até o último andar do prédio onde trabalhava. Era, além do mais, uma chance de fazer um pouco de exercício. Não que isso pudesse fazer alguma diferença naquele momento. Meio-dia em ponto, horário de almoço. Inverno, temperatura mais baixa do que o habitual, ventinho cortante, chegou ao terraço praticamente sem transpirar, apesar da jaqueta de lã batida que vestia. Fosse verão, a situação teria sido diferente. Este representava para ele um período de incômodo e desconforto. Suava demais no verão… A mãe e o terapeuta diziam que não era só em função do calor. Era principalmente por causa da ansiedade. Naquele instante, contudo, estava contente, orgulhoso de si mesmo e calmo, surpreendentemente calmo. Finalmente iria colocar em prática o plano há muito concebido. Sabia que agora não haveria recuo, que não faria o movimento contrário de descer as escadas. Era uma pessoa assim, relutante até tomar uma decisão. Depois que isso acontecia, porém, não voltava atrás. Com passos firmes, foi se encaminhando ao parapeito. Um pássaro de penas cinzentas voou para longe emitindo um som estridente ao sentir sua aproximação. Ele esticou o pescoço e olhou para baixo. Os carros minúsculos o fizeram lembrar a coleção de carrinhos de ferro da infância. Por falar nisso, onde estaria ela? Com um discreto movimento de cabeça, afastou essa lembrança inútil e subiu no parapeito. Abriu os braços à la Leonardo di Caprio em Titanic. Senhor do mundo também, por que não? Do seu mundo, pelo menos. Do seu mundinho, seria melhor dizer. Pequeno, insignificante, solitário, dispensável; enfim, o que lhe fora possível construir. Se as coisas não tivessem acontecido dessa forma, não estaria ali, vislumbrando o panorama do alto, prestes a realizar o que… Bem, prestes a realizar um ato tão definitivo. A vida, com frequência, não é justa, muito menos simples. Nem tudo depende de esforço individual. Foi esse o primeiro pensamento que lhe veio à cabeça assim que se lançou lá de cima. Numa sucessão rápida, outros pensamentos foram aflorando. Indivíduo reflexivo, seguiria dessa maneira até o fim. Apesar de já estar próximo dos quarenta, não havia conseguido conquistar nada de importante: não tinha casa (vivia de aluguel num quarto e sala de um bairro decadente), carro (dependia de ônibus e metrô; táxi, nunca), relacionamentos sólidos (nunca os teve), prestígio (mais de uma vez, no ambiente de trabalho, roubaram-lhe boas ideias). O emprego atual, assim como todos os anteriores, era medíocre, bem abaixo de suas qualificações, o que o obrigava a ainda contar com a ajuda dos pais para as despesas básicas. Na altura do trigésimo segundo andar, não conseguiu evitar um leve sorriso (tudo nele era meio contido) ao pensar que se livraria definitivamente da convivência com a chefe gorda, incompetente, de voz anasalada e monótona, mulher desagradável que tinha prazer em diminuí-lo, desqualificá-lo ou apenas ignorá-lo. Como ela havia conseguido aquele posto é algo que nunca pôde entender. Vigésimo nono andar, pensou nos pais. Certamente seria uma surpresa para eles. Uma tristeza também. Mas, afinal de contas, a vida de todos é feita de surpresas e tristezas, não é mesmo? Com o tempo, tudo voltaria ao normal. O tempo cura tudo, vivem repetindo por aí. A mãe, mulher forte, esclarecida e religiosa, acabaria por compreender as razões do filho único. Será que se sentiria culpada? Talvez, não sabia dizer com segurança. Não tinha resposta para muitas perguntas, estava consciente de suas limitações. Vigésimo terceiro andar: e a pilha de livros à espera de leitura na estante do quarto? Alguns pareciam tão interessantes. Queria tanto ter tido a chance de folhear suas páginas, de fazer anotações nas margens e de sublinhar com o lápis as passagens mais significativas. Poderia ter aprendido coisas. Poderia ter se transformado num ser humano mais forte, mais preparada para as adversidades da vida. A literatura também serve para isso, ora bolas! Vigésimo andar: não teria sido melhor um método mais fácil (comprimidos, por exemplo; o terapeuta poderia tê-lo auxiliado, sem saber de nada, é claro). Décimo sexto andar: não tinha deixado bilhete dirigido aos parentes (muito clichê, a originalidade era para ele uma meta). Décimo primeiro andar: nunca chegaria a conhecer Mariana ao vivo. Já se falavam pela internet havia quase um ano. Como o tempo passa rápido! Ela parecia compreendê-lo tão bem. Existia empatia entre eles, sem dúvida. Pena que o relacionamento houvesse ficado confinado ao âmbito virtual. Será que ela tomaria conhecimento do fato? Será que leria a respeito em algum jornal? Talvez assistisse à reportagem de algum programa sensacionalista da TV, desses que se alimentam da dor e do sangue alheios a pretexto de mostrar a “realidade da vida”, “o mundo como ele é, sem retoques ou maquiagens”. Exploração da miséria humana, isso sim. Sétimo andar: tratamento dentário inacabado, quem se importa? Para sempre livre daquele motor irritante, daquele barulho desagradável, anestesias, brocas, para sempre livre do desprazer de ser torturado e ainda pagar por isso. Terceiro andar: jamais visitaria Florença, a cidade às margens do Arno, cenário de um filme visto na TV. O curso de italiano que vinha frequentando nos últimos anos não serviria para nada. Havia feito tantos progressos… Era, sem dúvida, o melhor aluno da turma. Recebia vários elogios da professora. Pelo menos ali ele se destacava. Ma la vita non è sempre bella. Segundo andar: não teria a oportunidade de pedir perdão a Viviane, sua meia-irmã, filha de seu pai, concebida num momento de crise no casamento oficial. Tomou as dores da mãe e disse palavras terríveis à menina. Na ocasião, até ele se surpreendeu com a própria capacidade de ferir e de magoar. Hoje pensava diferente, que culpa tinha ela? Deveriam ter convivido mais, poderiam ter sido mais próximos. Poderiam… Solo: poça de sangue, dor intensa no corpo todo, justiça, esforço individual, chefe gorda e intolerante, gritos dos passantes, bilhete de despedida, parapeito, carrinhos de ferro, desespero dos transeuntes, voz anasalada e monótona, ler, livros, leitura, pessoa melhor, Mariana, Viviane, Leonardo di Caprio, Titanic, Florença, dolore, surpresas e tristezas, suor, ansiedade, inverno, inferno, internet, terapia, terapeuta, comprimidos, dentista, aluno, professora, paura, sorpresa, surpre e triste, surp e trist, sur e tri, su e tr, s e t…

  • Amigos

    Saí de casa por volta das 8 e meia da manhã como fazia todas as segundas, quartas e sextas, andei alguns passos e cheguei à praça. O jogo ainda não havia começado. Arnaldo, Alfredo e Ranulfo já estavam lá conversando sobre a vida alheia, um esporte praticado com afinco na nossa cidade. Aquelas reuniões com os amigos de uma vida inteira ainda eram bastante agradáveis, apesar de o carteado ter perdido um pouco da graça desde que deixamos de jogar valendo dinheiro. Foi o Alcindo, que morreu de tristeza quatro meses atrás, quem sugeriu. Essa grana faz falta pros nossos remédios, argumentou com certa razão. Afinal, somos todos aposentados e clientes preferenciais do Antônio Careca, o dono da única farmácia da região. Digo que o Alcindo morreu de tristeza porque pra ele foi um choque tremendo quando a Arlete teve um ataque cardíaco fatal enquanto via o último capítulo da novela. Convivência de 61 anos — 63 se considerarmos também o período de namoro e noivado — definitivamente não é pra qualquer um. É tempo demais vivendo junto, o que torna a coisa sempre dolorosa quando termina. Se não é pelo amor propriamente dito, é pelo hábito. Claro, costume e preguiça também são capazes de manter muito casamento por aí, mesmo nos dias hoje, marcados por tanto progresso e emancipação feminina. O fato é que exatamente 19 dias depois do enterro da patroa, coube ao Alcindo fazer a passagem, como costuma dizer o Arnaldo, frequentador convicto do centro espírita do bairro onde moramos.

    — Sempre o último a chegar, hein, Hildebrando — falou Arnaldo assim que me viu.

    — É o trânsito — tentei ser engraçado.

    — Pois eu estava só esperando você aparecer pra dar uma notícia importante pros três — prosseguiu ele.

    — Notícia? Que mistério é esse? Fala logo, homem! — impacientou-se Alfredo, o mais agitado do grupo.

    — Ontem eu estive lá no centro…

    — Xiiii, aí vem coisa — interrompeu Ranulfo.

    — … e a dona Isaura psicografou uma mensagem do Alcindo — informou enquanto tirava um papel do bolso.

    — Como é que é? O Alcindo baixou no centro ontem? — perguntei ainda sem compreender direito o que se passava.

    — E pra quem é a mensagem?

    — Pra nós quatro, Ranulfo. Pra mim, pra você, pro Hildebrando e pro Alfredo.

    — E o que ele diz? Vai nos contar ou não? Pra que tanto suspense?

    — Calma, Hildebrando. O troço tá meio em código, linguagem telegráfica, sei lá. Mas, pelo que entendi, acho que houve um erro.

    — Erro, que espécie de erro?

    — Parece que a hora do Alcindo ainda não tinha chegado, Alfredo. Tá escrito aqui, deixa eu ver… “mais cedo que o programado… era a vez de um amigo… amigo da praça e das cartas… falha no controle… a melancolia ia passar… Arlete ainda não tava pronta pra me receber…”. Resumindo: um de nós quatro é que devia ter morrido.

    — Quem? — os três, quase ao mesmo tempo.

    — Não dá pra saber, mas o fim da mensagem deixa claro que o pessoal lá de cima está disposto a corrigir essa falha de alguma maneira.

    — Ressuscitando o Alcindo? — indaguei.

    — Não, isso não se pode fazer. Eles pretendem vir buscar o sujeito certo.

    — Quando? — continuei.

    — Pelo que diz aqui “antes que o oito vire nove”, ou seja, antes que agosto termine.

    — Hoje é dia 25 — anunciei consultando meu relógio de pulso.

    — E agosto tem 30 ou 31? — quis saber Alfredo, ao mesmo tempo que, mais trêmulo do que o habitual, tentava obter a resposta fazendo o teste no dorso da mão.

    — Calma, Alfredo, tá achando que você vai ser o premiado? — provocou Arnaldo.

    Naquele dia, não houve jogo. Cabisbaixos e pensativos, fomos tomando o rumo de casa. Em frente ao portão, ouvi os latidos do Max vindos do lado de dentro. Meti a chave na fechadura com certa dificuldade. Antes de entrar, ainda olhei pra trás e pude ver, na praça, nossa mesa habitual deserta. Aliás, contrariando o costume, a praça inteira se encontrava completamente vazia naquele momento.

    ***

    Bem, o 11 já virou 12, e hoje é véspera de Natal. Nós quatro continuamos vivos e resolvemos celebrar a data aqui em casa. A dona Isaura não dá mais expediente no centro. Há três meses foi internada numa clínica psiquiátrica de uma cidade vizinha à nossa, e, infelizmente, o caso é grave. São quase 9 horas, e eles devem estar chegando. Pelo menos hoje não vou ter de ouvir o Arnaldo dizer que estou sempre atrasado. Nosso amigo ausente não mandou mais notícias, e nunca mais tocamos no assunto. É bem provável, porém, que, na hora da ceia, a gente faça um brinde em homenagem ao Alcindo.

  • O Teste

    — Quantos quilos você tem?

    — Uns cento e dez.

    — Próxima! Mais rápido, minha filha. Anda um pouco. Desfila. Imagina que tem uma plateia aqui só pra te ver. Vamos logo, meu amor, não tenho o dia todo. Chega, pode sair. A gente entra em contato. Próxima! Próóóóxima! Quantos quilos você tem?

    — Cento e vinte e um.

    — Próxima! Uau, acho que você vai servir. Como se chama?

    — Zulmira.

    — Então, Zulmira, você tem problemas com nudez? Ainda estou pensando, não é nada certo, mas talvez alguma nudez venha a ser necessária. Só peitos, não se preocupe, tudo de muito bom gosto. E vai ser rápido. Na hora devo colocar uma luz fraca em cima de você… Seria um empecilho?

    — Não, tudo bem. Eu…

    — Agora anda um pouco, como se estivesse desfilando. Meio Gisele, entende? Meio Gisele, eu disse! Mais disposição, atitude de mulher empoderada. Solta o cabelo. Balança a cabeça. Plínio, joga o ventilador em cima dela. Pega aquele lençol e enrola no corpo. Bem sensual, não seja tímida. Anda, Zulmira, tá esperando o quê? Não precisa ficar com vergonha. Parece bom. Quantos quilos você tem?

    — Cento e trinta e sete, acho. Não fico me pesando toda hora.

    — Perfeito. Você não é muito alta, né? Um metro e… Idade?

    — Quarenta e nove.

    — Onde você mora?

    — Quintino.

    — Cruzes, onde fica isso? É longe, né? Você vai conseguir chegar na hora? Eu não tolero atrasos é bom que você saiba. Plínio, mais alguma?

    — Não, Daniel, essa aí é a última.

    — Você tá com sorte, Zulmira, vamos fechar com você. Alguém já te disse que você tem muito potencial? Contente, querida?

    — Claro. Sempre foi meu sonho. Olha, eu decoro rápido, tenho muita facilidade. E os ensaios quando começam?

    — Relaxa, Zulmira. Você não tem texto, não precisa decorar nada. Também não tem que participar de nenhum ensaio. Uns dois dias antes da estreia você passa aqui, a gente conversa sobre marcação, mas é tudo muito simples. Você fica uns trinta segundos em cena e sai. Vai dar tudo certo. Os caras querem ver as garotas, as gostosonas. A sua parte é mais um alívio cômico, entende?

    — Mas é só isso? E o contrato?

    — Não tem contrato, é cachê. Cinquenta reais por sessão, recebe no domingo.

    — Mas eu pensei que…

    — O que foi, Zulmira? Não tá satisfeita eu chamo outra.

    — Não é isso, é que eu pensei…

    — Pensou o quê? Meu bem, você não viu o anúncio? Tá claro no anúncio.

    — Eu não li o anúncio. Nem sabia que tinha um anúncio.

    — Veio pela agência?

    — Não, tava passando aqui na porta…

    — Então é isso, minha filha, já expliquei tudo. Conversa com o Plínio se tiver dúvida, mas o negócio é esse mesmo que eu falei. Plínio, tô atrasado, preciso correr. Liga pro elenco e avisa que os ensaios começam amanhã, tudo bem?

    — Pode deixar, Daniel.

    — Acho que lá pelas seis tá bom. Ah, e fecha o teatro pra mim, ok?

  • Meu avô, o escritor

    Seguramente, este amor que nutro hoje pela Literatura se deve a meu avô Carlos, um advogado criminalista que gostava mesmo de inventar histórias. Tenho várias lembranças dele trabalhando no escritório da casa do Humaitá junto com sua inseparável Olivetti portátil. Quando não estava no escritório, podia ser visto no jardim observando as plantas, as flores e os insetos ou apenas contemplando o céu. Era a hora de se abastecer de inspiração, justificava ele, antes de se acomodar embaixo da mangueira ou de se sentar ao lado do viveiro para ler o jornal. Na sala de estar ouvindo música clássica, nos quartos meditando e olhando a paisagem ou mesmo na cozinha impregnando-se de cheiros e sabores, vivia espalhando metáforas, metonímias, sinestesias e hipérboles pelo ambiente. E sempre que estava para concluir um texto, dirigia-se ao terraço com as folhas datilografadas na mão. Então, tal qual bandeira desfraldada, estas eram sacudidas ao sabor do vento por alguns instantes. Se alguém presenciava a cena e se surpreendia com esse inusitado comportamento, ele logo explicava num tom meio professoral:

    — Trata-se de uma manobra crucial, meus caros, é só neste momento que os clichês se desprendem do texto…

  • A cartomante do fim da rua

    1.

    A casa do fim da rua ficou vazia por anos. Sete, para informar com precisão. Dizia-se pela vizinhança que algo terrível havia ocorrido no local. As teorias eram muitas, mas ninguém nunca soube de fato o que aconteceu lá dentro. Um dia, uma caminhonete estacionou na frente do imóvel e começou a descarregar a mudança: um fogão, uma geladeira, uma cama, uma mesa, algumas cadeiras, um abajur, um ventilador, duas poltronas e uma ou outra tralha a mais. Exatamente uma semana após a chegada, a nova proprietária fincou no jardim uma placa que dizia: SULAMITA CARTOMANTE.

    2.

    Um mês depois desse dia, Laura resolveu tocar a campainha. Nem marcou consulta, mas queria muito ser atendida. Eu não liguei, resolvi arriscar, tô muito necessitada dona Sulamita, a senhora tem uma horinha pra me atender, se não tiver eu volto outro dia, moro logo ali embaixo… E ia emendando uma frase na outra, às vezes atropelando o pensamento, outras vezes nem se fazendo entender. Entra, minha filha, tô sentindo que você tá mesmo precisada.

    3.

    Dentro da casa, Laura continuava a falar, problema é que não faltava. Contou, explicou, perguntou, até que dona Sulamita disse: Chega! Já entendi. Parte o baralho. Tira uma carta, tira outra carta. Mais uma. Só mais uma. Ia dando as ordens, igual à cartomante de um filme que Laura tinha visto uma vez na televisão. Amor. Sulamita olhava as cartas e dizia lá o que achava. E acertava. Tudo. Detalhes. Trabalho. O processo se repetia: no alvo mais uma vez. Saúde. Nesse ponto é que Laura ficou impressionada. Não é que a mulher havia descoberto até sobre a cirurgia de vesícula feita no ano passado… Eta cartomante boa, pensou.

    4.

    Foi aí que Laura tomou coragem e pediu: Agora dona Sulamita, eu preciso saber de uma coisa muito importante. Vim aqui mais por causa disso, a senhora compreende? A senhora precisa me ajudar, não sei mais a quem recorrer. E falava, falava… de um modo que irritava até mesmo dona Sulamita, pessoa mais do que preparada para lidar com o desespero alheio. Minha filha, se acalma. O negócio agora é sério. Mas tem jeito, fica tranquila. Tá vendo aquela porta ali? Então, eu quero que você entre lá. Depois, você tem de sentar numa cadeira que fica em frente a um quadro. Não tem erro, é o único quadro do quarto. Olha pra obra e pensa no seu problema que sua mente vai clarear. Depois volta aqui, e a gente completa o serviço com as cartas, entendeu?

    5.

    Acomodado num sofazinho rasgado, um gato preto e branco nem se incomodou quando Laura entrou e se sentou na tal cadeira. Ela achou o quadro meio esquisito, não conseguia identificar nada na pintura. Eram uns rabiscos, umas cores que não combinavam. Parecia que o pintor tinha jogado as tintas ali de qualquer jeito, sem muito critério. Ficou mesmo decepcionada, pois, do modo como dona Sulamita havia falado, pensou que a obra fosse alguma coisa normal, sei lá, o desenho de uma paisagem, de um bicho, de alguma pessoa.

    6.

    Laura não sabe ao certo quanto tempo se passou. Por um momento, a impressão é que haviam transcorrido meses ou mesmo anos. Ficou ali olhando o quadro e acabou dormindo. Talvez tenha entrado em transe. Quando acordou, decidiu sair do quarto e procurar dona Sulamita. Buscou pela casa inteira, nem sinal da mulher. Até o gato preto e branco não estava mais lá. Dirigiu-se então ao jardim e ouviu uma senhora de lábios grossos e voz fina perguntar diante do portão: Dona Sulamita? Preciso muito me consultar, ouvi falar tão bem da senhora… Laura não teve tempo de pensar direito. De modo automático, respondeu apenas: Sim, sou eu. E continuou após alguns instantes: Pode entrar, tô sentindo que você tá mesmo precisada. Mas tenha calma, querida, o negócio é sério, mas tem jeito.

  • A GAIVOTA

    Noite após noite, eu acordava com o grito da gaivota, lancinante, como se viesse de um abismo de loucura. Eu me debruçava no alto do farol, e via lá embaixo, estatelada numa pedra enorme, batida pelos vagalhões, a gaivota. A pedra brilhava banhada pelo sangue da gaivota.

    Eu não podia dormir com o terror que o grito e a imagem da gaivota infundiam. De manhã lavava e lavava a pedra, com uma esponja de aço, que me comia os dedos, fazia de tudo para limpar o sangue seco, incrustado entre as ranhuras negras. E nada da gaivota. Somente o sangue, ressecado, velho, incrustrado na pedra.

    Na próxima noite, novamente o grito. E era como se o sangue jorrasse do meu peito.

    Tantos dias e noites de solidão, sem nenhuma companhia a não ser o mar, e as gaivotas mortas – num baque surdo, com um grito sangrento, e longínquo, como se viesse do fundo do poço da loucura, ali na minha porta.

    Por fim, decidi pôr em pratos limpos a minha sanidade. Uma noite, rolei escada abaixo, me batendo, urrando desvairado, como um animal acuado. Queria ver a gaivota, que eu nunca encontrava, que eu via e escutava só do alto, e me enlouquecera.

    Mas o que eu encontrei foi uma mulher, banhada de sangue, sobre a pedra. Foi ela quem me chamou: “Me sepulta, maldito!” Eu fiquei paralisado de medo, de terror. Quando consegui me mover, sepultei a mulher como pude. Desde esse dia, a gaivota desapareceu.

  • Maria Quitéria

    Boca aberta, torta para um lado, os olhos para o outro, parados na morte.

    “Não faça isso comigo. Volte, Paizinho.”

    Olha para a esquerda, vesgo na eternidade.

    “Paizinho, eu prometo ser boazinha. Eu faço tudo.”

    A ponta da língua no canto da boca, quer sair. O safado.

    “Eu prometo, Paizinho. Nem na igreja, nunca mais.”

    – Na igreja, eu sei. Dava para o padre.

    – Olha, parece que vai rir. Morto mais sacana.

    – Perseguia a filha em tudo quanto era canto.

    – É. No bar, eu vi erguendo o vestido. A mão na bunda.

    – Boazuda, a Quitéria.

    – Boa moça. Trabalhadeira. Vivia na igreja.

    – Verdade que andava com o padre?

    – Bobagem. Andava é fugindo do pai.

    De mãos postas no centro do tapete, se faz de santo. O revólver do lado. As mãos rezando, debaixo o buraco da bala.

    “Eu não queria, juro que eu não queria. Você disse: Atira.”

    – O revólver não tinha bala. Decerto pensou que o revólver não tinha bala.

    – O diabo atenta, minha mãe dizia.

    – Um tiro só, bastou um, na barriga, e puf! O diabo murchou, se apagou.

    – Até soltava fumaça, tanto que bufava.

    – Está virando os olhos, está virando os olhos.

    – Que nada. Esse está longe, com os anjos e os santos.

    – Ou com os diabos amigos dele.

    “Paizinho, que eu faço da minha vida? Se o revólver tivesse mais bala, eu me matava.”

    – Não é uma lágrima que cai do olho?

    “Aguinha azul, vontade de beijar, beber essa aguinha da morte.”

    – Deve ser azul, a morte.

    – É negra. Preta que nem um urubu, um morcego.

    – Que frio! Um gelo o coração.

    – Um morcego te chupando o sangue. Só fica essa aguinha azul, morcego não gosta.

    “Pai, e se eu me enforcar? Tem uma corda na cozinha.”

    – O vestido rasgado, que vergonha! Não é um seio de fora? E esses dois lambendo carniça? Os dois, o contista bisbilhoteiro.

    “Feito louca pela casa. Tenho as mãos manchadas de sangue. Quero morrer, quero morrer.”

    “Você foi-se embora, Paizinho, por quê? Não dá para entender. Queria me violentar? O revólver estava tão pesado!”

    “Atira, sua cadela.”

    “Eu atirei, o revólver pesado.”

    Não tinha bala? Umazinha só, esquecida no tambor. A bala que o diabo pôs lá.

  • Uma Noite Alucinante

    zzzzzzzzzzzzz…..

    zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz…….

    Júlio mexeu na cama enquanto se recusava a abrir os olhos. “Pernilongo maldito.” Pensou tentando não despertar por completo.

    SLAP! Uma batida de palma na escuridão, inútil. O diabo do mosquito pousou em seu nariz. “Isso é um despeito.” SLAP!

    “Aí!” Gritou enquanto massageava o nariz e abria os olhos contra sua vontade. Tateou ao lado da cama em busca da raquete. “Agora vocês vão ver seus filhos da puta.” 

    VUSH, VUSH, VUSH. Nenhum barulho; nada…

    zzzzzzzzzzz, Júlio pula da cama irritado e acende a luz. Seus cinco graus de miopia o impediam de distinguir qualquer coisa além dos móveis, ele se arrasta até o banheiro, resmungando enquanto coloca sua lente. Vlad, seu buldogue o encara sonolento, se levanta sacudindo o corpo e desce pela escada recém comprada pela internet seguindo o papai.

    A lente úmida encontra a retina e Júlio se olha no espelho, dezenas de pequenas marquinhas vermelhas cobrem todo seu rosto enquanto a veia da sua testa começa a pulsar, o ódio surgindo de suas entranhas. Ele olha as horas.

    03:15 cedo demais para acordar, tarde demais para voltar a dormir, levantava às seis para passear com Vlad antes do trabalho. Toda sua rotina arruinada por aqueles malditos sanguessugas barulhentos. 

    Furioso, irrompe pelo quarto buscando a raquete, mas seus olhos se arregalaram entre a surpresa e o medo. Milhares de pernilongos vagueavam pelo ar, outros parados na parede, alguns pousados sobre os móveis. Seus dedos se fecham ao redor do cabo e ele começa a balançar a esmo a raquete elétrica, como se estivesse segurando uma espada em um campo de batalha medieval. 

    Vlad corre pela escada, subindo na cama e se juntando no que acredita ser uma nova brincadeira. VUSH, VUSH. NHAC!

    Os olhos de Júlio arregalam ao perceber que Vlad acabara de abocanhar um pernilongo, os dois se olham nos olhos encarando-se por alguns segundos antes do pequeno animal abrir um sorriso e colocar a língua pra fora. Estava inchada.

    O ódio atravessa pelos poros do homem que grita de raiva enquanto continua a matar os mosquitos até que  a bateria da raquete acaba. Furioso, ele começa a usá-la como um martelo, esmagando os pernilongos ao invés de fritá-los com a eletricidade. Um sorriso sádico começa a se formar em seu rosto, uma crueldade que nem mesmo Vlad, sempre tão próximo e tão atento a cada expressão e tom, nunca vira.

    Assustado, o buldogue sai do quarto, deixando Júlio e seu ódio sozinhos com o inimigo. “Morram malditos!” Ele grita em plenos pulmões enquanto esmaga mais uma dezena de pernilongos. “Vai dormir filho da puta!” Uma voz aguda de outro apartamento no prédio urra.

    Percebendo um pernilongo perigosamente perto de seu rosto, Júlio abre a boca e usando a técnica ensinada por Vlad o abocanha. Sente um gostinho de sangue, gosta. Abandonando a raquete ele começa a pular atrás dos mosquitos, caçando-os com seus dentes, engolindo seus corpos inteiros, dois, três, cinco, dez por vez. O sangue se misturando a saliva em seu sorriso macabro.

    Ele arranha a própria pele se coçando cada vez mais, as unhas ferindo a pele, rasgando a carne. NHAC! Júlio abocanha mais uma dezena de pernilongos. Coça a pele, rasga a carne, morde o bicho, o sangue deles se misturando ao seu.

    “Ahhhhhhhhh” Ele urra arrancando um pedaço de seu braço revelando uma outra pele, uma outra forma, ao invés de um braço, uma pata. Seus olhos arregalam aterrorizados.

    Ele senta uma coceira nas costas e não conseguindo se segurar usa a grade da raquete para coçá-la, esfrega e esfrega, com força, violência, ódio.

    Um par de asas rompe por suas omoplatas, elas batem 

    zzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

    seus pés saem do chão, ele flutua. Sorri. Engole mais pernilongos enquanto se despe de sua carne e forma, arrancando por último seu rosto, nenhum outro vestígio de humanidade.

    Vlad volta ao quarto, preocupado, apenas para encontrar um enorme mosquito, o encarando com aqueles olhos gigantes, aquelas presas prontas para consumir sangue. Ele late, uma, duas, três vezes.

    O que era Júlio olha o buldogue à sua frente e pousa ao chão. 

    Silêncio, não haviam mais pernilongos no quarto. Vlad late novamente subindo a escada até a cama, calmamente deitando em seu lugar favorito. 

    Ele vê a pata gigante daquele ser se aproximar de sua cabeça, fazer-lhe um carinho. Ele arfa antes de se ajeitar novamente para dormir. Seu olhar acompanhando aquela figura que encarava a janela como se questionasse seu destino.

    Vlad late e o enorme pernilongo vira aquela cabeça com olhos muito grandes para ele. Late novamente.

    O pernilongo então fecha a janela e se espreguiça ao lado do buldogue. Talvez ainda conseguisse dormir uma horinha antes de acordar.

    FIM

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