José Carlos Brandão

  • Os anos de chumbo

    Fui adolescente nos anos de chumbo. Eu não sabia do que acontecia no Brasil, tudo era escondido como se fosse vergonhoso. Nosso comportamento também era controlado, tudo em nome da moral e dos bons costumes.

    Fui expulso do seminário, perdi a fé, depois descobri que meus novos amigos também não tinham fé. Mas a minha falta de fé não era pacífica.

    Por algum tempo, muito pouco, dormi num pequeno quarto, quase uma despensa. Eu rolava, rolava sem parar, estatelava-me no chão e, exausto, fungava, fungava. Os olhos nas paredes, armários, no teto, sobretudo no teto, suas frases escritas a giz.

    “É proibido proibir.”

    “Apareça lá em casa, viu?!”

    “Pois é, falaram tanto.”

    “Make warm not love.”

    “Dê um chute no patrão.”

    “Adivinha quem vem para o jantar!”

    Algumas frases com a indicação da autoria:

    “E vendo o barco se afastar de Amaralina desesperadamente linda e soluçando lentamente.” (Caetano Veloso).

    “O amor move o sol e as estrelas.” (Dante)

    “É preciso respeitar o homem… não ter piedade dele.” (Gorki)

    “Pierrot le fou… lindo!”

    “Estavas tão linda assim no dia dos quarenta e três pores-do-sol!

    “Vivemos na melhor cidade da América do Sul.”

    “Vamos passear na floresta escondida, meu amor.” “É superbacana.” “São Paulo mon amour.”

    “Yes, nós temos” e o desenho de duas bananas.

    E tudo isso eram coisas. Faltaria uma frase de Gorki? “Ninguém deve ser condenado por coisa alguma porque somos todos iguais: bichos.” Bichos? Então não éramos coisas? E um bicho é algo mais? Em alguma parte do mundo, uma criança, em alguma parte do meu coração, chorando. Silêncio em mim. Quem seria eu? Ninguém?

    Urra! Abre os olhos, abre os olhos, bicho! Oscilações, confiança, extremos. Sangue, dor, angústia. A criança chorando, em alguma parte, sem o pequeníssimo barulho enorme da gota de remédio caindo da invisível colher. Cusparada na face do destino.

    Mas o destino tem face? Mas existe destino?

    “…estendes os braços perfumados de giestas pedindo tempo quando não há tempo.” (Dalton Trevisan)

    Meus amigos, não há amigos. Eu sentia a precisão de uma companheira.

    Silêncio. Mas o que era o amor? Talvez uma neurose. “Se queres aprender a amar, esquece a tua alma.” (Manuel Bandeira)

    Eu teria deixado muitas almas por aí, ah, as almas histericamente berrando canções de afugentar as almas.

    “Os corpos se entendem, as almas não.” (ainda Manuel Bandeira.)

    E meu corpo estava vazio. Se eu cria em Deus, qual então a causa da minha angústia? Viver é um paradoxo. Eu estava ali numa cadeira, numa mesa, num quarto/despensa escrevendo não sabia o quê como se isso resultasse alguma coisa.

    Então a mocinha dizia ao pai consternado: “Minha vocação é pra prostituta.”

    O mundo seria salvo, talvez, pelos insubmissos. Mas o que quer que eu fizesse seria uma submissão – ou ao corpo ou ao espírito. Seria preciso muita virtude para se conseguir um estado de completo, perfeito, sumo ateísmo ou teísmo.

    “Deus é virtude.” (Quem teria dito?)

    “Pensarei provisoriamente que a virtude é o que o indivíduo possa obter de melhor de si.” (Gide)

    A criação artística é um ato de embriaguez. Eu procurava a fé, um cristianismo de vida. Problema da fé sustentada no amor? Crer mais importante que ser? Amor, comunhão, conciliação com Deus e os homens? Destino humano, desejo de permanência – a salvação do homem? Quando a volta do homem desiludido? Deus não existia para mim se eu não o aceitasse e não podia aceitá-lo enquanto não emergisse do mal. Haveria salvação para mim?

    Eu continuaria fazendo o meu caminho nem que fosse por falta de alternativa.

    Depois parece que me esqueci de tudo isso, continuei caminhando sem esperar por respostas. Deveria ser o início da maturidade.

  • O aniversário

    Cinquenta anos de idade. Meu presente mais-que-perfeito. O presente que estou me dando. Meio século de vida. Por que comemorar meu aniversário? Estou um século mais velho. O que é que eu tenho para comemorar? Cinquenta anos ou apenas um ano? Faz menos de um ano que eu nasci. Faz mesmo?

    Crescem as dores nas juntas, as rugas, os cabelos brancos. Os dentes apodrecem, o espírito apodrece. A idade pesa nos ombros, a idade tem o peso de um túmulo. Que quero eu da vida? Nada. Dizem que nasci ontem. Mas nasci velho. De repente me descobri velho.

    Quando eu era mais jovem, um homem de cinquenta anos era um velho. Quando cheguei aos quarenta, me senti jovem: a vida começava aos quarenta. Envelheci de repente. Envelheci, sem mais nem menos.

    Nasci ontem? Renasci, depois de um acidente besta. Voltei velho. Voltei estranho. Sou um estranho no ninho. Vegeto ou pouco mais que isso. Me importa o prazer. Boa mesa, boa cama. Sem grandes sonhos. Sem sonhos, existo. Não tenho planos. Quero existir enquanto existo. Não temo o futuro. O futuro não existe. Quero o aqui e o agora. Sem muita determinação.

    Ficam abolidas todas as frustrações. Ser e não ser se dão as mãos. Quais os problemas a resolver? Nenhuns. La nave va. Não tenho problemas. Não vou a lugar nenhum. Não conheço a verdade. Não estou interessado em verdade nenhuma. Quem é o dono da verdade? Matem-no. Ou não o matem. Dá na mesma.

    Olho no espelho e não me encontro. Quebro o espelho. Pelo prazer de não me encontrar em caco de vidro nenhum. Talvez as estrelas se reflitam nos cacos de vidro. Os homens quando morrem, morrem. Tanta gente morta, tantas cruzes à beira do caminho, cruzes anônimas. Tantos amigos, conhecidos, parentes: esquecidos. Vira a página e esquece. A vida é isto: esquecimento. Nenhum dia a mais senão o olvido. Põe uma pedra sobre tudo que passou. Se passou, já não é. Escreve na areia as ofensas, as dores, os prazeres da vida. Tudo passa. Scripta manent: não escreva nada. Por que escrevo? Tantos despropósitos na vida. Quero viver este momento inútil. Escrevo por desfaçatez. Talvez eu deva isso a alguém. Mas não quero pagar dívida nenhuma. Escrevo por escrever.

    Quero viver todos os momentos inúteis que me forem dados. Morrer quando me for dado morrer e desta vez que seja para sempre. Não sou melhor nem pior por isso. O mundo não é nem melhor nem pior por isso. Não sou mais feliz ou infeliz. Ou talvez seja. Talvez eu procure alguma coisa, talvez eu tenha encontrado. O vento me dá na cara neste momento e eu sinto prazer. Os valores estão mudados: sinto prazer. Sinto prazeres mínimos e enormes e me sinto bem.

    Talvez seja necessário dizer isso, para mim mesmo. O resto do mundo? Que se dane. Não posso salvar a humanidade. Não sei se a humanidade quer ser salva. Não sei o que é salvar a humanidade. Existo, mais nada. As dores do mundo? Não posso mais sofrer. Todas as dores humanas, toda a grandeza e miséria humana já não me pertencem. Peço desculpas. Ou não peço, saio de fininho como quem já morreu. Talvez eu já tenha morrido.

  • A menina e a caixa de sapato

    A menina encontrou uma caixa de sapato na soleira da porta de casa. Era uma caixa enorme – devia ser um homenzarrão, pensou a menina. Dentro um bebê, com um gatinho recém-nascido no meio das pernas. O bebê era minúsculo, peladinho, a pele quase transparente, esticadinha. O gatinho era molinho, parecia que a gente ia esmigalhar, só de pegar.

    A mãe gritou lá da cozinha:

    – Que é, Cidinha?

    – Nada, mãe.

    – Essa menina, disse o pai.

    E a menina – só a menina, sem nome mesmo; essa menina! –, a menina toda ansiosa correu esconder a caixa de sapato. Apertava no peito – é minha! Queria esconder nas costas, debaixo do vestido, dentro da boca, dos olhos enormes. Escondeu embaixo da cama, até que o pai e a mãe fossem trabalhar.

    – Cuida da porra da casa, disse o pai. – É só uma criança, disse a mãe. – A casa é a porra da casa, disse o pai. E bateram a porta.

    Enfim sós. O coraçãozinho apertado – ver meus bichinhos, uh!

    Pegou a mamadeirinha da boneca, encheu de leite, tomou um pouquinho – um golinho só, para experimentar. Ficou olhando para os dois bichinhos na caixa de sapato – para qual primeiro? O gatinho, está chorando mais alto. E enfiou a chupetinha entre os dentes do gatinho, que virava os olhinhos pingando remela. O nenezinho só soltava um gemido, fino, fraquinho, nem se ouvia.

    Logo é a sua vez, disse a menina. E olhou bem: – Você é macho ou mulher? Não tinha nada no meio das pernas – xi, será…? Vai que não nasceu ainda o pintinho dele. Enfiou a mamadeira na boca do coitado – bebe, tonto! E o tontinho não bebia. Nem chorar não chorava – será que morreu, essa porcaria?

    O gatinho se virava de lado, miu, miu, soltava um miadinho sem graça. O nenezinho, nada! A menina fez beicinho – e agora? Fez cosquinha na barriga do gatinho. Depois fez a mesma coisa no nenezinho; ergueu, escutou o peitinho, depois o nariz – encostou o nariz no nariz dele. Pô, jogou o nenezinho na caixa de sapato. Ai, logo se arrependeu – e se cai em cima do gatinho?

    Arranhou o dedinho – esse ainda está vivo. Mas como está lambuzado! Pegou o pano de prato e esfrega, esfrega, quase mata o gatinho – ou será que não está morto não? Aperta bem – nem um gemido! Está mortinho da silva, ela disse. E foi apertar o nenezinho, mais mortinho ainda. Aperta que aperta, bem no pescocinho – se não estava morto, agora está!

    E agora? Que é que eu faço com essas duas coisinhas? Enfiou na caixa de sapato, socou bem – pareciam maiores agora – e foi botar na porta da vizinha. Pensou em chorar, só um pouquinho – estavam mortos mesmo, disse, e foi varrer a casa.

  • Gênese

    Fui espiar o gato que miava no jardim, à noite, um miado esganiçado como se o estivessem estripando. Olhei as estrelas, a mancha branca da Via Láctea e a lua com suas manchas retorcidas. Pensei no que haveria por trás dessas estrelas, outras estrelas talvez, por trás da nossa galáxia talvez outras galáxias. Me lembro de Fernando Pessoa: “Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.”

    Foi Baudelaire quem falou da palavra que nomeou o mundo e que nomeou Deus. Foi Deus quem nomeou o mundo, mas foi a palavra quem nomeou Deus. Deus subjaz à palavra. Que frase, hein? Deus subjaz à palavra. Mas, como tudo começou? Com a palavra. Mas quem lançou a palavra, antes de Deus? Quem criou Deus? A palavra. Mas, quem antes da palavra?

    No princípio era o caos. Este é o verdadeiro princípio. O caos. Ou o nada. Impossível imaginar que antes do nada ou do caos surgisse o universo. Algo se moveu, do nada. É o que a ciência até hoje sabe. Algo se moveu. Não existia nada e algo se moveu. A explosão primordial. Há uma campânula, e o vácuo. Uma bola de papel é jogada nesse vácuo, como numa sala vazia. E é criado o universo. Uma explosão que quebra o caos ou o nada, e é criado o universo. Deus deu o petardo na bola de papel. Dizem que Deus é inteligente. Um belo jogador de futebol. Falam na ordem do universo. Um belo petardo nos colhões do universo. E instaurou-se o caos, se é que caos já não havia.

    Caos é o que sempre houve. Ingenuidade falar-se em ordem. Prova da existência de Deus. A ordem ou o caos? A ordem ou o caos, antes ou depois de Deus? Haverá um antes de Deus? Deus há porque há a ordem, mas se não há a ordem, se o que eu vejo é sempre caos?

    Olhe para as estrelas, a harmonia eterna das estrelas. Mas a astronomia nos ensina que não existe harmonia eterna. Existe o caos dos corpos celestes. O universo vive numa harmonia periclitante. Por um triz, e zás!, não existimos mais. Zás!, e nem deveríamos existir.

    Quem somos? Partículas ao acaso, dançando no vácuo. Um dia cairemos. Um dia? Não estamos já no vácuo? E estar no vácuo não é já não existir?

    Querer compreender quem sou, que infantilidade! Querer compreender qualquer coisa é infantilidade. Quem somos? E ainda mais, quem somos quando crianças.

    Quem seremos quando adultos. Crianças, somos obrigados a ser, no futuro. O homem é uma eterna criança.

    O futuro a Deus pertence, diz o ditado popular. Pois fiquemos com o ditado popular. O futuro a Deus pertence. Não às crianças. Deixem-nos a nós, crianças, em paz. Mesmo que já sejamos adultos. O homem é uma eterna criança.

    Eu não quero ser mais nada. Eu sou, ainda, uma criança. E eu, criança, já sou. Eu existo, e pronto.

    Lá fora o meu gato continua miando para a lua, a minha mulher suja os pés na
    lama do jardim para buscá-lo, entra com ele nos braços, resmungando. Olha para mim, como se eu fosse o responsável por tudo: o gato, a lama, a noite, as estrelas. É como se me dissesse: O que você conclui disso?

    Não me venham com conclusões. A única conclusão é morrer, disse o poeta.

  • CONFITEOR

    Hoje eu cheguei em casa, mais uma vez, com uma vontade doida de me matar. Somente é possível raciocinar com o fígado. É a história de Prometeu, e vem o abutre e lhe rói o fígado. Por isso o homem é o desgraçado que é. Não é dono do seu destino, nem do seu próprio fígado.

    Existe alguma coisa chamada destino? Predestinação? Deveria haver alguma coisa assim para justificar a minha vida, sempre sem sentido. Dizem que a ocasião faz o ladrão. O homem é produto do meio em que vive? Se eu vivesse no meio de assassinos, ladrões, drogados, teria que ser necessariamente um drogado, ladrão, assassino? É só a questão de estar ali, na hora certa. Ou na hora errada. Pode ser que o grande culpado seja o tempo.

    Existe predestinação? Se Deus é eterno, se para Deus o tempo não existe, não é preciso predestinação. Deus apenas sabe, tudo acontece no presente para Deus.

    Hoje estão descobrindo que o tempo não existe, que é invenção dos homens, convenção. Grande novidade. E a ordem do universo não é mais do que o caos. Nós nunca nos lembramos do caos que vivemos, que sensações, que ideias, que catástrofes, que emaranhado mental viveu a nossa pobre cabeça em determinado período. Tentamos entender o homem, o homem tenta entender a si mesmo. Não há nada a ser entendido. O caos não se entende. O caos do universo ou o caos da cabeça de um homem. Dizer-lhe que tudo que acontece é a vontade de Deus e que tem que corresponder a essa vontade? Na mente de Deus fui predestinado para ser santo: tenho que ser dono do meu destino e fazer-me santo na marra? Que predestinação é essa que depende de mim? Se Deus quer, faça-se. Que Deus é esse que não sabe querer? Mas como Deus pode querer se o tempo não existe? Então queriam que eu fosse mais do que Deus? Cuidado, o anjo virou diabo por causa disso. Mas queriam que eu fosse mais do que Deus, que fizesse com que a vontade de Deus se cumprisse. “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.” Parece que o querer de Deus ou o sonhar do homem dependem muito é da obra. A obra é que nasce, acontece. Tudo é fenômeno.

    Com mais de cinquenta anos de idade, nada sei da minha vida. As coisas aconteceram. O homem na vida inteira não tem capacidade de tomar decisões. Toma-as, se as toma, com um pé no acaso, outro na circunstância. Não adianta saber que o acaso é um deus muito pequeno. O inferno dos outros faz a nossa circunstância? A maior decisão é se vale a pena ou não viver. Que todo mundo vive adiando, por medo, por imbecilidade. Não transmitir a nenhuma criatura a miséria da nossa existência. Se é miséria, por que existirmos? Cioran cansou-se de elogiar o suicídio, única ação nobre a fazer na vida, com a vida, e viveu mais de oitenta anos. Incongruência? Somos todos incongruentes. Viver não faz sentido. Nenhuma decisão na vida faz sentido. Muito menos sobre o próprio viver. Ainda mais que não somos donos de nossas decisões. Decidem por nós. Quem? Deus, o diabo? “O diabo na rua, no meio do redemunho.” Gosto dessa frase. É fácil pôr a culpa de tudo no diabo. Ou em Deus. Estou defendendo uma fenomenologia das decisões. Tudo acontece. Ou deixa de acontecer, o que já é um acontecimento.

    Escrevo a próxima frase ou não escrevo? O que escrevo? Preciso escrever? Cheguei à verdade a que quero chegar? À minha verdade? Mas se é minha, não é verdade. Não importa. Quero a minha verdade. Todo mundo quer a própria verdade. Sou um Bentinho casmurrento raspando o fundo do tacho da amargura? O que quero descobrir? Capitu me traiu, e daí? A vida é danada de gostosa, mas é Capitu: vive a nos trair. Mas, e daí? Que prazer é esse de ficar cozinhando a própria amargura? Masoquismo, deixa Capitu para lá. Tudo é fenômeno, por que sofrer?

    Ser ou não ser, eis a questão. O que eu ganharia com isso? Mas tem que se ganhar alguma coisa, sempre? Só se faz alguma coisa por interesse? Bom. Eu tenho que ter algum objetivo para realizar alguma tarefa. Algum porquê. Só posso me libertar desse fardo carregando-o até o alto da montanha. Sísifo não foi mais infeliz, carregou seu fardo. O abutre roeu o fígado de Prometeu? Ele carregou seu fardo. Quando depositá-lo no chão, quando todas as costuras estiverem cosidas, bem ou mal, estarei livre dele. Não precisarei mais ficar cozinhando as minhas amarguras. O abutre poderá deixar meu fígado em paz. Mas Sísifo teve paz? Prometeu teve paz? Sísifo não morre nunca. Prometeu não morre nunca. A miséria não tem fim. Quem disse isso? É preciso imaginar Sísifo feliz – disse Camus. Não sei como. Chegou um tempo em que não adianta morrer – disse o poeta Drummond.

    O acaso de uma vida. Tudo que vivemos passa a fazer parte de nós. Não somos feitos apenas de circunstâncias. Há um eu carregado de passado, que é um gerador de tensões. Ninguém existe como um indivíduo. Eu é um mundo. Ego, id, superego? Um mundo. O que fizeram de mim. O que eu fiz de mim. Sem chorar o leite derramado. Tenho que cumprir. Sei que posso viver porque sei que posso me despedir da vida a qualquer hora. Não esperem que eu não seja incongruente. Quem está para morrer tem o direito de se contradizer. Imagine Sísifo feliz: sou eu. Imagine Prometeu feliz: sou eu. O abutre e o meu fígado.

  • O Zé Vesgo

    O Zé roubou a Cida, só porque era vesgo o pai não permitia o casamento? Não foi por esse motivo, a Cida estava prometida a um outro – e promessa é dívida. No dia seguinte, ainda no orvalho da madrugada, escurinho, os dois irmãos bateram na porta do Zé, que ele saísse fora de casa, para morrer.

    O Zé saiu de peito aberto, olhou nos olhos dos cunhados e mandou que atirassem. Os dois tremeram na pontaria – diacho de homem que olha para um lado e a gente pensa que está olhando para o outro. O Zé mandou que atirassem mais uma vez, enquanto os olhos tortos entortavam a pontaria de novo.

    Aí o Zé disse: – Cristo mandou dar a outra face, eu dei. Agora é a minha vez – e avançou com o facão contra os dois.

    Os pobres estavam tão desprevenidos que nem tiveram tempo de reagir, morreram sem saber o que estava acontecendo.

    Quando o Zé viu, o sogro caminhava contra ele. O velho tinha os olhos em brasa: – Excomungado! Tem parte com o capeta! Já me tirou a filha e os filhos, já me tirou a vida – e, apontando o revólver contra o próprio peito, disparou.

    O Zé ficou pouco tempo na cadeia; fora legítima defesa, e ele tinha que sustentar a mulher e a sogra, as duas juntas para ajudar a lembrar.

    Por uns quarenta anos, o Zé amargou um remorso dos diabos. Tanto comeu do fruto doente da árvore da memória, que um dia resolveu ganhar coragem e cortar o mal pela raiz: uma dose de cianureto, e estava selada a abdicação.

  • Nono marido

    A coisa mais triste do mundo era a vó Ana me fazer as tranças. Eu ficava com a cabeça cheia de caroços de tanto croque que tomava para ficar quieta. Mas todo mal tem o seu bem: a compensação era ouvir a vó Ana falar dos seus maridos.

    Estavam pendurados na parede da sala, todos com a mesma idade, parecia, uns trinta anos, e todos um a cara do outro: ruivos, com a bochecha meio pipocada, um bigodinho aparado bem fininho, o beiço caído, de choro, e os olhos mais tristes que já se viu.

    São a minha galeria de heróis, dizia a vó Ana, e ia apontando: o vô Joaquim, o vô Afonso, o vô Alfredo, o vô Macico, o vô Juca, o vô Pacheco, o vô Vicente, o vô Inácio.

    O vô Alfredo aguentou seis meses; o vô Afonso, só dois; o vô Joaquim, cinco meses; o vô Juca, nove – ia enumerando, orgulhosa, a vó Ana. O que durou mais foi o vô Macico: dezoito meses! Puxa, vó!, eu dizia. A vó Ana falava de-zoi-to, pausadamente, enchendo a boca.

    Só um que não aguentou nada, contava a vó Ana, com o ar de desprezo que Deus lhe deu. Só um que era um frouxo! Nem deu tempo de tirar um retrato. Ou a vó Ana nem quis saber de retrato. Esse nem nome não tem: é o nono marido.

    Saiu do quarto na primeira noite, ia buscar fogo para o pito, e nunca mais voltou. Esse negou fogo, dizia a vó Ana. No lugar do retrato, um quadro representando uns cachos de uva, murchas, desconsoladas.

  • A vó do menino

    A mãe precisa dormir no emprego, mas não pode deixar o menino sozinho em casa.

    – Sabe – ela diz – a minha casa foi da minha mãe, e antes foi da mãe dela. É da família, de geração em geração.

    Serve-nos uma xícara de café, e continua:

    – O menino sente a presença da vó. Tem medo. Ela era brava.

    – Mas ele conheceu a vó?

    – Ela morreu há vinte anos; ele tem onze.

    – Então, é porque fica sozinho naquele casarão?

    – A vó fica com ele. Ela nunca iria sair da sua casa. E ele sabe que ela está lá.

  • Memórias entre Ruínas

    Ainda há fumaça saindo da cinza. Ainda há um inexplicável cheiro de rosas, entre as ruínas da casa, sob a cinza. Como se o cheiro das rosas saísse de debaixo das cinzas.

    Nenhuma parede em pé, móveis queimados, objetos vagos: ruínas. Ergo um busto de gesso, uma Vênus com a cabeça decepada, ao lado, que sorri ainda o seu sorriso sensual. Olho-a bem: o sorriso se crispa de dor.

    Levanto um martelo do chão. Para que serve um martelo, agora? Quebro o tampo de mármore que restou de uma mesa. Ninguém mais irá escrever nesta mesa. Ninguém irá mais comer. Nem a família se sentará reunida. Lembro-me do papagaio: queria falar mais do que as crianças. Onde estão as crianças? Já são adultos, alguns já morreram. Muito frágil a vida humana.

    Um espelho sob os meus pés, queimado, já não reflete nenhuma imagem. Olho-o com atenção: sou uma sombra. Somos todos sombras do que fôramos. Alguns, nem isso. Cinzas entre as ruínas. E a fumaça se espiralando devagar. Ando de um lugar para o outro: de onde vem essa fumaça? Há algum fogo sob as cinzas? Chego à cozinha, o fogo está no quarto da frente. Chego ao quarto da frente, está na sala. Depois, no quarto dos arreios. No quarto dos meninos. Enfim, só há cinzas.

    Sinto que escorre um filete de lágrimas pelo meu rosto, sujo de fuligem, grosso. Não; não devo chorar. O que morreu, morreu. A casa são ruínas, todos que a habitaram são ruínas, mesmo quem não morreu. A morte chegou de soslaio, cobriu com seu manto amarelo as coisas e os seres. As minhas mãos estão calejadas, duras, de tanto manejar o ancinho da morte. Abri muitas covas, cansei de contar os meus mortos. Que a cinza os cubra, sob as estrelas e o olhar de Deus.

    Bem ao lado do meu quarto, havia uma árvore. Ainda está lá, o quarto é que não existe mais. Tijolos queimados rodeiam a árvore, restos de tijolos, negros, como pedaços de carvão.

    A árvore está queimada, mas resiste: está em pé. O tronco seco, os galhos secos, apontando o alto. Entre os galhos dessa árvore eu imaginava o mundo. Acaricio o tronco frio e duro como pedra. Seria a minha árvore? Seria este o meu quarto? Esta a minha casa? Eu? Serei eu o mesmo que está aqui e o que cresceu entre estas paredes? Escorre zinabre amarelado do que restou das paredes. Escorre zinabre do tempo. Esfarela-se o tempo entre os meus dedos.

    Alheio, farelo estragado, inútil.

    Ana morta no meio da sala. Era como se pairasse no ar. Em êxtase. Percebo: o perfume de rosas vinha da alma de Ana em êxtase no meio da sala. Foi há séculos e ainda sinto o perfume. Falta ver o corpo de Ana e a alma levitando, dançando no ar, não querendo ir embora. E não foi. A casa foi-se embora, ela não: o seu perfume impregna ainda o ar. As coisas que amamos nunca se vão embora. São eternas como o ar que respiramos. As pessoas que amamos são eternas como Deus.

    A casa está tão vazia, desgastada, roída até o caroço, dói, angustia. Quero sentir a presença da casa, do meu pai, minha mãe, meus irmãos, os cachorros. Todos morreram, com a casa. Eu mesmo já morri, com a casa. Onde era a sala, a copa, a varanda que dava para o pomar, vê-se o porão. Medonho. Um poço escuro. Não era à toa que nós, crianças, tínhamos medo do porão. Um território misterioso, um labirinto de galerias, com os seus fantasmas, as suas almas penadas, girando desconsoladas, atordoadas. Nós é que ficávamos atordoados, só de imaginar.

    *

    A casa nem era tão grande. A imaginação, sim. Nem haveria mortos enterrados sob o seu bojo. Nós os criávamos, apavorantes. Brincávamos de medo. Era maravilhoso brincar de medo. Nós que não sabíamos o que era o medo. Depois, muito depois, o universo cairia sobre nós. Sem nos apercebermos do que acontecia, morremos. Morremos aos poucos, profundamente. Mas nunca se morre absolutamente: estou procurando quem fui, quem sou, entre as ruínas da minha casa.

    Há só cinzas e resquícios de fumaça, que engana. Não somos nada. Aninha em êxtase na sala, antigamente, tem mais realidade do que eu.

  • Olho Mágico

    A menininha se aproximou com um objeto na mão. Mostrou para o menininho sentado no banco, num canto isolado.

    – Me dá um pedaço do seu lanche. Eu te mostro o meu olho – disse.

    O menininho ficou olhando com olhos tímidos. Depois passou o pão com mortadela para ela, que lhe passou o olho.

    Era bonito, como um olho de gente. Ele nunca tinha reparado que ela tinha um olho de vidro. Era tão alegrinha. Ele até diria: “Tem uns olhos lindos.”

    Os dois comeram juntos. No intervalo, enquanto mastigavam, erguiam o olho contra o sol. Era azul, da cor do céu, combinava com a carinha alegre da menina.

    – Um dia você me dá o seu olho? – o menino disse.

    – Dou – ela disse, rindo com os dois olhos azuis.

    – De verdade? Eu vou poder levar para mim? – ele disse.

    Ela riu encantada, ele riu encantado. O olho azul outra vez nas mãos sorria como se fosse mágico. O menino pulava de contente:

    – É meu! É meu! Vai ser meu! Vai ser meu!

    Quando a menininha se mudou daquele lugar, não foi embora para sempre; o menininho já tinha ganhado o olho mágico e ficava vendo nele o sorriso da menininha. Nas horas mais tristes da vida, ele tirava o olho do bolsinho da calça, apertava contra o coração e sabia que nem tudo estava perdido:

    – É meu! Ela é minha! Ninguém morre para sempre, ela deixou o olho para mim.

    Beija o olho com carinho, ergue contra o sol e suspira:

    – Amorzinho!

  • Árvore de Natal

    Nunca pude esquecer aquela noite. Era o primeiro Natal depois da morte de Mamãe. Sempre, toda a vida, ela e Papai, de noite, pertinho do Natal, armavam a nossa árvore, com muito carinho, Lininha e eu sentados ao lado. Agora, pela primeira vez, a gente foi cedo pra cama. Eu logo dormi, Lininha me acordou.

    – Vamos! Vamos!

    – Vamos onde?

    – O Papai… Papai foi…

    Entendi. Me levantei, fui com ela. Papai tinha ido armar a Árvore de Natal, a gente não ia deixar ele sozinho. Então, os dois bem juntinhos, a gente foi caminhando pelo corredor. Os chinelinhos de Lininha, teque, teque, faziam barulho no soalho. Falei pra ela, ela tirou eles. Estava tudo escuro, muito escuro mesmo. Então a gente foi andando mais devagar, devagarzinho, encostadinho na parede. Tinha uma vaso de avenca no meio do caminho, Lininha bateu nele, e então a gente resolveu ficar ali.

    Logo, lá no fundo, acendeu a luz. Então a gente resolveu andar outra vez. Apareceu uma sombra, era o Papai. E a gente foi caminhando mais devagarzinho, com cuidado pro Papai não ver a gente. Ele não podia mesmo, estava tudo escuro; mas a gente via bem, que lá na sala, lá tava claro. Tinha um armário no fundo do corredor, a gente chegou ali e ficou bem juntinho dele e da porta. E ali, bem escondidinhos, a gente ficou olhando o Papai.

    Ele pegou a árvore, arrumou bem os galhos, alisou tudo direitinho, pôs em cima da mesa, ficou olhando pra ela. Depois se sentou, baixou a cabeça, olhou de novo a árvore, baixou outra vez, fez que assoou o nariz, passou a mão nos cabelos. Ah, a gente gostava de cariciar aqueles cabelos. Eu tava pensando isso, Lininha me chamou.

    – Olha!

    – Olha o quê?

    – Bobo! – ela falou e eu vi que ela tava brava mesmo. Mas logo ela continuou:

    – Olha! Ele está se levantando agora. Abriu a janela. Você sabe pra onde ele tá olhando?

    – Pro cemitério.

    – Psiu! Fala baixo. Papai percebe.

    – Então era isso! Eu já tava desconfiando que Papai tava chorando. Tava um quadro tão feio o Papai arrumando a árvore, sem a gente perto, sem… sem a Mamãe! Lininha, ela não vai voltar mais mesmo?

    – Viu?! O Papai percebeu. Eu não falei pra falar baixo!

    Então a gente viu o Papai se voltar e olhar pra gente. E então a gente saiu de detrás da porta e foi caminhando pra ele. Ele cruzou os braços, olhou bem pra gente, parecia que estava bravo. Mas logo ele se baixou, abriu os braços, chamou a gente.

    Então a gente foi correndo e logo tava os três abraçados. E a gente chorou. Papai chorou. E eu. E Lininha.

    Depois Papai se levantou, a gente no colo, e foi pra janela. Apontou pro cemitério, lá longe. Os eucaliptos na estrada subindo pro cemitério pareciam fantasmas, meio pretos, meio cinzentos, balançando-se no vento. A gente não tinha medo, tava quase gostoso. Um ventinho macio trazia pra gente um perfume quente de flor e mato molhado. E a gente olhou depois pra mangueira no quintal. Veio um vento forte e derrubou um monte de mangas. E ficou ventando e ficaram caindo mangas. Depois parou, ficou tudo parado. E a gente ficou pensando, a mangueira era a vida, as mangas que caíam era a gente quando morria.

    – Mas Mamãe foi devagarzinho, não foi bruto assim – Lininha falou. Mas nem não acabou bem e a gente viu cair outra manga e não tinha nenhum vento, foi suave, bem devagar. Então eu falei:

    – Mamãe foi assim.

    Depois a gente ficou ainda olhando pro cemitério, com uma dor grande, um peso bem pesado no coração. Pspt, bateu uma coisa na janela, a gente olhou, era uma rosa, bonita de vermelha, que se esfolhou todinha. Depois a gente olhou pra lua, ela tava coberta com muitas nuvens pretas, parecia que tinha um véu de viúva. Parecia que a gente via lágrimas caindo dela. Parecia que ela chorava com a gente a ausência de Mamãe. Não tinha nenhuma estrela no céu. Ligeiro a lua também sumiu. E então começou a chover. E a Lininha falou:

    – Tudo tá chorando com a gente.

    E tava mesmo. E então o Papai desceu a gente no chão, fechou a janela e começou outra vez a arrumar a Árvore. Pegou os enfeites, arrumou bem direitinho nos galhos, pendurou todas as bolas, as lampadazinhas, de toda cor, e voltou a se abraçar com a gente. Então a gente se levantou, bem seguros nos braços de Papai, e apagou a luz. E tudo afundou numa escuridão bem grande, tava tudo preto. E então a gente procurou o botão das luzes da Árvore de Natal, e acendeu tudo. Como tava bonito! E como tava triste ali sem a Mamãe!

    E então depois a gente sentou junto do pé da Árvore, e a gente ficou, os três bem juntinhos, velando a ausência de Mamãe. E tudo chorava com a gente. A chuva. Uma goteira cansada. Aquele passarinho piando, longe lá fora. E a Árvore sobre a gente era como se a Mamãe chegasse ali, ficasse com a gente, e falasse obrigado, gostasse da gente ficar ali.

    E a noite foi longe, e veio o dia, e a gente ficou ali, até dormir de cansado, os três bem quietinhos, bem juntinhos, velando a ausência de Mamãe.

  • O menininho e a menininha

    O menininho e a menininha estavam sentados na beirada da calçada. Ela olhou bem nos olhos dele, examinou-o desde o cabelo até os pés, disse:

    – Você é parecido comigo.

    – Você não é preta – ele disse.

    – Você é clarinho, é quase branco – ela disse.

    – A sua roupa é mais nova do que a minha. É bonita – ele disse.

    Ela sorriu, depois perguntou o nome dele, do pai dele, onde morava, essas coisas. De repente ficou tristinha, disse:

    – O seu pai matou o meu pai.

    O menininho fez cara de quem não entendia. Ela explicou:

    – É porque o meu pai estava namorando a sua mãe.

    O menininho fez cara de choro. Para disfarçar, enfiou o dedo no nariz. Então disse:

    – O meu pai matou a minha mãe.

    Os dois ficaram se olhando, fiozinhos de lágrimas deslizando nas carinhas lambuzadas. Ergueram os dedos para se acariciar, abaixaram logo, com vergonha.

    Finalmente, se levantaram e foram embora. Ainda olharam para trás umas três vezes, depois saíram correndo, cada um para o seu lado.

  • O Ouriço

    Estou grudado no alto da porteira da mangueira das vacas. Lá embaixo o Duque late feito doido. Avança, negaceia, avança de novo – uma bruta valentia. É um ouriço acuado junto ao mourão da porteira. Ele rodopia, se eriça todo – coisinha indefesa, só tentando fugir do ataque. Mas de cada ataque o Duque é que foge, ganindo – um choro longo e fino de doer na gente.

    Estou tremendo inteirinho aqui escanchado na tábua de cima da porteira.

    O Duque não pode morder o ouriço; mas não desiste. Que dó que isso dá! Bicho besta, por que não vai embora? Aí, teimando e se machucando. Também, que mal que fez o coitado do ouriço, esse bichinho inocente. O quê? Inocente? Um monstro que caiu em cima do Duque, todo escalavrado.

    Um tiro de repente. E a voz do meu pai:

    – Menino, desce daí!

    E eu desço, fazer o quê?

    – Por aí não, pelo outro lado.

    – Por quê?

    – Desce logo.

    Eu sei que não tem espinhos no chão. Ele deve estar cismado; eu obedeço.

    – Vai lá dentro buscar um alicate. Corre.

    – Alicate?

    – Tem que ficar perguntando as coisas? Vai, vai duma vez.

    Eu obedeço. O Duque está lá encolhido num canto da cerca. Geme, geme baixinho.

    Meu pai sabe fazer as coisas direito, por que então não trata do Duque, fica pedindo alicate?

    – O que você quer?

    – O alicate, mãe.

    – Por que você quer alicate?

    – O pai que quer, mãe.

    – Põe no lugar depois, hein?

    – Sei.

    – E não revira esse baú.

    Pego o alicate, levo correndo. Na porta da cozinha escorrego, me esparramo no chão.

    – Cuidado! Sempre estabanado. Não precisa correr tanto.

    Levanto, saio mancando. Tinha que ir apressado. É que me lembrei do Duque.

    Meu pai está agachado. Está fazendo um carinho, consolando, passando a mão na barriga do Duque; com a outra mão segura firme no pescoço, agarrando a pele.

    Não fala nada.. Pega o alicate, segura mais forte, põe o joelho prendendo bem o Duque. Pacientemente, devagar, com mão sábia, depois num arrancão tira espinho por espinho.

    O Duque deixa, nem se mexe. Só chora, um chorinho desconsolado, lá do fundo. O focinho pingando sangue.

    Depois, some um tempo. Não muito; na hora da janta esta lá num canto da cozinha.

    Minha mãe põe a sopa de mandioca na mesa. Oba. Comemos com uma senhora satisfação. Mas logo meu pai se irrita, está olhando o Duque:

    – Bicho imprestável!

    – Ele não tem culpa, pai.

    – Por que é que não tem?

    Lá no seu cantinho, aqueles olhos de dor. A gente percebe, uma aflição bem de dentro.

    – E o ouriço, pai?

    – Que é que tem?

    – Que é que o senhor fez com ele?

    – Ara! Nada.

    Terminamos de comer sem vontade, a sopona fumegando numa gosto-sura.

    Não paro de olhar para o Duque:

    – Como que o ouriço faz isso?

    – Ara! Faz.

    – O espinho vai que nem flecha?

    – É.

    – E fura a carne?

    – Vai furando. Se não tira vai indo para dentro.

    – E agora?

    – Agora vamos fazer o quilo. Logo é hora de dormir.

    – E o Duque, pai?

    – Ele sara.

    – Ele não comeu nada.

    – Quando a fome apertar, ele come. Sossegue, isso passa.

    Meu pai acaba de enrolar um cigarro, vamos para a varanda. Ainda olho o Duque; ele abre os olhos, se bate de leve – uma tremura.

  • Fabulazinha

    O velhinho enfiou os pés na água fria, distendeu os dedos doídos, espreguiçando-os, e saiu um pouquinho de dentro de si mesmo. Foi até ali em frente, no meio do lago, onde um pato nadava.

    Era um velhinho muito velho, com uma barba compridíssima – a pontinha bulindo na água – e branquinha, da cor do pato que deslizava mansamente, mal se movendo.

    As grandes árvores copadas coavam a luz finíssima do sol, restiazinhas de bem-querer.

    O velhinho punha os olhos no pato, navegava com ele no manso lago azul – pensava um menino com roupinha de marinheiro, mas o lago era verde, não tinha céu azul refletido nas suas águas, tinha o verde das árvores, a sombra verde e fresca das árvores nas águas friíssimas.

    O velhinho se sorria do lago que era essa sombra verde e fresca. Sem perceber, se encantava – fazia parte do encanto da paisagem.

    O pato que vinha vindo, naturalmente, aproxima-se do velho, mais perto, pertinho.

    Chega, ergue o pescoço, com displicência, e mergulha. Nada de extraordinário, mas o velhinho fechou os olhos, e era como se o pato mergulhasse nos olhos do velhinho, compondo lá dentro o musgo da sombra, a dança dos feixezinhos de luz, a água calma e o próprio velhinho. O encantamento foi tão profundo que o velhinho não mais reabriu os olhos.

    “Que belezura, mamãe, aquela estátua!” – disse o menino com roupinha de marinheiro que precisava ter entrado na fabulazinha. E apontava o velhinho com a sua barba branquíssima e um pato nos joelhos – o velhinho pobríssimo que esquece a dor do mundo com um pato no coração, e sorri para sempre um sorriso beatífico.

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