Contos

Djamila me ensinou a ter fé. Sempre fui avesso ou displicente com a religiosidade. Nem ao menos procurei entendê-la. Meu pai dizia que eu era ateu e que isso era um grande mal para mim, mas me percebi, por muito tempo, agnóstico, porque precisava de prova para acreditar. Muitas vezes me peguei cutucando os meus demônios, para que algo acontecesse. Saudava aos deuses, quando passava em frente à igreja ou a algum lugar de culto, meramente por respeito. Então, Djamila aportou, como um grande navio, na minha vida simplória. No primeiro contato, jamais saberia dimensionar a nossa conexão. Não poderia esperar nada de uma pessoa raquítica e calada. Tive-a, num primeiro momento, como pau-mandado. Ela simplesmente fazia o que lhe dizia, para atender ao meu pai enfermo. Mas, com o tempo, Djamila, com sua doença e sua beleza rara, me fez repensar sobre o sentido da vida. Nunca foi intensa ou ostensiva, me pegou pelo cansaço e pelo amor, notadamente. Ela veio trabalhar como cuidadora do meu pai, quando ele estava com câncer terminal. Era lindo de ver a sua insistência no amor, até o fim. Tornou-se, além de cuidadora, uma amiga de meu pai, que lhe confiava até o cartão de crédito para fazer as compras de casa, ou dos remédios; do que fosse preciso. Para um homem extremamente desconfiado, isso é demais para minha cabecinha entender. Nem mesmo a mim, seu único filho, dava tanta liberdade. Djamila falava de irmã Dulce como uma santa dos pobres e enfermos. Ela não impunha; tratava com palavras doces e humanas. Passei a assumir essa crença, já que papai não tinha perspectiva alguma de melhora. Num primeiro momento, foi como um resgate, me senti abraçado, e chorei aos pés de meu pai. Apeguei-me, à espera de um milagre, conscientemente. (Cabe dizer que sequer cogitava qualquer milagre; achava tudo uma tremenda balela, para enganar os incautos). Depois de um ano de luta intensa, papai faleceu, não exatamente do câncer, mas de complicações associadas. Foi um dia terrível, a sua ida numa ambulância ao hospital, com sepse. Não houve jeito. Mas Djamila, forte e ama, nunca perdeu a fé, me sustentou tantas vezes, me recolocou no sentido da vitória, sempre crente, sempre paciente. Hoje, ela precisa de mim, minha amiga. Doente do coração, não tem forças para se movimentar. Está na fila de transplante e seu caso é grave. Não há vaga, não há espaço no sistema público de saúde. E ela agoniza aos meus pés, momento em que, entendendo a sua dor, faço de tudo para amenizar o sofrimento. Djamila é forte, mas a luta é desigual. Gastei já meus trocados, para o seu conforto. Djamila, minha amiga, ainda há de vencer. Prometi-lhe uma viagem (afinal, adora bater perna por aí) para quando melhorar, e assim ela se sente mais viva. Está por chegar esse dia!

Adriano Espíndola Santos

Adriano Espíndola Santos é autor de “O sussurro cálido da negação”, “Flor no caos”, “Contículos de dores refratárias”, “o ano em que tudo começou”, “Em mim, a clausura e o motim”, “Não há de quê”, “Amparo secreto”, “Viver morrendo” e “Arraia-ralé”. Advogado. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. instagram.com/adrianobespindolasantos/ e escreve no Crônicas Cariocas às sextas-feiras.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar