Contos

O expresso Oriente

Dizem que japonês bebe muito, mas eu não imaginava que fosse tanto. Dizem que bebe, fuma e se suicida muito.

O fumo não é problema; fuma quem quer, e japonês fuma uns cigarros pequenininhos, intragáveis, uns estoura-peitos de matar, que eu já provei, no tempo em que chafurdava nesse vício.

O suicídio é um grande problema, mas podemos suavizar, dourar a pílula, dizendo que quem se suicida enjoou de viver, e, portanto, um enjoado a menos.

Agora, a bebida é um problema enorme, que só vem crescendo com o passar do tempo e dos trens. Exatamente isso, é um problema tão grande porque pode até descarrilhar trens.

Por isso não é de se lamentar o feito de Shoichi Kanai, que, se exagerou na bebida, se bebeu além de qualquer limite, pelo menos não descarrilhou nenhum trem.

A bebida desestrutura a família, provoca acidentes de trânsito, é grande colaboradora do desemprego, da violência, prejudica a saúde física e mental, etc., mas o máximo é descarrilhar um trem, e foi o que Shoichi Kanai não fez.

Tem 73 anos de idade; não é nenhuma criança, portanto; sabia o que fazia, ou tinha tudo para saber, menos a consciência, que a bebida levou.

Dizem que tomou uma tremenda bebedeira; ele, porém, já não diz que bebeu tanto; aproxima o indicador do polegar, como que indicando que foi só um traguinho, talvez mais um pouco, mas não além de uma dose.

Diz que teve sono, muito sono, muitíssimo sono; e deitou-se entre os trilhos do trem; e dormiu. Não dormiu um sono normal, como o do comum dos mortais. Dormiu um sono pesado, muitíssimo pesado. Daqueles de que não se acorda nem que um trem passe por cima.

E foi o que aconteceu: um trem passou por cima. O condutor ainda acionou o freio de emergência, mas não adiantou: o trem passou por cima de Shoichi Kanai.

São 27 centímetros da linha até o trem; ainda bem que Shoichi Kanai era muito magrinho; ainda bem que não era nenhum bebedor de cerveja, não tinha nenhuma barriguinha.

O trem passou voando por cima, e Shoichi Kanai nem acordou.

Foi em Tobata, no sul do Japão, e as cerejeiras estavam floridas. Se não estavam, deveriam estar, em homenagem a Shoichi Kanai, que bem merecia.

Devemos praticar os nossos vícios com parcimônia, para não prejudicar ninguém, nem descarrilhar nenhum trem.

O expresso de Tobata, no Sul do Japão, passou voando por cima de Shoichi Kanai, que nem acordou.

Sofreu apenas pequenos cortes na mão e na coxa, mas ninguém pode assegurar que foram causados pelo trem. E algum dano que o trem possa ter sofrido, ninguém poderá assegurar que foi causado por Shoichi Kanai.

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José Carlos Mendes Brandão

José Carlos Brandão nasceu em Dois Córregos, SP, em 28 de janeiro de 1947. Mora em Bauru. Em 2025 publicou “Matéria e memória”, que reúne sua poesia de 1975 a 2025, 9 livros publicados, mais 3 inéditos. Publicou também 2 livros de crônicas. Escreveu um romance, que permanece inédito, apesar de ter ganhado o Prêmio Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte, em 2000. Tem uma dezena de contos premiados em concursos e publicados em antologias. Escreveu ainda microcontos.

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