Contos

A vaca atropelada

O carro do professor foi guinchado até ao Plantão Policial de Franca para registrar um boletim de ocorrência de acidente na estrada. Sobre o porta-malas, com as patas para cima, uma vaca morta. O que é isso, professor? Uma vaca em cima do carro? E com as pernas para cima? Que desconfortável!

Mas está rindo do quê? Ah, já passou o susto! E que susto, hein?! Ele voltava de Franca para São Joaquim da Barra, quando viu três vacas no meio da estrada. Desviou da primeira, driblou a segunda, mas não conseguiu se safar da terceira. Pegou em cheio a coitada. Nem viu onde foi parar, nem imaginou onde poderia ter ido parar a desgraçada da vaca: em cima do porta-malas do carro.

Ainda estava viva. Parece que sorria, a imprudente. Achando graça do quê? Já disposto a descarregar toda a sua raiva sobre a danada, viu-a exalar o último suspiro, um suspiro gostoso, bem prolongado. O que fazer agora? Chamou o guincho, e toca para a Delegacia. Verdade que estava ferido só na mão esquerda, mas alguém tinha que pagar pelo carro amassado – e quase me mata, corri perigo de vida!, diz. Fez lavrar o boletim de ocorrência, a Polícia vai ter que se virar e descobrir o dono da vaca.

Já pensaram? O cara chegar na Delegacia com uma vaca em cima do carro! Isso é que é matar a cobra e mostrar o pau! Mostrou a vaca, o que é bem mais difícil. Não tinha outra alternativa? Poderia levar a vaca para casa, daria um bom churrasco. Chamaria os amigos, e os amigos dos amigos, e os cachorros da vizinhança, os gatos, os mendigos, quem quisesse saborear um delicioso churrasco – teria carne para todos. Sem miséria! Sirvam-se à vontade, meus amigos e meus inimigos. Desse momento em diante, não teria mais nenhum inimigo. Um bom naco de carne compra qualquer amizade.

Mas o dono não iria reclamar? Se reclamasse, teria antes que pagar o prejuízo. Depois, seria comprado com um belo churrasco. Já disse um sábio (o guru do Meyer, Millôr Fernandes) que todos somos venais, é só questão de combinar o preço. E a um churrasco quem poderia resistir? Seria um preço muito bem pago. O problema foi o transporte: o carro avariado, mais que arrebentado – como transportaria a vaca? Se nem saía do lugar! Pois não teve que chamar o guincho? O quê?! O guincho não poderia levar o carro e a vaca para casa? Tinha que levar para a Delegacia?

Lembro-me de um conto de Rubem Fonseca. Uma vaca foi atropelada por um trem, ficou lá estirada na linha. O que fez a população? Comeu a bicha. Um prato suculento, os favelados em volta morrendo de fome, não deixaram por menos: retalharam posta por posta de carne, distribuída equitativamente – ou mais para quem pudesse mais. Quem parte, reparte e não fica com a melhor parte ou é burro ou não entende da arte. Gozado que Rubem Fonseca era um escritor sério, que sabe o que faz, não iria fazer um plágio – justo com uma vaca! Sem querer, uma bruta coincidência, mas acontece que Stanislaw Ponte Preta já tinha contado a mesma história. Cruzes! A vaca foi retalhada duas vezes.

E se fosse uma vaca na Índia? Ou por aqui mesmo, que temos muitos herdeiros do xintoísmo hindu. A vaca é sagrada. É mais do que sagrada. Poderia ser a encarnação da mãe do dono, ou da avó, da bisavó. De alguém da família. De um recém-nascido, que não teve forças para suportar este mundo imundo, foi-se – mas retornou na pele, ou no couro, de uma vaca. Não faça mal à vaca – isto daria um poema, poderia ser um refrão, um mantra, uma jaculatória. Não faça mal à vaca!

Fez muito mal o professor em levar a vaca à Delegacia. Fez mais mal em não comer a vaca, tão apetitosa. Fez mais mal ainda em não ver o que de sagrado, de poético, de encantatório não havia por trás, por dentro da vaca. Não foi à toa que Jorge de Lima compôs um de seus melhores poemas dedicado à vaca: “A garupa da vaca era palustre e bela”. Por que teria o poeta chamado a garupa da vaca – e não anca, muito menos bunda – de palustre? Os poetas têm iluminações que ninguém entende – por isso são iluminações, por isso são, eles, poetas.

Ah, o professor não poderia ter levado a vaca à Delegacia – que crime cometeu ela? Nem poderia ter comido a vaca – comem-se vacas anônimas, mas essa já ficou fazendo parte da minha mitologia particular. Muito menos poderia ter matado a vaca – que essa vaca, se não é santa, se não é fada, se não é nenhuma mulher amada, ah, essa vaca entrou no meu sonho e os sonhos não podem ser mortos. Professor, ou pelo menos você, meu improvável leitor, faça uma prece pensando na minha vaca – eu dormirei mais tranquilo sabendo que ela foi pelo menos motivo de uma prece, que é a forma mais poética de sonhar. Amém.

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José Carlos Mendes Brandão

José Carlos Brandão nasceu em Dois Córregos, SP, em 28 de janeiro de 1947. Mora em Bauru. Em 2025 publicou “Matéria e memória”, que reúne sua poesia de 1975 a 2025, 9 livros publicados, mais 3 inéditos. Publicou também 2 livros de crônicas. Escreveu um romance, que permanece inédito, apesar de ter ganhado o Prêmio Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte, em 2000. Tem uma dezena de contos premiados em concursos e publicados em antologias. Escreveu ainda microcontos.

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