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Xeque-Mata

Eduarda e Rafaela. No centro, um tabuleiro de xadrez. Eduarda com as pretas e Rafaela com as brancas. Eduarda gosta de ficar segurando o queixo enquanto pensa, e Rafaela adora um uísque durante o jogo.

— Peão quatro do rei.

Rafaela morre de inveja do corpo de Eduarda: pernas perfeitas, pele branca de quase nunca ir à praia, seios que cabiam na mão, pontudos, empinados. Eduarda não se acha tão bonita e despreza a objetificação.

— Cavalo três do bispo do rei.

Rafaela começa a descobrir que Eduarda responde de imediato ao jogo. Certamente para se exibir. Pudera, sem ir à praia, devia ficar em casa estudando, lendo os manuais de xadrez, estudando aberturas clássicas, confronto dos mestres… Eduarda acha que Rafaela poderia jogar bem melhor, se não bebesse tanto durante a partida.

— Bispo seis da torre da dama.

Eduarda tem um pescoço liso, com destaque para uma veia fina e a impressão de que nascera para alvo de vampiros. Para Rafaela, Eduarda faz gênero. Jogar xadrez é como dama, sudoku ou gamão. É só um jogo. Serve mais uma dose de uísque com gelo e saboreia. Já Eduarda, mais elitista e menos etílica, classifica o xadrez como um desafio de estratégia e tática. Necessariamente sóbria.

— Peão cinco da dama.

Rafaela opta por tomar a iniciativa. Não tem nada a perder arriscando. Eduarda se defende e prepara um contra-ataque. Rafaela sente-se provocada e agora se concentra nas artimanhas do jogo. Eduarda sorri, demonstrando uma calma irritante. Meio arrogante.

— Torre dois da torre.

Nesse momento, Rafaela planeja um ataque com a dama. Eduarda pressente. É melhor pensar numa defesa segura.

— Dama sete do bispo do rei.

Gradualmente, Eduarda avança. Visa o xeque mortal, com paciência.

— Cavalo come bispo.

Rafaela pega mais umas pedras de gelo e completa seu uísque. Acha um caminho. Como não havia pensado nisso. Suas chances
aumentam, ela calcula, e recomeça a gostar do jogo. Eduarda hesita e demora a responder.

— Dama come peão do cavalo.

O jogo parece caminhar para o empate. Qualquer movimento arriscado pode significar a derrota. Eduarda não tira a mão do queixo e olha fixamente para as peças. No fundo, considera uma humilhação perder para Rafaela. Inveja o jeito da oponente encarar a vida, uma forma sedutoramente irresponsável. Queria ser assim, levar as coisas menos a sério.

— Roque pequeno.

Eduarda posiciona o bispo e o cavalo do rei atuantes no centro, mantendo o semblante provocador e a segurança de quem tem agora o controle da situação. Rafaela confia na sua intuição e se esforça em encontrar saídas diante do ataque fulminante (ou galopante) do cavalo que…

— Cavalo seis do bispo… e xeque.

Rafaela ainda vislumbra uma saída. Meio suicida. A melhor defesa é atacar. O jogo fica tenso. As investidas vão se sucedendo e Eduarda consegue neutralizar as mais importantes. Após uma troca forçada de peças, nenhuma grande vantagem para ambos os lados.

— Peão come pão.

Rafaela propõe empate. Eduarda recusa. Rafaela ri, amarelo…

— Peão come cavalo.

Eduarda, enquanto aguarda a vez de jogar, desabotoa a blusa e começa a passar a mão pelos seios, alegando calor. Rafaela reclama que ela está tirando a sua concentração. Eduarda sorri.

— Torre quatro do cavalo.

Eduarda responde com um avanço de peões. Enquanto aguarda a resposta de Rafaela, olha para ela: é uma morena bonita, de lábios, carnudos, corpo de atleta e os olhos pretos que pedem por carinho. Pena ser doidivanas.

— Bispo defende a torre.

Rafaela não consegue tirar os olhos dos seios de Eduarda. Ameaça parar de jogar. Aquilo não está nas regras e nem tem cabimento. Eduarda não dá bola. Rafaela tenta se concentrar.

— Dama cinco do rei.

Rafaela cada vez mais encurralada, com seu rei sem muitas opções para escapar, reúne as últimas forças para tentar uma saída.

— Peão sete da dama.

Eduarda sabe que o xeque-mate é iminente. Vai coroar seu peão da torre. Sugere que a adversária admita e abaixe o rei branco. De repente, Rafaela dá um pontapé no tabuleiro, derruba as peças, pula em cima de Eduarda, a agarra e beija com raiva. Eduarda, depois de esboçar uma pálida reação, acaba cedendo e retribui o beijo. As duas, deitadas sobre as peças e o uísque com gelo entornado, se enroscam agora. O jogo havia terminado. Começavam se apaixonar e nem se davam conta.

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Crônicas Cariocas

O portal Crônicas Cariocas nasce do sonho do jornalista Francci Lunguinho de ajudar novos autores a divulgar seus textos, principalmente sem os empecilhos que os grandes portais impõem.

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