Contos

Benedita em Buenos Aires

Ela era toda estranha. Branca, rubicunda, judia, tinha nascido na Argentina e se chamava Benedita. Logo ao nascer seus pais desconfiaram: a recém-nascida não chorou, esboçou um leve sorriso.

A bebê Benedita adorava o escuro. Qualquer facho de luz ou um abajur aceso era o bastante para ela não dormir. Sua mãe jurava que a filha dormia com um dos olhos abertos. Ora o direito, ora o esquerdo. Revezando.

Benedita colecionava baratas, joaninhas e pequenos besouros numa caixa e morria de medo de bichos de pelúcia. Todos na família achavam esquisito a preferência da menina por verduras. Benedita não podia ver uma alface.

Nunca foi de frequentar a sinagoga, preferia consultar o I Ching à Torá e dizia falar com espíritos, a quem chamava de amigos transparentes.

Detestava televisão e era fã de filmes do cinema mudo. Quando podia, ia ao teatro, notadamente monólogos. Dizia ter a habilidade de penetrar na mente dos atores e mudar suas falas. Nada ficou provado.

Estudou coreano e lia no original livros de Han Kang e Kim Un-su. Odiava futebol, mas tinha o costume de ir aos estádios para poder cantar com as torcidas. Seu time preferido era o Arsenal de Sarandi. Ninguém nunca soube o porquê.

Tangos e milongas não lhe diziam nada, exceto “Adiós Nonino” de Piazzolla, que ela dizia lembrar o avô, falecido algumas horas depois de ela nascer.

Benedita tinha simpatia pelas canções afro-americanas e ouvia Billie Holiday nem tanto pela voz e mais pela trajetória de vida da cantora. Seu beatle preferido era Ringo. Tinha também uma queda inexplicável por Pino Donaggio. Nas artes plásticas, se identificava mais com o barroco e tinha as paredes do quarto decoradas com pôsteres e reproduções de Diego Velázquez. Algumas vezes usava um laço azul na cabeça e brincos iguais aos da “Menina do Brinco de Pérola”, quadro de Johannes Vermeer. Benedita era mesmo parecida com ela.

No verão usava meia-calça térmica e dispensava roupas de baixo. Adorava vento e andar de patinete. Pintava o cabelo louro de vermelho-sangue nas pontas, detestava sapatos e vivia de sandálias de dedo japonesas. Durante o inverno, pouco saía de casa, passando o tempo em frente à lareira, hipnotizada pelo fogo.

Benedita não comia qualquer produto de origem animal e arrumava confusão com quem portasse roupas de couro.

No amor, foi um desastre. Casou-se com um cidadão russo migrado para a Argentina desde o início da guerra na Ucrânia.  Falando línguas diferentes, pouco se comunicavam. Não tiveram filhos. O casamento durou pouco, ela ficou viúva quando ele se engasgou com um pedaço de moela de galinha e morreu asfixiado. Ainda pôde ouvir, em russo, as últimas palavras dele, possivelmente “socorro”.

Benedita terminou seus dias num lar para idosos. No dia em que morreu, choveu granizo em Buenos Aires.

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Márcio Paschoal

Marcio Paschoal nasceu no Rio de Janeiro, onde também se formou em Economia. Escritor e redator de longa estrada, construiu uma obra diversa, com mais de dez livros publicados entre romances, crônicas, ensaios e literatura infantil. Trabalhou na Fundação Getúlio Vargas, no Cederj (Centro de Ensino Universitário a Distância), e colaborou com o Jornal do Brasil, escrevendo sobre música e literatura. Entre seus romances estão Sofá branco — menção honrosa no Prêmio Graciliano Ramos e pré-selecionado para o Prêmio Nestlé de Literatura —, além de Odara e Os atalhos de Samanta. No campo do humor, publicou Cada louco com sua mania, ilustrado por Jaguar, e o Horóscopo sexual para praticantes. Também é autor de A morte tem final feliz e do livro de crônicas A maconha está bêbada. Na literatura infantil, escreveu O livro maluco e a caneta sem tinta. É ainda autor das biografias do compositor maranhense João do Vale, da atriz e travesti Rogéria e do romance biográfico João Antônio e os Bee Gees.

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