Contos

Um corpo que cai

A Cida foi encontrada boiando no rio Pardo, a cabeça cortada, mal grudada no corpo.

Tinha exigido do namorado Zé que largasse a mulher e fosse morar com ela. O danado só mandava esperar, mas ela estava cansada de ser enrolada. Ou deixasse a mulher duma vez, e os dois filhos, ou não ia mais querer saber dele. Pior, e tinha mostrado os braços fortes, de melhor cortadeira de cana da cidade.

O Zé não era de ter medo, mas estava com o facão de cortar cana na mão, e perdeu a cabeça. Que ele se cuidasse, a Maria se cuidasse, as crianças? A Cida exagerou. Não precisava ameaçar. Ele gostava da Cida, mas ela exagerou. E o que as coitadas das crianças tinham com isso? A Cida deu burrada, e perdeu a cabeça.

O Zé segurava a cabeça pelos cabelos:

– Conheceu, papuda!

Mas logo se arrependeu: – Eu não queria.

Como não tinha mais jeito, botou em cima da mula e tocou para o rio. Foi deixando um rastro de sangue, da casa da Cida até o rio.

Era ao pôr do sol, o céu azul pintado de vermelho como se estivesse em chamas. Como uma coivara, os tocos chamuscados ainda
queimando. Até as águas no rio estavam se queimando.

O Zé admirava, implicado com o sangue pingando nas calças e na camisa:

– Esse trambolho!

O Manuel da Venda e o João Venâncio estavam pescando. Nem viram o corpo ali perto deles.

– A gente estava entretido, Doutor.

O corpo enroscado nuns galhos, a água fazendo gluglu no buraco da garganta. Foi jogado de um barranco a dois passos dali, um baque na água.

– A gente não ouviu barulho nenhum. Não é, Venâncio?

– Dava para ver o vestido vermelho, boiando na água – disse o Venâncio, – mas nós não vimos nada.

– Não era vermelho nada – disse o Manuel, – era sujeira de terra, de lama.

– Por isso que não dava peixe, Manuel.

– Que nada, aqui nunca deu peixe, Venâncio.

– Por que é que a gente pesca, então?

– Porque a gente é burro.

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José Carlos Mendes Brandão

José Carlos Brandão nasceu em Dois Córregos, SP, em 28 de janeiro de 1947. Mora em Bauru. Em 2025 publicou “Matéria e memória”, que reúne sua poesia de 1975 a 2025, 9 livros publicados, mais 3 inéditos. Publicou também 2 livros de crônicas. Escreveu um romance, que permanece inédito, apesar de ter ganhado o Prêmio Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte, em 2000. Tem uma dezena de contos premiados em concursos e publicados em antologias. Escreveu ainda microcontos.

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