Contos

Sunshine

Fui surpreendido com a doença do Sunshine. Ele sempre foi tão esperto; um gato para além dos limites. Agitado, inquieto. Veja, já passou três dias fora de casa e apareceu como se não tivesse acontecido nada, magro, arranhado de briga etc. Fez aventuras de todos os tipos, como subir na minha antiga casa e pular de telhado em telhado até desaparecer no horizonte. Sunshine nunca foi um gato “normal”. Desde o primeiro dia que o vi, no grupo da cria da casa da minha cunhada, percebi que era diferente. Ele veio direto ao meu encontro, para brincar de subir pela minha camisa com suas pequenas unhas afiadas, até se aconchegar quietinho na minha cabeça. Depois, quando o levei para casa, para ser um guia a cuidar da minha depressão, ele me fazia esquecer a doença; pulava de armário em armário; subia ágil o projeto de guarda-roupa; tomava água corrente, apenas na pia. Vários costumes permaneceram. A excentricidade, por muito tempo, foi sua característica. Isso não quer dizer que não era carinhoso. Apesar de ser intrinsecamente individualista, gostava de deitar-se na cama e passar horas esparramado esperando carinho na barriga. Mas, infelizmente, ele ficou doente. Muito acabrunhado, ficava pelos cantos, diferente dos nossos outros gatos. Tenho um sentimento de culpa muito grande, porque não percebi que o problema poderia se agravar. Poucos dias se passaram, e Sunshine não conseguia urinar. Fazia mil posições, tentava urinar em locais mais confortáveis, mas o líquido não vinha. Levamos imediatamente a uma clínica veterinária. Na primeira consulta, a médica-veterinária parece ter passado um remédio paliativo, para dor, principalmente. Ele melhorou a disposição, já pulava pelos cantos. Mas um mês depois veio a queda de novo. Dessa vez, mais grave, expelindo sangue. Levamos imediatamente a outra clínica, da qual temos confiança, e a médica-veterinária foi mais prudente e o internou. Foram dias de aflição. Ele estava com cristais na bexiga (sabe-se lá o que é isso), um problema ligado à alimentação e à falta de consumo de água. Foram feitas lavagens com soro para tirar os tais cristais obstrutores. Até que, no terceiro dia de internação, segundo a médica-veterinária, ele teve uma parada cardiorrespiratória e não suportou os agravamentos. É importante falar do componente da idade, ele já tinha dez anos. É uma tortura a culpa, não queira saber. Poderia ter feito mais – e urgentemente. Poderia ter amado a ponto de não aceitar o seu abatimento. Sunshine, sim, foi um anjo, me curou milhares de vezes. Eu o amo como nunca. Ele era o meu melhor parceiro de escritas (sou escritor, e ele ficava ao meu lado velando o meu labor). A médica-veterinária disse que foi uma fatalidade inimaginada. Geralmente corre tudo bem. Ele não suportou uma sepse. Na verdade, não era deste mundo cão. Mas teve uma existência digna – e nisso que me fio para não cair em desgraça.

Adriano Espíndola Santos

Adriano Espíndola Santos é autor de “O sussurro cálido da negação”, “Flor no caos”, “Contículos de dores refratárias”, “o ano em que tudo começou”, “Em mim, a clausura e o motim”, “Não há de quê”, “Amparo secreto”, “Viver morrendo” e “Arraia-ralé”. Advogado. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. instagram.com/adrianobespindolasantos/ e escreve no Crônicas Cariocas às sextas-feiras.

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