
Tudo o que cabe num instante
Celina abre os olhos e vê que está na cozinha. A louça é de porcelana e as panelas são todas novas. Em cima do fogão há um frango assado na travessa, pronto para ser servido. Demora alguns segundos para perceber que esta é a sua outra casa. Feliz, prepara-se para receber o marido, que volta do trabalho, e os filhos, da escola. Os meninos, quando chegam, dão-lhe beijos no rosto. Atrás deles, o marido a abraça e a levanta no ar como se não se vissem há meses. “Eu te amo”, diz ele, mordiscando sua orelha. Todos se sentam à mesa, e os pequenos contam como foi o dia na escola.
Em silêncio, Celina aproveita a paz do momento. O marido pega sua mão e diz que, na próxima semana, pedirá férias na empresa e a família toda poderá passar uns dias no litoral. E que depois disso ela poderá pensar em seus estudos de pós-graduação, um sonho há muito acalentado. Celina estava prestes a responder quando um murmúrio chegou aos seus ouvidos: “Acorda!”, ouviu uma voz vinda de longe. “Acorda, sua vadia!”, a voz foi ficando mais nítida. “Acorda, sua merda!”, e ela não conseguiu mais ouvir as crianças nem o marido. Sentiu tontura, levantou-se da cadeira e, antes que alguém pudesse segurá-la, caiu. Ao abrir os olhos, percebeu que estava no chão. Sua cabeça doía e sentiu um gosto metálico e quente na boca. “Levanta já, sua fingida!”, disse a mesma voz. “Eu não te bati tão forte, não seja dissimulada. Anda, levanta e me traz outra cerveja.” Celina se levantou, limpou o sangue com as costas da mão e andou até a geladeira, implorando aos céus pelo próximo golpe que lhe trará alívio e a levará de volta à outra família.























