Conto de Quinta

  • OS CADERNOS

    “Sempre diremos tudo um ao outro, inclusive o que não for bom. Mesmo o que for desagradável deverá ser dito. Porque calar é perigoso. Não nos separe o silêncio, nunca.”

    Assim foi o pacto que fizeram Carlos e Isabel, tão logo se descobriram apaixonados e dispostos a viver juntos vida afora. “Tem a minha palavra”, disse Carlos. “Tem a minha palavra”, respondeu Isabel. Casaram-se poucos dias depois. Ao cabo de dez anos, com a paixão um tanto esgarçada e frouxa, ainda mantinham o acordo dos primeiros anos.

    Carlos:

    — Sabe, querida, o que seria bom? Que você aprendesse a cozinhar direito de uma vez por todas. As pessoas costumam seguir algum livro de receitas para preparar comida decente, caso não tenham aprendido com a mãe. É fácil, basta saber ler. Outra coisa: seria muito bom também que você perdesse uns quilos. Sua saúde e sua autoestima agradeceriam. Depilar as pernas com mais frequência também é uma ótima ideia. O que você acha?

    Isabel:

    — Eu acho que não vou fazer nada disso, querido. Se fosse para mudar alguma coisa, melhor seria que você tomasse a iniciativa. Sua voz é irritante, parece um pato engasgado. Quando você ri, tenho vontade de enfiar uma faca em sua boca. Falta-lhe inteligência. Essa sua barriga peluda me causa náuseas. Não fosse a minha estranha fixação pelo casamento, já o teria abandonado há muito tempo. Estou bem assim, com esses quilos a mais.

    Os dois logo compreenderam que seu relacionamento estava naufragando e buscaram ajuda. Uma amiga recomendou um terapeuta especialista em casais em crise. Foram vê-lo.

    Terapeuta:

    — A relação de vocês está indo mal pelo excesso de sinceridade. Eu sugiro um remédio simples: o silêncio. Parem de dizer tudo o que pensam um do outro. Acostumem-se a falar pouco e a trocar somente frases cordiais. Habituem-se a escrever o que realmente desejariam falar. Façam isso em segredo, nenhum dos dois precisa saber o que o outro escreveu. Aqui estão dois cadernos, em que anotarão as coisas ruins que deixarão de falar. Desejo sorte ao casal. Sejam felizes.

    Carlos e Isabel saíram do consultório carregando cada um o seu caderno. Durante meses seguiram rigorosamente a orientação do terapeuta. A comunicação entre os dois tornou-se mais afável, embora curta. Os diálogos se reduziram à troca de algumas frases na frente da televisão. No restante do tempo, dedicavam-se a registrar no caderno o que não diziam um ao outro. Quando um volume ficava cheio de anotações, compravam outro. Os cadernos foram se multiplicando com assustadora rapidez e logo a casa começou a ficar cheia deles. Estavam empilhados em todos os cômodos, até no banheiro e embaixo da escada. Cadernos, muitos, uma imensidão deles. Tantos, que Carlos e Isabel tiveram que abandonar a casa e procurar outra moradia. Os cadernos, cheios de frases não ditas, não deixaram espaço para os antigos moradores.

  • A vida em compasso de espera

    Minha avó Penélope perdeu o marido na guerra. Isso é o que ela costumava dizer, embora algumas vizinhas, maledicentes que só, digam que ele saiu por aí a viajar pelo mundo sem pensar em voltar para casa. Não se falava muito sobre isso na família. A verdade é que quase não conversávamos sobre nada. Nos contentávamos em ouvir. Um homem deixou casa e família e não deu mais notícias: para nós, essa informação era suficiente, bastava. Quem perde maridos ou pais geralmente não tem força para se manifestar ou buscar explicações. O tempo se encarrega de explicar.

    Viúva jovem, minha avó trabalhou como costureira para sustentar os filhos. A vida, para ela, passou a ser costurar e costurar. Uma vez tentou se distrair e cantou na festa da padroeira, mas desafinou. Recebeu muitas vaias, fez um escândalo, ficou furiosa, mas depois esqueceu. Não desafinava na costura, e isso a satisfazia.

    Nunca falou com tristeza do passado, nem reclamou de alguma dor de sentimento. Para dor física, tomava uma aspirina e tudo ficava bem. Quando sua visão começou a falhar, continuou costurando guiada pelo instinto. Com décadas sentada na frente daquela máquina, podia costurar até se tivesse ficado cega. Um ponto no direito, dois no avesso, sabia exatamente para onde dirigir a agulha e comandar o pedal. Fazia roupas sem moldes, dizia que não precisava porque conhecia de cor e salteado a medida das mulheres que apareciam em casa querendo um vestido novo, ou uma blusa, ou uma saia.

    Sempre me lembro dela costurando, mas não me recordo de nenhuma camisa ou vestido que tivesse sido fruto de suas horas de costura, como se ela simplesmente costurasse e a peça sumisse. Não tinha outro objetivo senão fazer uma roupa atrás da outra. Era um prazer infrutífero, não se importava com o resultado, apenas apreciava o processo. Talvez, todas as noites, enquanto dormíamos, ela se levantasse para desfazer o que havia costurado e voltasse para a cama sabendo que, com o amanhecer, poderia recomeçar do zero e assim adiar por mais um dia o fim inevitável, que nem sempre justifica os meios, mas justifica muitos medos.

    Minha avó Penélope sempre foi fiel ao marido, principalmente depois de perdê-lo. Permaneceu intocada após o sumiço dele e provavelmente nunca conheceu outro homem em sua vida. Talvez esperasse que o marido de repente voltasse um dia, sem avisar, vestido com trapos como se fosse um mendigo, e ela, mantendo sua dignidade celibatária, pudesse repreendê-lo: “Isso são horas de voltar para casa?” Ele certamente responderia: “Querida, você não vai acreditar no que me aconteceu. Estava voltando direto da guerra quando, de repente, fui capturado por um pirata monstruoso que tinha um olho só, um braço só, um pé só e um pensamento fixo: acabar com a minha raça. Consegui escapar e fui parar no quinto círculo do inferno, onde encontrei antigos companheiros de armas brigando entre si, e então todos nós fomos atraídos por cantos de várias sereias e depois apareceram umas bruxas que me enfeitiçaram e me obrigaram a deitar com elas. Mas essa é outra história, eu conto outro dia. Agora vamos dormir, que estou um bagaço de tão cansado.”

    Meu avô nunca voltou de sua odisseia, e minha avó continuou sua lida diária de tecer e desfazer sua vida até que não lhe restasse mais nenhum fio. Anos após sua morte, ficamos muito espantados quando aquele mendigo apareceu em nossa casa perguntando por ela. O homem fez segredo do próprio nome, não quis dizer como se chamava porque, segundo ele mesmo, seu nome era tudo o que lhe restava. Ofereceu suas condolências pela partida de minha avó, doeu-se pela nossa dor e se despediu. Foi assunto de toda a família saber que a vó Penélope, na idade dela, tinha pretendentes. Nunca mais tivemos notícias dele nem mencionamos esse acontecimento depois. Como sempre, ficamos quietos e esquecemos.

  • DEIXA ESTAR

    — Por que você apareceu aqui no meu sonho, se o que eu quero agora é sonhar com minha mãe? — perguntei, achando graça na presença dele no meu sonho.

    — É impossível escolher com o que sonhar — respondeu Paul, sentando-se na beirada da cama.

    — Bom, imagino que seja porque ontem eu passei o dia lendo um livro que conta a história de sua mãe e daquela música. Então este sonho de agora é um reflexo do que vivi durante o dia. De acordo?

    Paul fez um movimento com a boca que não consegui decifrar. Olhei para seus olhos amendoados e tristes. Alonguei a conversa: “Você se lembra dela com frequência?” Ele fixou os olhos num ponto qualquer do quarto e contou:

    — Antes de ser internada no Hospital Municipal, em Liverpool, quando ela própria já sabia que nada mais poderia ser feito para salvá-la da doença, deixou as roupas passadas e arrumadas no armário e abasteceu a geladeira com frutas e legumes. Meu irmão menor e eu estávamos no acampamento de verão e só ficamos sabendo de tudo na volta. Papai nos deu a notícia.

    — Não houve despedida? — perguntei.

    Paul caminhou devagar até o piano no outro lado do quarto. “Não, não houve despedida”, ele suspirou. Ajustou a altura do banquinho, sentou-se e ergueu a tampa do instrumento. Começou a cantar. Seu rosto tinha agora uma expressão suavizada. Tentei falar que eu queria mesmo era continuar sonhando com minha mãe, mas, em vez disso, cantei. Cantei junto com Paul.

    When I find myself in times of trouble,
    Mother Mary comes to me
    Speaking words of wisdom, let it be
    And in my hour of darkness she is standing right in front of me
    Speaking words of wisdom, let it be
    Let it be, let it be, let it be, let it be

    — O que significa wisdom, Paul?

    — Sabedoria.

    Fiz silêncio por alguns segundos, o eco da canção, da minha voz e da dele, ainda em meus ouvidos. Olhei para ele sentado ao piano, tão sozinho e tão triste. Falei sem pensar muito, talvez querendo lhe dar algum consolo imediato:

    — Uma das últimas conversas que tive com minha mãe foi muito estranha. Ela, que nunca deixava a cama desarrumada ou a pia com louça por lavar, disse que não adiantava se preocupar mais do que o necessário com essas coisas sem muita importância. Que nesta vida tudo acontecia rápido demais, que o tempo era precioso e precisava ser gasto com o que valia a pena de verdade.

    Paul virou-se para mim com surpresa: “Essa conversa foi um sonho com sua mãe ou aconteceu mesmo?”

    — Não sei dizer ao certo — respondi. — Se foi sonho ou não, tem tudo a ver com sua música, não acha?

    — Acho. Tanto faz mesmo. Como eu disse antes, a gente não pode escolher com o que sonhar.

    — É, eu sei. Eu te contei essa história para inventar uma despedida, Paul. Let it be…

  • Um homem de muita fé

    Ele desceu do trem numa estação qualquer, numa cidade desconhecida, e esperou por ela. Depois, entrou nas criptas das catedrais, onde o silêncio pulsa de tão denso, e esperou por ela. Empoleirou-se em árvores, em pontes, em terraços, em torres, em montanhas, em aviões, nas nuvens dos sonhos e, talvez, nas asas de algum anjo.

    Esperou por ela na dureza do inverno mais impiedoso, tremendo não de frio, mas de esperança. Também esperou por ela na chuva, até que a água caísse sobre ele como pontas de uma faca. Comprou até um telescópio e esperou para vê-la aparecer entre as estrelas.

    Encontrei-o sentado num banco de parque, em silêncio, olhando fixamente para além das árvores, para além do tempo, para além da loucura. Perguntei-lhe: “Quem você espera com tanta persistência?” Sem desviar os olhos do horizonte, respondeu: “A felicidade. Quem mais poderia ser?” Sentei-me ao lado dele.

  • O trapezista

    No ponto mais alto do andaime lateral, aonde chegou depois de subir 42 degraus com ar de vitória e vestindo a calça apertada de malha branca, o trapezista faz uma reverência ao público, que aplaude mais por medo do que por entusiasmo, com a emoção presa na garganta. “É muito alto, ele não vai conseguir”, sussurravam os espectadores, a boca seca de tanta aflição. Era o número final do espetáculo, o mais aguardado, o fecho perfeito para uma noite de encantamento.

    Som de tambores. Tensão. Suspense. Ninguém respira na plateia.

    O trapezista prepara o salto. A audiência reza em silêncio, as mãos postas. “Não tem rede de proteção, olha o perigo!”, um espectador notou. O que estava ao lado dele confirmou: “Não tem mesmo, o cara é corajoso. Meu Deus!”

    O trapezista gruda as duas mãos na barra do aparelho e lança o corpo no ar. Um oh! em uníssono explodiu por toda a arena. Parecia voar o homem de calça apertada de malha branca, indo e vindo como uma folha solta no ar sem peso algum. A cena era arrebatadora. “Agora ele vai trocar o aparelho e dar o triplo salto mortal, tá vendo o trapézio vazio que vem pelo lado contrário? Agora!”, uma senhora abraçou a neta e abafou o grito.

    Vinte metros abaixo, com um som seco, o corpo do atleta se choca contra o chão de concreto da área central do picadeiro. A malha branca tornou-se vermelha. Sangue por todo lado. Novamente o oh! em uníssono na arena. “Um médico, chamem um médico, tem um médico na plateia?”, gritou o assistente de palco. “Aqui, eu sou médico”, respondeu o senhor grisalho, correndo até o centro do picadeiro. O homem se debruça sobre o trapezista e constata o que todos suspeitavam. Olha em volta e faz o gesto de “acabou”, movimentando as mãos do centro para os lados, uma sobre a outra.

    A plateia, como se tivesse ensaiado a reação, soltou o ar retido nos pulmões e explodiu em aplausos e em urros de puro deslumbramento. O espetáculo foi um sucesso retumbante. Que noite, senhoras e senhores, que noite!

  • As folhas mortas caídas no chão

    Construí minha casa sob a copa generosa da maior árvore do terreno, bem junto ao tronco. Saboreei por antecipação a sombra refrescante que teria nos dias de calor e isso me deu grande alegria. Nivelei o chão, ergui as paredes, pintei tudo de branco. Estava muito bonita a minha casa, mas desde que me mudei não faço outra coisa a não ser varrer as folhas secas do assoalho. Esta é a lembrança mais antiga que tenho a partir do momento em que passei a habitar lá: vassoura na mão, tirava sacos e mais sacos cheios de folhas. A árvore soltava as folhas mortas e elas caíam diretamente sobre o meu chão. Então, eu tinha que varrê-las para fora e assim manter minha casa limpa.

    A toda hora, fosse dia ou fosse noite, eu estava tirando folhas secas do assoalho, e percebi que esse trabalho não trazia o resultado esperado. Por mais que varresse, minutos depois havia novas folhas velhas sobre o chão. Isso demandava mais esforço de minha parte, mas cuidar da minha casa me fazia feliz.

    Quando me casei, trouxe minha esposa para viver comigo em minha casa. Ela olhava com tristeza a minha obsessão por manter o chão limpo. Um dia, com delicadeza, apontou o dedo para o alto e me fez ver que minha casa não tinha teto, por isso as folhas secas caíam diretamente no assoalho, sempre mais e mais. Vi que ela tinha razão e coloquei telhas sobre as paredes. Hoje as folhas mortas não caem dentro de casa, mas não tenho a mesma alegria de tempos atrás, porque agora não sinto, como sentia antes, a sombra refrescante que a árvore me dava nos dias de calor.

  • A luta desigual

    Todas as manhãs o menino verifica, desolado, que seu castelo foi destruído pelas ondas. Quando chega à praia, vê que nada existe além de um monte de areia sem forma. O trabalho que teve no dia anterior desapareceu. Sua arte foi tragada pelo mar e deve estar agora em algum fundo escuro e frio daquela imensidão azul. Com paciência e dedicação, recomeça a tarefa de reconstruir o edifício onde colocará sua fantasia de morar ao lado de reis e princesas. Antes, dirige um olhar de ódio à água que lambe seus pés. Engole as lágrimas e jura que vai se vingar.

    À noite, pôs seu plano em prática. Ninguém percebeu quando ele, sem fazer barulho, saiu de casa e correu na direção da areia. Ninguém foi testemunha da batalha desigual que teve início naquele momento entre o mar imenso e um menino armado de espada de brinquedo. Ninguém o viu quando o dia amanheceu. Ninguém o verá nunca mais.

  • Tudo o que cabe num instante

    Celina abre os olhos e vê que está na cozinha. A louça é de porcelana e as panelas são todas novas. Em cima do fogão há um frango assado na travessa, pronto para ser servido. Demora alguns segundos para perceber que esta é a sua outra casa. Feliz, prepara-se para receber o marido, que volta do trabalho, e os filhos, da escola. Os meninos, quando chegam, dão-lhe beijos no rosto. Atrás deles, o marido a abraça e a levanta no ar como se não se vissem há meses. “Eu te amo”, diz ele, mordiscando sua orelha. Todos se sentam à mesa, e os pequenos contam como foi o dia na escola.

    Em silêncio, Celina aproveita a paz do momento. O marido pega sua mão e diz que, na próxima semana, pedirá férias na empresa e a família toda poderá passar uns dias no litoral. E que depois disso ela poderá pensar em seus estudos de pós-graduação, um sonho há muito acalentado. Celina estava prestes a responder quando um murmúrio chegou aos seus ouvidos: “Acorda!”, ouviu uma voz vinda de longe. “Acorda, sua vadia!”, a voz foi ficando mais nítida. “Acorda, sua merda!”, e ela não conseguiu mais ouvir as crianças nem o marido. Sentiu tontura, levantou-se da cadeira e, antes que alguém pudesse segurá-la, caiu. Ao abrir os olhos, percebeu que estava no chão. Sua cabeça doía e sentiu um gosto metálico e quente na boca. “Levanta já, sua fingida!”, disse a mesma voz. “Eu não te bati tão forte, não seja dissimulada. Anda, levanta e me traz outra cerveja.” Celina se levantou, limpou o sangue com as costas da mão e andou até a geladeira, implorando aos céus pelo próximo golpe que lhe trará alívio e a levará de volta à outra família.

  • O segredo da boa colheita

    Ao entardecer, quando o estranho passou, meu irmão e eu abrimos-lhe o crânio com o grosso ramo de videira que usamos para ocasiões semelhantes. Um único golpe, preciso e sem fúria, nada mais. O chapéu que o estranho usava empoleirado na cabeça rolou alguns metros adiante. Meu irmão o apanhou do barro vermelho e o pôs na sua própria cabeça. Será um ano bom, produtivo e faremos um bom dinheiro — isso foi o que concluímos, meu irmão e eu, apenas com uma troca de olhares.

    Arrastamos o estranho até o paiol e acendemos a lamparina de óleo. A luz embaçada fez brilharem as pás dos ventiladores de teto, espantando os morcegos. Arregaçamos as mangas e estudamos por alguns minutos o corpo inerte do estranho. Era um homem de quarenta e poucos anos, forte e parrudo, farto de carnes, gordura e músculos. Um perfeito fertilizante natural. Abrimos uma vala funda ao pé de uma videira e lá o enterramos com cuidado, como manda a tradição nas vésperas da colheita. Assim, o sangue drenado do corpo sem vida do estranho manchará as uvas, suas carnes nutrirão as raízes e fortalecerão as gavinhas e seus ossos darão vigor novo a esta terra queimada pela névoa e pela geada. A vinha crescerá até que o suco flua, nobre, único, virtuoso de sua fermentação secreta.

  • INSTANTÂNEO

    A velha de lenço preto na cabeça não se incomoda de ficar horas dando voltas na casa feita destroços. Era a sua casa. Tenta reconhecer, sem conseguir, a parede do quarto, onde era o banheiro, a sala em que fazia crochê, a cozinha que, nos fins de tarde, parecia um paraíso com cheiro de comida. Traz num dos braços um cobertor sujo de poeira e nas mãos duas colheres de pau — o que sobrou depois do bombardeio, depois da casa no chão. Ela fala sozinha enquanto rodeia os escombros, provavelmente dialogando com seus fantasmas. Ali ao lado dois cachorros mortos aguardam sepultamento e do ventre de cada um sai um fio de sangue que chega até perto da casa. Mas o que é isso? Não basta não existir mais casa, agora também o chão será encharcado de sangue?, pragueja ela.

    O fotógrafo pediu permissão para tirar um instantâneo, mas ela não deu atenção. Estava ausente. Só buscava alguma coisa, talvez buscasse nada. De vez em quando se abaixava para recolher algo do chão e em seguida continuava a rodear a casa e a dialogar com o silêncio.

    Ela e sua família já estavam com as malas prontas, mas não era para sair de férias. Iam para outro lugar, fugindo da guerra interminável. Partiriam como refugiados, gente de nenhuma parte, sem raiz, sem chão próprio, sem nação. Gente de segunda classe, ralé, estorvo para os países ricos. Na noite anterior, os aviões que voavam baixo sinalizavam o terror, e ela tinha ido até outro bairro buscar comida para a viagem. Na volta, encontrou os escombros. Estes, que agora ela e seus fantasmas circundam. Não sobrou nada, nem casa, nem família, nem malas, nem viagem. Só ela.

    Plasmar a alma daquela anciã com sua máquina de eternizar momentos: era isso que o fotógrafo pretendia, mas a incredulidade diante do inexplicável lhe fechava a garganta e o impedia de pensar. Estava mergulhado numa guerra que não era sua, mas era como se fosse, porque era contra toda a humanidade. Posicionou o equipamento diante do rosto da velha e captou um instante daquela miséria, apesar dos próprios olhos marejados.

  • As uvas

    A cortina se abre. No palco, um homem come uvas. O público aguarda. A publicidade anunciou que era a melhor peça da temporada teatral da cidade. O homem chupa uvas. Os críticos elogiaram a engenhosidade do diretor, a sutileza da atuação, a trama tão bem engendrada. O homem mastiga uvas. “Impressionante!”, publicaram os jornais, revistas e sites da internet. “Ação sem limites, com ritmo e intensidade”, declarou a seção de teatro do Jornal da Manhã, logo após a noite de estreia. O homem termina de chupar as uvas, restando apenas uma. Ao levá-la à boca, a uva reage. Em saltos frenéticos, atinge o homem no rosto, na virilha, na nuca. Voa para longe, estanca para tomar impulso e, com a velocidade de um raio, dispara na direção do ator e perfura o seu crânio entrando pelo olho direito. Silêncio. O público reage, levanta-se e aplaude freneticamente. Cai o pano. Da uva rebelde nunca mais se ouviu falar.

  • À Semelhança

    O mundo carecia de uma criatura que pudesse consolar a todos. Então os homens e as mulheres criaram Deus. Quer o tenham concebido pensando em seus sonhos mais queridos ou, ao contrário, moldado-o a partir do barro da natureza, o fato é que Deus surgiu aos olhos de todos com forma humana. A empatia foi imediata e assim o mundo ficou completo: agora havia um Deus.

    O tempo passou, a vida seguiu, o mundo se transformou, o cotidiano se instalou, a percepção das coisas se acomodou. Os animais, com a cabeça baixa, sempre olhavam para o chão. Os homens e as mulheres, com a cabeça erguida, olhavam para a frente e, às vezes, olhavam para o céu. Para onde o Deus inventado olhava, não era possível saber. Sozinho, muito sozinho, ele frequentemente se queixava de que, depois de o terem feito tão semelhante aos homens e às mulheres, esses mesmos homens e mulheres o tivessem banido para longe de onde viviam. Passou então a vagar pelos ermos do céu e do horizonte, ensimesmado e muito apreensivo com a possibilidade de que um dia, por ser inútil, os homens e as mulheres o desinventassem.

  • Aurora e o Sujeito Sentimental

    Arre, que não teve jeito! Nunca tem. Mente quem diz que tem.

    O chefe da Polícia Federal fala ao assistente sem tirar os olhos do cadáver esticado na cama do hospital, dentro de um saco grosso de plástico: Providencie o traslado do corpo do Pestana para Araraquara, a cidade dos pais, no interior de São Paulo. Já assinei o documento de autorização. O caso pra ele tá encerrado. Nós vamos continuar de onde ele parou. Ele trabalhou bem no começo, cagou no final. Otário!

    Quando não tinha mulher no meio, Pestana era ágil, resolvia tudo num dois por três. Levou poucos meses para investigar e explodir as entranhas do tráfico da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Rodou por Belo Horizonte, Recife, Cuiabá, São Paulo, Porto Alegre, eliminando as ramificações brasileiras dos traficantes de drogas. Morava mais em avião do que na própria casa. Trabalhou com eficiência. Era quase invisível e conseguiu se infiltrar. Tudo fácil, até que ela apareceu, presa por um colega policial. Ruiva, cabeleira ondulada igual à personagem do gibi, era um espécie de chefe de uma gangue obscura do Rio de Janeiro. Obscura sim, mas que vinha dando trabalho para a polícia: assassinatos, assaltos, conluio com a milícia, submissão de moradores das favelas cariocas. Pestana percebeu o tipo, a malemolência, a malícia. A boca. O olhar. O cheiro. Tinha um nome matador — Aurora —, que nunca mais sairia de sua cabeça. Soube que estava perdido assim que a viu. Ela prestou depoimento e o encarou como se perfurasse sua alma. Foi dispensada por falta de provas. Pestana se rendeu, agiu como um idiota. Ruiva esperta e dissimulada, deslizava feito bagre. Sempre tinha álibi. Nunca se deixou vincular com o tráfico, mas estava sempre por perto, pairando, rondando. Uma sombra difícil de agarrar.

    Desbaratada a rede brasileira, foi a vez de investigar o braço internacional. Barcelona, Lisboa, Zurique, Londres. A sombra da ruiva também estava espalhada por lá, a gangue crescia com rapidez. Pestana seguiu pistas, conferiu informações, foi atrás de supostos cúmplices na Europa. Nenhuma prova ainda que incriminasse Aurora, a cachorra sabia como escapar.

    Foram para a cama em Londres, no apartamento que ela tinha lá. Pestana sabia onde estava se metendo, mas não conseguia evitar. No sexo era Aurora quem dominava, ele obedecia, fascinado por aquela mulher perigosa que poderia matá-lo sem pensar muito. Ela gostava de ficar por cima. Abria as pernas sobre o corpo esticado dele e o olhava nos olhos. Ordenava: Quero uma enfiada só, de uma vez, ouviu? E ia se abaixando devagarinho, ficando de cócoras sobre o pau em riste. Dava um tranco rápido com as nádegas e se acomodava gostosamente, as pernas ao redor da cintura do policial e o membro dele inteiro dentro dela. Mexia os quadris como profissional experiente, devagar primeiro, acelerando o ritmo aos poucos e apertando e puxando para cima o bico dos seios. Isso deixava Pestana louco e ele tinha que se segurar para não gozar de imediato. Quando se separavam, cada um num lado da cama, suados e vazios, ele gastava minutos olhando a barriga redonda de Aurora, que subia e descia em movimento uniforme. Naquela noite, assim que ela se levantou para ir ao banheiro se lavar, Pestana grampeou o telefone do quarto. Cadela, que pena, agora te peguei, pensou o investigador. Não pegou. No dia seguinte ela descobriu o grampo, desativou a armadilha, pintou o cabelo de preto e sumiu. Semanas sem saber dela, Pestana quase enlouqueceu.

    Em Barcelona, pensou tê-la visto na rua. Não era, mas podia ser. Foi pra cama com a desconhecida e percebeu que não era mesmo a outra: não tinha o piercing no clitóris, nem o anjinho tatuado na nádega esquerda, nem gritou Drácula! na hora de gozar. Deu dinheiro e dispensou a falsa.

    Andou um tempo com medo. A Europa amedrontava, tinha a barreira da língua, o frio que endurecia os ossos, a comida que parecia cimento e ninguém em quem confiar. E a solidão, essa cachorra! E a cachorra da Aurora, que tinha sumido como fumaça? Estava desolado. Queria voltar e se torrar sob o sol do Leblon. Recebeu notícia do chefe: Aurora tinha sido vista num inferninho em Copacabana. A ordem foi que voltasse correndo. Pestana tomou o primeiro avião. De novo no Rio, recomeçou a perseguição. Maré, Rocinha, Alemão, Cidade de Deus, um sabonete chamado Aurora fazia muita espuma e desaparecia como se nunca tivesse existido.

    Até que um dia seus olhares se cruzaram de novo, e aquela foi a penúltima vez. A polícia foi avisada por um delator, vários investigadores deram flagrante, chamaram a televisão e os jornais: a ruiva, dólares e euros em dinheiro vivo, carregamento pesado de drogas, todos presos, ela também. Pestana pôs as algemas olhando para ela direto nos olhos. Quinze anos no xilindró, quando sair vai estar velha, gasta. Pena. Assim que a poeira baixou, Pestana foi para casa descansar, dormir e tentar esquecer.

    Com a ajuda de um rábula vesgo e corrupto, a ruiva conseguiu habeas corpus e, de novo na rua, foi cobrar o prejuízo. Soube que uma noite o Pestana estava bebendo no Golden Duck, em Copa. Ele ainda não estava completamente bêbado quando ela entrou e o encarou. Essa, sim, foi a última vez que cruzaram os olhares. Ela sorriu, se aproximou, colou o corpo no dele e o beijou na boca. Disparou cinco vezes com a automática silenciada enquanto o beijava. Saiu da boate sem ninguém impedir ou entender como, protegida por seus capangas.

    Pestana respirou uns dias por uma máquina. As agulhas nas veias providenciaram alimento e sobrevivência. Quis morrer, não agonizar. Quis morrer com a ruiva mordendo seus lábios, balançando a cabeleira como a moça do gibi. Morreu sem isso.

    O chefe da Polícia Federal entrega o documento ao assistente, autorizando o traslado do corpo. O Pestana disse que queria ser enterrado ao lado do papai e da mamãe dele. Coisa de sujeito sentimental. Otário! Despacha o corpo pra lá, anda. Alguma pista da cachorra da Aurora?

  • Meu amigo Tibúrcio

    Não passa um dia sem que note sua presença silenciosa, o olhar doce acompanhando meus movimentos e o sorriso acolhedor que me dirige quando, sempre aos domingos, me disponho a ficar quieto no meu quarto e conversar sem palavras com ele. Se ando pela rua, cruzo um viaduto ou paro um pouco para respirar com os olhos fechados o cheiro do pão fresco que vem da padaria, sinto de repente que ele se agita no fundo da minha idade. Que, jovem e cheio de vida e de saúde, golpeia com suas mãos pequenas e ternas minhas paredes interiores. Que grita, ri e trata de pular pra fora, a todo custo, desse corpo envelhecido e cansado de tanta dor.

    Meu amigo Tibúrcio nunca me negou companhia nem consolo. Sinto alegria por ouvir, até hoje, quando sofro tanto, sua voz sussurrando vai passar, vai passar.

    Não raras vezes ele me desperta no meio da noite com o desejo de que o tome pela mão e o leve para ver o mar. Só ver, sem entrar na água ou quebrar as ondas. Só ver e não esquecer do quanto somos pequenos. Também me irrita um pouco quando tenta parecer mais inteligente do que eu numa conversa adulta, pondo-me em situação ridícula. Para quieto, eu digo com minha voz interior, mas não há maneira de calar o tagarela. Eu o perdoo mesmo assim.

    Ele me pede, sempre que volto da rua, que traga flores para enfeitar a casa. Intromete-se em meus problemas cotidianos e sempre inventa uma solução mágica. Me convence, enfim, a sair sem agasalho num dia frio e voltar para casa com os lábios roxos e morrendo de rir.

    Em outros dias sou eu quem saio em busca dele, estranhando seu silêncio mais demorado que o habitual. Temo que tenha ido para sempre e deixado um oco escuro em minhas entranhas. Por sorte, sei onde encontrá-lo: toco de leve o meu peito e pergunto ainda está aí?, ao que ele responde como não vou estar se sou um pedaço de você? Então saímos os dois para passear, tomar sorvete ou ler um livro.

    Costumo dizer ao meu amigo que não tenho certeza de nada a não ser do medo de, algum dia, não estar aqui. Ele costuma responder que somos como a cebola, que tem várias capas, e que só se chega ao centro dela depois de derrubadas todas as camadas. Que o mesmo acontece com as pessoas, que vão, voltam, vão e voltam novamente, eliminando suas capas até que seu centro seja revelado e então, como o voo breve de uma borboleta, fecham os olhos e dormem.

    Concordamos que a memória ficará. Um dia eu não serei eu, ele não será ele. Outros ocuparão os lugares que hoje ocupamos e a lembrança de nós ficará grudada no batente das portas, nos azulejos, nos muros, nas canções e no ar. E assim, de acordo, eu e meu amigo Tibúrcio saímos para o sol.

  • A vida dos outros

    Quando Januária, a empregada, entrou na sala e anunciou que a comida estava na mesa, ele, o vizinho do prédio em frente ao nosso, continuava na mesma posição e nada tinha mudado desde a manhã: só de cueca, sentado numa cadeira frente a um grande espelho, a arma apontada para o lado direito da cabeça. Não se decidia. Às vezes depositava a arma sobre a escrivaninha e dava passos nervosos na sala, a cabeça entre as mãos. Em seguida sentava-se novamente, olhava-se no espelho e apontava a arma mais uma vez para a têmpora direita. Passou assim a tarde toda, foi o que disseram meu pai e minha mãe quando voltei do trabalho e os guardei espiando a vida alheia.

    Atrás da cortina semicerrada da sala de jantar, meu pai disputava com minha mãe o melhor ângulo para observar a cena. Ela dizia que sim, que era uma questão de minutos e logo se ouviria o disparo e a polícia não tardaria a chegar. Ele apostava que não, aquele homem não teria coragem para ir até o fim.

    Depois de muitas horas de espera e, vendo que o vizinho não dava sinais de que iria resolver a questão de uma vez por todas, fecharam a cortina e foram jantar. Venha, Aparício, enquanto a comida está quente. Comida fria é um horror, disse minha mãe. Eu já tinha jantado e, à falta de algo mais interessante para fazer, liguei a televisão para ver a telenovela.

  • Foi assim que tudo começou

    No primeiro dia, vassoura na mão, limpou a casa, caiou as paredes, pendurou as cortinas, distribuiu os móveis, arrumou os livros, pintou o número na porta, colocou o tapete, forrou o sofá e viu que tudo isso era bom.

    No segundo dia estendeu os fios elétricos, instalou interruptores novos e brilhantes e, quando os ligou, viu que a luz se fazia clara, forte, iluminando tudo, criando sombras nas paredes brancas, e viu que isso também era muito bom.

    No terceiro dia cimentou os encanamentos, trouxe água da nascente do rio e, concluído o trabalho, abriu as torneiras e a água jorrou límpida, cristalina, ainda fresca da fonte, o que o fez sorrir, pensando que isso também era bom, mais do que bom, era ótimo.

    No quarto dia comprou um aquário com peixinhos coloridos, uma gaiola com dois canários cantores e diversos vasos com flores, que distribuiu pela casa e, vendo os peixinhos, ouvindo os canários, sentindo o perfume das flores, ficou feliz, pois concluiu que tudo isso era muito bom, e como era!

    No quinto dia banhou-se na água do chuveiro recém-instalado, barbeou-se, vestiu roupas novas, olhou-se no espelho e viu-se solitário na casa que construíra com tanto capricho. Pensou que precisava de uma companheira e saiu batendo de casa em casa, até que encontrou uma moça modesta e simples que aceitou dividir com ele a casa, os canários, as flores, a água e a luz, e ele sorriu feliz, pois viu que isso era maravilhoso.

    No sexto dia acordou ao lado da companheira, desembaraçou-lhes os cabelos, deu-lhe banho, perfumou-a e a amou, e desse amor nasceram muitos filhos e esses filhos tiveram filhos, de modo que a casa ficou cheia de vida, de risos e alegrias. Todos ficaram felizes, porque viram que tudo isso era muito bom.

    No sétimo dia, cumpridas todas as tarefas, reuniu a família, dividiu o pão do celeiro e o vinho da adega, beijou um a um os filhos e netos, sorriu para a companheira e, sem outro aviso, deitou para descansar e nunca mais acordou. Quem ficou achou que isso também foi muito bom, foi boníssimo.

  • Como sempre foi

    Quando fecho os olhos, o mundo desaparece. Quando os abro, o mundo corre para se recompor no mesmo instante. Às vezes, durante o período infinitesimal dessa transição — e isso é apenas uma percepção —, acredito surpreendê-lo ultimando seu trabalho de recomposição: percebo o contorno esfumaçado das coisas ao meu redor, alguns ruídos, uma chispa, o acomodar-se das distâncias, a luz do dia buscando lentamente sua intensidade, meus filhos demorando uns milésimos de segundo para adquirir suas formas habituais, o pelo do gato parece difuso e ele ainda não tem bigodes, a vizinhança descuidada e desagradável se estabelecendo à direita e à esquerda, um grito ao longe que ainda não chegou perto o suficiente para ser identificado, a nuvem que se atrasou em sua tarefa de encobrir o sol… Tudo isso acontece até o momento em que, olhos bem abertos, vejo as coisas irromperem de novo e se reintegrarem velozmente à ordem, recobrarem sua textura, seu volume, seu nome e seu significado, e este mundo líquido e descartável voltar, mais uma vez, a ser como sempre foi: perpetuamente feio e inumano.

    🗞️

  • Lugar interno

    Há mendigos que não estendem a mão nas esquinas, nem carregam embrulhos com roupas sujas. Sua fome não é de pão, mas de palavras; sua sede é de olhares que os reconheçam. São os mendigos emocionais, aqueles que vagueiam pelos corredores das relações com uma tigela invisível, pedindo migalhas de afeto.

    Você os encontra em todos os lugares. No trabalho, aquele colega que, após cada tarefa, busca um “muito bem!” como se fosse um prêmio vital. No amigo que conta histórias de sofrimento repetidamente, não para aliviar a dor, mas para colecionar consolos. Nos corredores das festas, onde alguém ri alto demais para preencher o silêncio ao redor, ou fica grudado a outro como uma âncora em mar revolto.

    Eles não carregam cartazes, mas seus sinais são claros: a conversa que sempre retorna ao próprio umbigo, o ciúme disfarçado de cuidado, a necessidade de ocupar todos os espaços vazios com barulho ou presença. Sua tigela tem um fundo falso por mais que você deposite atenção, ela se esvazia em minutos, exigindo mais.

    Muitos de nós, em algum momento, fizemos fila com essa tigela. Às vezes, a solidão bate à porta, e saímos em busca de um pouco de calor humano. A diferença está no permanente, no ofício de mendicância afetiva transformado em identidade. O mendigo emocional profissionaliza a carência. Ele não compartilha; extrai. Não conversa; drena.

    O paradoxo é que, quanto mais mendigam, mais espantam os doadores. O olhar faminto assusta. As pessoas intuem quando estão sendo usadas como tapa-buracos, e recuam. E o mendigo, então, vaga mais, faminto, convencido de que o mundo é mesquinho.

    Talvez a verdadeira esmola que precisamos aprender a dar e receber, não seja a migalha de atenção momentânea, mas a oferta com distintas maneiras para pescar. Um “como você está?” genuíno, que escute a resposta. Um silêncio que acolhe, não que foge. Um convite para que o outro se enxergue inteiro, e não apenas carente. Eventualmente somos autênticos quando corremos risco de vida, quando a morte espreita na porta a fitar nossos movimentos.

    A questão é, passamos a vida estendendo a tigela, ou aprendemos a cozinhar nosso próprio banquete?

    Os mendigos emocionais nos lembram, no fundo, de um medo comum: o de que nosso afeto não tenha valor se não for validado por outro.

    A verdadeira abundância emocional começa quando paramos de estender a mão para o mundo em sinal de súplica e passamos a usá-la para construir, dentro de nós, um lar acolhedor. Todos carregamos feridas, porém, em momentos de fragilidade, podemos agir a partir da carência. A diferença está em reconhecer esse estado e buscar a cura, ao invéz de perpetuá-lo.

  • Os olhos e o sorriso dela

    Existiu há muito tempo um homem que dedicou sua vida a estudar o sorriso mais famoso do mundo. Enigmático, indecifrável, dissimulado, insolente — ele jamais admitiu esses adjetivos para descrever o que chamava de “o mais belo ricto da história da espécie humana”. Para ele, ali havia muito mais que um simples contrair e curvar de lábios: havia um segredo, e qual seria? Estudava, estudava. Um dia chegaria a saber.

    Já velho, o homem quase abandonou suas investigações não fosse a descoberta de um fato que mudou tudo: o artista não pintara no rosto da mulher nenhum sorriso. De seu pincel brotara apenas uma face sombria, com olhos da cor de amêndoas maduras em tempo de colheita. Eram esses olhos que seduziam o observador, que, ao admirar o retrato e sentir o despertar do desejo, sorria primeiro. Ela, senhora de si, se tivesse vontade, sorria depois.

  • Enquete

    Poucas horas após minha morte, recebi por e-mail uma mensagem que pedia minha opinião sobre o que era a vida, já que eu tinha acabado de sair dela. Quando estava vivo, costumava receber esse tipo de pesquisa eletrônica, completamente desimportante para mim. Eram perguntas sobre o último hotel onde tinha me hospedado poucos dias antes, ou sobre um restaurante que descobrira num bairro distante. Nunca me dei ao trabalho de responder, e não seria agora, já convertido em defunto e com meu corpo se decompondo lentamente, que faria isso.

    Mesmo assim, dei uma olhada rápida, aproveitando que o celular ainda estava funcionando. A pesquisa era bem completa, como era de se esperar, e perguntava sobre o meu grau de satisfação — nota de zero a cinco — sobre aspectos relacionados com minha saúde, a idade que consegui atingir, os sonhos realizados, as metas cumpridas, os objetivos alcançados, os fracassos, as decepções, as ilusões perdidas. E deixava um espaço em branco para que eu escrevesse um comentário sobre minha passagem por este mundo a fim de contribuir, de alguma forma, para melhorar as condições dos últimos dias para os futuros defuntos. Havia também, claro, a indefectível pergunta: eu recomendaria essa experiência de sair do corpo físico a meus amigos e familiares?

    Como disse anteriormente, eu não estava em situação de atender a todas essas questões, nem mesmo a troco dos valiosos prêmios aos quais, a pesquisa dizia, eu poderia concorrer ainda que estivesse morto (não entendi a que prêmios eu estaria apto). E, por mais que tivesse tentado de todas as maneiras, não consegui cancelar meu endereço de e-mail. Por isso é que agora, anos mais tarde, quando de mim não resta nem o pó de que fui feito, continuo atualizado com as últimas novidades e promoções das empresas.

  • O instante

    No balcão do bar, à minha direita, com trinta e oito anos, um metro e oitenta de altura e aproximadamente noventa quilos, Júlio Andrade, engenheiro, toma um café com leite. Está sozinho. Foi um pai exemplar até às oito horas e vinte e três minutos da manhã de ontem, quando sua única filha, Marita, de doze anos, foi atropelada por um caminhão quando atravessava a avenida a caminho da escola. Ele acabou de enterrar sua menina e agora não tem mais filha. Não é mais pai de ninguém.

    À minha esquerda, com cinquenta e quatro anos, um metro e setenta de altura e sessenta e oito quilos aproximadamente, Cirilo dos Santos, servente de pedreiro desempregado, bebe em silêncio um copo de cerveja. Está sozinho. Ainda guarda no bolso traseiro da calça o bilhete de loteria premiado, cujo resultado ele conferiu na manhã de ontem pela televisão, às oito horas e vinte e três minutos. Está fazendo hora até o banco abrir, quando resgatará o prêmio e colocará fim à vida de privações que ele e sua família levavam até esse momento. Está milionário.

    Um deles pensa naquele instante de ontem como o pior de sua vida; o outro, como o maravilhoso início de uma nova existência. Eu sou aquele instante. Às oito horas e vinte e três minutos da manhã de ontem eu fui amaldiçoado e enaltecido ao mesmo tempo.

    Um instante é uma viagem sem roteiro e planejamento, cujo destino final será um simulacro, uma faísca de vida e suas consequências. Faça-se uma fotografia de Júlio e Cirilo no instante compartido no balcão do bar: um deles mal contém a tristeza, o outro, mal disfarça a sensação de pisar em nuvens. O retrato mostrará o que passa em cada cabeça?

    Júlio e Cirilo são a prova de que pode haver horror e alegria num só instante. No mesmo instante. A vida é cheia deles. A vida é cheia de mim.

  • A alternativa

    É uma cena que há tempos se repete, desde o dia em que meu pai anunciou que tinha perdido o emprego e minha mãe o abraçou dizendo: “Nós havemos de encontrar uma alternativa”  toda sexta-feira, no meio da tarde, o homem de chapéu, terno e gravata toca a campainha e eu abro a porta. Ele sorri, passa a mão no meu cabelo e me entrega o chapéu, que coloco no cabideiro com cuidado. Nas primeiras vezes minha mãe fazia um sinal com a cabeça e eu saía da sala. Agora, com o hábito, não preciso mais do sinal. Vou para meu quarto sozinho e fico lá em silêncio. Faço os deveres da escola, brinco no videogame e coloco peças novas no quebra-cabeça. Duas horas depois, escuto quando o homem se despede e em seguida o barulho da porta da frente se fechando. É quando saio do meu quarto e vejo minha mãe indo para o banheiro tirar o batom e lavar o rosto com sabonete. Ela passa por mim e diz que vai fazer meu lanche.

    Na cozinha, minha mãe canta uma música junto com o rádio enquanto prepara meu chocolate quente e me pergunta se fiz a lição. Vejo que ela esconde o dinheiro no meio do livro de receitas. Logo depois chega meu pai, cansado de andar o dia todo à procura de emprego. Ele me dá um beijo e pergunta se já terminei os deveres. Também beija a minha mãe no rosto e ela avisa que o jantar ficará pronto em dez minutos. E em dez minutos a família está reunida em volta da mesa. Conversamos sobre qualquer coisa, sobre coisa nenhuma, sobre o tempo, sobre como está gostosa a comida, sobre a nota que tirei em matemática, sobre os preços que não param de subir, sobre o desemprego que a cada dia aumenta mais, sobre a necessidade de se arranjar alternativa para ganhar dinheiro nesse tempo de crise.

    Amanhã é sábado e meu pai vai ficar em casa o dia todo. Talvez ele me ajude a terminar o quebra-cabeça. E sei que minha mãe vai continuar tricotando o meu pulôver novo de lã, porque o inverno está chegando e o único agasalho que tenho já está esgarçado.

  • Memória para último uso

    No dia de seu aniversário de oitenta e cinco anos, ele saiu de casa pela primeira vez depois do longo período em que seus passos só conheceram o caminho entre o quarto, o banheiro e a cozinha. Era outono e fazia frio, e sua garganta rascava. Com esforço, chegou até o banco costumeiro, na avenida diante do mar. Por sorte estava vazio e era disso que precisava: ninguém por perto, nenhuma presença que o incomodasse, nenhum olhar curioso sobre a sua pessoa. Soltou o corpo sobre o assento e tirou o chapéu. Estava cansado. Tossiu e levou a mão à garganta, identificando o incômodo. Passou os dedos pelas tábuas do banco, acariciou os nós da madeira e depois perdeu o olhar na imensidão que tinha à frente. “Este banco é mais confortável que o anterior, de pedra. Mas o mar continua o mesmo de sempre, traiçoeiro.” Olhou as ondas e sua mesmice. Fechou os olhos e respirou devagarinho.

    Quando levantou as pálpebras instantes depois, viu-se com dez anos sentado na areia, fazendo castelos com dois amigos. Em seguida tinha vinte anos e sentiu nos lábios sabores novos: a primeira taça de vinho tinto, o beijo de Marilda, o sangue que a bofetada de seu pai produziu.

    Continuou olhando o mar e apreciando as imagens que passavam diante de seus olhos: a trincheira durante a guerra, a dor, o companheiro que pisou numa mina e perdeu uma perna, a fome, o rádio, as cartas de Marilda, o frio, o cheiro de pão fresco, as fotografias, o casamento, o sorriso de Marilda, o trigo queimado, os filhos, a cidade, a televisão, o trem, o trabalho, a casa que tinha construído à custa de dinheiro poupado por anos, a ausência de Marilda, a solidão, o abandono, o esquecimento, o banco de madeira que antes era de pedra, o mar, a areia, uma lágrima, um sorriso — tudo o que acreditava perdido, até aquele momento, nalgum escaninho da memória. Aprendeu, sentado naquele banco, a abrir os olhos sem medo, a fechá-los sem culpa e a tranquilamente dizer adeus a tudo.

    Certas memórias doem e não cicatrizam. Em vez de obscurecerem com o passar do tempo, como acontece com lembranças desimportantes, elas, pelo contrário, permanecem, fazendo apenas as outras desaparecerem. Essas memórias escurecem como lampadinhas enfileiradas que se apagam uma a uma, lentamente, desafiando a capacidade humana de lembrar. Gritam para continuarem vivas.

    Ciente de que não sabia nadar, caminhou devagarinho na direção da água.

  • A peça mais preciosa

    A senhorita Mariquinha Penaleve era tão pequena que nem se dava ao trabalho de usar salto alto; sabia que nem assim seria notada. Quando caminhava pela calçada todos a confundiam com uma menina. Nem sequer pensavam: “Mas que mulher pequena!” Era só uma menina o que todos viam.

    Se, por um lado, ser confundida com uma menina compensava seu complexo de estatura, por outro trazia um problema: nenhum homem a olhava como possível namorada ou esposa. Como formar uma família com uma mulher tão pequena? Tampouco o senhor Arturo, o dono da loja de antiguidades, dava atenção a ela, mais ocupado em limpar e lustrar as peças de metal dourado que adornavam sua vitrine. A senhorita Mariquinha passava horas na frente da loja observando como o senhor Arturo mimava os objetos, com que delicadeza os acariciava!

    Uma manhã, Mariquinha acordou decidida: era hora de empurrar o destino e mudar sua sorte. Marcou hora no cabeleireiro, na manicure e na maquiadora. Saiu do salão de beleza com os cabelos parecendo fios de ouro e os olhos como duas bolinhas azuis de gude. Foi para casa e tirou do armário o vestido rosa de tule. As sapatilhas de bailarina e um pequeno chapéu com fita lilás completaram o efeito que desejava: agora ninguém mais a confundiria com uma menina, nem o senhor Arturo. Todos teriam certeza de que se tratava de uma boneca, dessas de fina porcelana. Hoje o antiquário dedica horas de cuidado e carinho para a senhorita Mariquinha e a expõe na vitrine como a peça mais preciosa de sua loja.

  • Os labirintos da noite

    Com o tempo, minha mulher se acostumou com meu sonambulismo. A convivência tem dessas coisas, entre elas o dom de converter nossos atos mais estranhos em aborrecida rotina e agora, quando me levanto no meio da madrugada, ela não mais se incomoda e continua dormindo.

    Há algumas noites uma novidade se incorporou à minha mania de caminhar de olhos abertos, embora estivesse dormindo: o alcance da minha ronda. Antes restritos ao espaço da sala, cozinha e área de serviço, meus passos agora me levam para lugares um pouco mais distantes. Acontece assim: pego a chave, abro a porta da frente, cruzo o jardim e entro na casa vizinha. É uma casa exatamente igual à minha, por dentro e por fora. Na entrada, há o mesmo cabideiro onde costumo pendurar o casaco de inverno; na sala, o televisor ocupa lugar idêntico e na frente dele há a mesma poltrona de veludo marrom. Na parede da direita, a mesma reprodução de um quadro de Volpi e, sobre a mesa de jantar, idêntico vaso de gerânios vermelhos. Igual tapete cobre o chão do corredor. Na cozinha, os armários e utensílios como se fosse cópia. No dormitório, reconheço a mesma cabeceira da cama, em carvalho maciço, as duas mesinhas, uma em cada lado, e o abajur sobre elas. Um casal dorme tranquilamente, e noto como ela é bonita, tão bonita quanto minha mulher.

    Dando um longo suspiro, o homem se levanta dormindo de olhos abertos e, tão natural quanto o amanhecer ou o pôr do sol, caminha quarto afora. Ele passa por mim sem me notar. Eu ocupo seu lugar na cama junto à mulher adormecida. Ela cheira a alfazema. Vejo pela porta entreaberta que o homem atravessa o corredor, entra no escritório e começa a digitar velozmente no computador. A impressora faz barulho quando cospe as folhas, mas nem assim ele desperta. Em seguida, ouço que ele abre a porta da frente e sai para o jardim, carregando nas mãos um maço de papéis. Pela janela, vejo que ele entra em minha casa, cuja porta eu tinha deixado aberta. A mulher ao meu lado de repente acorda, me abraça e mostra que deseja fazer sexo. Fazemos, entre o cheiro de alfazema, o dos lençóis recém-lavados e o do nosso corpo quente.

    Quando acordo, percebo que estou em minha casa de novo, deitado em minha cama e com minha mulher ao lado. Não pergunto nada a ela, pois não quero saber. Levanto-me e olho para a casa vizinha: as cortinas ainda estão fechadas, o carro segue estacionado na garagem e o jardim, como sempre, com a grama aparada.

    Eu ainda não conheço nossos vizinhos. Enquanto tomava café, perguntei, sem olhar para a minha mulher, de maneira dissimulada, se ela os conhecia. Ela respondeu que só de vista, um “bom dia” e nada mais, e mudou de assunto. Terminei o café na mesa do meu escritório onde encontrei, ao lado do teclado do computador, e como em todas as manhãs, o novo capítulo impresso de um romance. E eu não sou escritor.

  • A loja de despedidas

    Na estação rodoviária da cidade, entre um quiosque que vende lembranças para turistas e uma lanchonete, há uma loja de despedidas. Ali, os viajantes solitários — aqueles seres que transitam de um lugar para outro sem que haja ninguém que se despeça deles — podem escolher a melhor forma de partir da cidade. Há despedidas para todos os gostos, ânimos e possibilidades financeiras. Os atores contratados pela loja, de todas as idades, são muito experientes e treinados nesse mister, e sabem demonstrar a dose exata de emoção que momentos como esses pedem.

    A um preço bem camarada pode-se comprar um aperto de mão, daqueles que acontecem entre dois conhecidos cordiais, pulso firme e olhos nos olhos. Ou então um abraço sincero de um amigo querido, de quem se sentirá muita saudade. Outra despedida bastante procurada é aquela que envolve a família toda, com direito a lágrimas e a recomendações como “ligue quando chegar lá” e “proteja-se do frio”. Esse tipo de despedida tem como bônus um abraço coletivo e emocionado entre pais, filhos, tios e sobrinhos do viajante.

    A despedida mais solicitada é, sem dúvida, a do beijo e abraço da namorada. É o produto mais caro da loja, mas os viajantes solitários não se importam com o preço. Acreditam que é um dinheiro bem gasto aspirar o perfume que sai dos cabelos da moça quando ela se aproxima sorrindo e de braços abertos. Sua voz sussurrada no ouvido do viajante, dizendo o quanto sentirá a falta dele, o quanto o ama e o quanto sofrerá com sua ausência, é música para quem está sozinho na rodoviária, cercado por desconhecidos. Por um pequeno valor adicional, o viajante poderá ainda desfrutar de uma caminhada de braços dados com a namorada pela plataforma, com direito a olhares de amor, carinhos no rosto e um último abraço apertado pouco antes do ônibus arrancar.

    A lembrança das despedidas compradas pelos viajantes solitários costuma acompanhá-los durante boa parte da viagem, confortando seu coração e seus pensamentos. Assim, fica um pouco menos dolorosa a sensação de exílio que experimentam a cada partida.

  • O magro, o gordo e o miúdo

    Os três dividiam a cela. Um era alto, magro de olhos pequenos e negros, outro era gordo e de corpo nervoso, o terceiro era miúdo e de pouco espírito. Foram condenados à morte por um tribunal improvisado. Isso era tudo o que sabiam a respeito de seu destino. Nem se preocuparam em ler a sentença, conteúdo já sabido pelos três. Também não lhes disseram quando seria a data fatal. Eles só esperavam, jogando baralho e alguma conversa fora. De vez em quando interrompiam o jogo e apuravam os ouvidos para escutar as vozes e os gritos vindos do pátio, e em seguida o barulho dos tiros. Assim que o silêncio se impunha, eles voltavam às cartas.

    Passou o tempo e a rotina da espera da morte entrou nos ossos dos três como uma febre que os deixava inquietos. Os nervos gritavam, e por pouco não chegaram às agressões físicas. Não seria bom para nenhum deles. Sossegavam depois de uns minutos e logo cada um ia para um canto. O gordo às vezes lambia o reboco da parede em busca de outro sabor que não o da comida rançosa que serviam ou da saliva grossa de tabaco que inundava sua língua. O miúdo estacionava os olhos no muro alto na frente da janela; tinha ouvido falar que um tal Leonardo da Vinci fazia isso quando precisava de inspiração: olhar para um ponto e deixar os olhos esquecidos lá até… O magro escrevia um romance; não num papel, que isso não tinha na cela, nem lápis ou caneta ou giz: escrevia na mente. Construía as frases com cuidado, corrigia, lia os parágrafos em voz alta, comentava o enredo com os companheiros, corrigia de novo. O romance progrediu junto com os dias e as horas e chegou a quase trezentas páginas, duzentas e oitenta e nove em conta certa, com espaço dois entre as linhas e fonte Times New Roman. Bem memorizado, uma noite o magro o leu de uma só vez para os outros dois, que gostaram muito da história.

    Mas que inferno se torna a vida quando a espera brinca com a exasperação! O magro, o mais sensato deles, propõe que os três leiam o livro que escreveu. Foi tanta leitura, que o gordo conseguiu memorizar todas as páginas. Fez correções e sugeriu alterações no rumo do enredo. O autor acatou e corrigiu o original. E teve uma ideia: se algum deles se salvasse da morte, deveria publicar o romance em papel. Os três concordaram que aquela era a melhor história que já tinham lido na vida, e o mundo merecia saber disso. O romance ficou ainda melhor com as leituras e correções seguintes, até o ponto em que, quando vieram buscá-los para a execução, nenhum deles duvidava de que se tratava de uma obra-prima.

    O primeiro a ser levado foi o magro, e era um dia de sol quente; bastou um tiro. Depois foi a vez do gordo, e no dia em que o mataram chovia; foram necessários dois tiros porque o corpo dele era grande e a gordura, espessa. O miúdo e de pouco espírito foi indultado. Saiu da prisão e foi para casa, onde ninguém o esperava. Não se lembrou do romance que o magro tinha escrito. Sua memória, tão rachada quanto o muro em que costumava deitar os olhos, nas longas horas dentro da cela, foi incapaz de reter todas as palavras, todos os parágrafos, todos os capítulos da história. Não se lembrava sequer do fio do enredo. Mas afirmava, para quem quisesse ouvir, que era uma obra-prima, o melhor romance que alguém já escrevera. E repete isso até hoje, trinta anos depois do tempo em que dividiu a cela com o magro de olhos pequenos e negros e com o gordo de corpo nervoso.

  • Morrer pela segunda vez

    Orfeu chorou tudo o que pôde quando Eurídice desceu ao mundo dos mortos. Suas lágrimas encheram oceanos até seus olhos ficarem secos. Vendo que o pranto havia desaparecido, e como forma de manter viva a memória da esposa a quem amava sobre todas as coisas vivas, passou a cantar. E viu que cantar era bom e que todos os que o ouviam se deleitavam. Os passantes, antes de tomarem o metrô, jogavam moedas e um sorriso para o músico maltrapilho sentado no chão na entrada da estação. Aplaudiam, pediam bis e ele cantava mais. A tristeza de Orfeu não tinha fim e sua voz não conhecia cansaço. Cantava dia e noite a ausência da mulher adorada.

    Com a força de sua canção, Orfeu decidiu buscar Eurídice no mundo das trevas. Manifestou o seu amor com todas as canções que conhecia, o peito repleto de agonia, tristeza e saudade. Hades, o poderoso deus do Reino dos Mortos, se comoveu:

    — Eu devolvo sua esposa ao mundo dos vivos com uma condição: que ela o siga pelos caminhos de volta à vida e você não olhe, nunca, para trás, até que ela esteja inteiramente sob a luz do sol. E também, sob hipótese alguma, nunca mais cante uma canção. Nenhuma canção. Jamais uma nota musical deverá sair de sua garganta enquanto houver sinal de alma em seu corpo. Caso contrário, você a perderá para sempre.

    Orfeu aceitou a condição. Tomou Eurídice pela mão e deram início à jornada de regresso ao mundo dos vivos, ele olhando para a frente, ela seguindo seus passos.

    (Não olhe para mim, Orfeu. Ouça minha voz, escute os meus passos, sinta as batidas do meu coração. Estou bem aqui, perto de você. Não olhe para trás. Não permita que eu morra pela segunda vez — suplicou Eurídice).

    Enquanto andavam, e já próximos da saída, iluminados por uma réstia do sol que brilhava lá fora, Orfeu se recordou de suas canções e do quanto elas agradavam a quem as ouvia. Lembrou-se dos aplausos e das esmolas que lhe davam. Sentiu saudade desse tempo. Percebeu que seria impossível viver sem cantar e sem plateia. E então, como quem sabe que tristeza não tem fim, com o coração doído e apertado, girou a cabeça para trás e olhou para Eurídice.

  • GUERNICA

    Um dia o azul desapareceu. Olhamos para o céu com cara de espanto. Alguém palpitou que uma tempestade se aproximava, mas aquele cinza parecido com aço sobre a cabeça de todos não tinha nada a ver com os temporais costumeiros do mês de abril. Era diferente. Havia um cheiro, um quê desconhecido que tornava aquele dia distinto. O amarelo também sumira. Ao anoitecer a luz acabou. Os namorados não se encontraram, as ruas ficaram vazias e o silêncio se impôs, tão duro que se podia cortar com faca. Nem carros, nem bulício, nem passos: a cidade estava muda.

    Pouco a pouco, como se fosse mágica, todos vimos o verde sumir diante de nossos olhos e até o carvalho milenar, parte inseparável de nossa paisagem diária, perdeu a pujança. Alguma coisa desconhecida sugou lentamente sua seiva, o tronco já apresentava rachaduras e a árvore imponente logo viria abaixo. Quase ninguém teve coragem de sair para a roça. Quem se atreveu, por força da rotina, regressou coberto de cinzas, como se um grande incêndio tivesse devastado o vale em que vivíamos.

    O choque foi maior quando percebemos que o vermelho também desaparecera e, incapazes de distinguir o sangue do barro, erguemos nossos punhos e gritamos com as gargantas cheias de poeira. O céu despencou com fúria, ferro e fogo sobre nossa cabeça.

    Na tela branca, Pablo desenhou formas delgadas, línguas apontando para o alto, corpos retorcidos em ângulos improváveis, animais em agonia, mães que choram. Foi o que ele viu. Em seus olhos nublados estava refletida a imagem de uma guerra em tenebroso preto e branco.

  • O grande acontecimento

    Ele tinha se tornado a principal atração daquela cidade à beira do mar. Quem lá fosse certamente ouviria na volta: “E aí, foi ver o…? O que achou?”, “Me conte, como é o…?”, “Não me diga que não foi ver o…!”. Era quase uma obrigação, para qualquer turista, visitar o… Ver o… era a revelação de um segredo, a que só pessoas especiais tinham acesso.

    No dia mesmo de minha chegada fui avisado pelo guia turístico de que naquela noite haveria o grande acontecimento: o… iria aparecer. Para vê-lo, eu deveria ir à praia junto com os demais visitantes. Estava já anoitecendo quando uma multidão, em silêncio, pisou a areia. Com devoção e seriedade, todos fixaram o olhar na espuma branca sobre a água escura. Ficamos ali, atentos por horas, esperando o surgimento do… Não se ouvia um pio nem se via movimento ou qualquer gesto de impaciência. Tínhamos todos o sentimento de que iríamos presenciar algo jamais visto. “O sublime”, alguém se atreveu a sussurrar. “A Pombagira, tenho certeza”, murmurou outro. “O enviado do céu”, choramingou a senhora de lenço na cabeça e terço na mão.

    A noite avançava e, quando já não se enxergava nada além da brancura das ondas, um homem saiu do mar. Surgiu da imensidão líquida, de onde não é possível que alguém surja. A água circundava sua cintura quando pudemos vê-lo com nitidez. Tinha barba, altura mediana e o olhar esgazeado, como se olhasse para tudo e nada visse. Chegou até o ponto onde o mar lambe a areia e se ajoelhou. Ergueu os olhos para o céu e assim ficou por muitos minutos. Depois baixou a cabeça e, tão lentamente quanto uma vaca se abaixa para abocanhar o capim, beijou a areia e em seguida escreveu algo com o dedo no chão molhado. Todos esticamos o pescoço para ver o que era, mas o mar foi mais rápido e apagou tudo. O homem virou-se de costas e, assim como veio, desapareceu na água escura sem que entendêssemos como.

    O mar voltou à mesmice de sempre e todos se levantaram e saíram da areia pensativos. Apenas eu permaneci lá, sob a lua, aguardando o grande acontecimento.

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar