Contos

As folhas mortas caídas no chão

Construí minha casa sob a copa generosa da maior árvore do terreno, bem junto ao tronco. Saboreei por antecipação a sombra refrescante que teria nos dias de calor e isso me deu grande alegria. Nivelei o chão, ergui as paredes, pintei tudo de branco. Estava muito bonita a minha casa, mas desde que me mudei não faço outra coisa a não ser varrer as folhas secas do assoalho. Esta é a lembrança mais antiga que tenho a partir do momento em que passei a habitar lá: vassoura na mão, tirava sacos e mais sacos cheios de folhas. A árvore soltava as folhas mortas e elas caíam diretamente sobre o meu chão. Então, eu tinha que varrê-las para fora e assim manter minha casa limpa.

A toda hora, fosse dia ou fosse noite, eu estava tirando folhas secas do assoalho, e percebi que esse trabalho não trazia o resultado esperado. Por mais que varresse, minutos depois havia novas folhas velhas sobre o chão. Isso demandava mais esforço de minha parte, mas cuidar da minha casa me fazia feliz.

Quando me casei, trouxe minha esposa para viver comigo em minha casa. Ela olhava com tristeza a minha obsessão por manter o chão limpo. Um dia, com delicadeza, apontou o dedo para o alto e me fez ver que minha casa não tinha teto, por isso as folhas secas caíam diretamente no assoalho, sempre mais e mais. Vi que ela tinha razão e coloquei telhas sobre as paredes. Hoje as folhas mortas não caem dentro de casa, mas não tenho a mesma alegria de tempos atrás, porque agora não sinto, como sentia antes, a sombra refrescante que a árvore me dava nos dias de calor.

Mário Baggio

Mário Baggio é jornalista e escritor. Nasceu em Ribeirão Claro-PR. Mora em São Paulo-SP desde os anos 70. Tem 7 livros de contos publicados: “A (extra)ordinária vida real” (2016), “A mãe e o filho da mãe (2017), “Espantos para uso diário” (2019), “Verás que tudo é mentira” (2020), “Antes de cair o pano” (2022), “A vida é uma palavra muito curta” (2024) e “Vozes para tímpanos mortos” (2025). Publicou contos em várias revistas eletrônicas (Germina, Gueto, Ruído Manifesto, Subversa, entre outras). Escreve semanalmente na revista Crônicas Cariocas. Participou da “Antologia Ruínas” (2020), “Tanto mar entre nós: diásporas” (2021), “Brevemente Infinito” (2024) e Antologia de Contos da UBE-União Brasileira de Escritores (2021 e 2023).

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