Contos

O VÔ ZÉ

Quando o vô Zé estava para morrer, pediu para sair de casa. Fraquinho, não parava em pé, mas quis por força sair no pomar.

– Eu quero abraçar as minhas árvores – disse.

Mal balbuciava as palavras, mas insistia:

– Eu plantei essas árvores. Vi crescer que nem minhas filhas. Eu quero abraçar minhas filhas pela última vez.

Tive que carregá-lo nos braços. Não aguentou abraçar mais que três árvores. Fez questão de abraçar a mangueira de manga-espada, no centro do pomar, a jaqueira e uma jabuticabeira do mato, enormes.

– Agora posso morrer quase feliz – disse, com os olhos marejados de lágrimas.

Não pudera sair até o pasto, abraçar a grande figueira e as paineiras com seus espinhos.

Pequenininho nos meus braços, segurando no meu pescoço, olhou o cafezal ao longe:

– Eu plantei cada uma dessas mudinhas. Elas falam comigo, me pedem a bênção.

Enxugando as lágrimas com a manga da camisa, ergueu o braço direito.

– Um pai que é pai conhece os seus filhos – concluiu, abençoando.

José Carlos Mendes Brandão

José Carlos Brandão nasceu em Dois Córregos, SP, em 28 de janeiro de 1947. Mora em Bauru. Em 2025 publicou “Matéria e memória”, que reúne sua poesia de 1975 a 2025, 9 livros publicados, mais 3 inéditos. Publicou também 2 livros de crônicas. Escreveu um romance, que permanece inédito, apesar de ter ganhado o Prêmio Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte, em 2000. Tem uma dezena de contos premiados em concursos e publicados em antologias. Escreveu ainda microcontos.

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