Mário Baggio

  • Aurora e o Sujeito Sentimental

    Arre, que não teve jeito! Nunca tem. Mente quem diz que tem.

    O chefe da Polícia Federal fala ao assistente sem tirar os olhos do cadáver esticado na cama do hospital, dentro de um saco grosso de plástico: Providencie o traslado do corpo do Pestana para Araraquara, a cidade dos pais, no interior de São Paulo. Já assinei o documento de autorização. O caso pra ele tá encerrado. Nós vamos continuar de onde ele parou. Ele trabalhou bem no começo, cagou no final. Otário!

    Quando não tinha mulher no meio, Pestana era ágil, resolvia tudo num dois por três. Levou poucos meses para investigar e explodir as entranhas do tráfico da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Rodou por Belo Horizonte, Recife, Cuiabá, São Paulo, Porto Alegre, eliminando as ramificações brasileiras dos traficantes de drogas. Morava mais em avião do que na própria casa. Trabalhou com eficiência. Era quase invisível e conseguiu se infiltrar. Tudo fácil, até que ela apareceu, presa por um colega policial. Ruiva, cabeleira ondulada igual à personagem do gibi, era um espécie de chefe de uma gangue obscura do Rio de Janeiro. Obscura sim, mas que vinha dando trabalho para a polícia: assassinatos, assaltos, conluio com a milícia, submissão de moradores das favelas cariocas. Pestana percebeu o tipo, a malemolência, a malícia. A boca. O olhar. O cheiro. Tinha um nome matador — Aurora —, que nunca mais sairia de sua cabeça. Soube que estava perdido assim que a viu. Ela prestou depoimento e o encarou como se perfurasse sua alma. Foi dispensada por falta de provas. Pestana se rendeu, agiu como um idiota. Ruiva esperta e dissimulada, deslizava feito bagre. Sempre tinha álibi. Nunca se deixou vincular com o tráfico, mas estava sempre por perto, pairando, rondando. Uma sombra difícil de agarrar.

    Desbaratada a rede brasileira, foi a vez de investigar o braço internacional. Barcelona, Lisboa, Zurique, Londres. A sombra da ruiva também estava espalhada por lá, a gangue crescia com rapidez. Pestana seguiu pistas, conferiu informações, foi atrás de supostos cúmplices na Europa. Nenhuma prova ainda que incriminasse Aurora, a cachorra sabia como escapar.

    Foram para a cama em Londres, no apartamento que ela tinha lá. Pestana sabia onde estava se metendo, mas não conseguia evitar. No sexo era Aurora quem dominava, ele obedecia, fascinado por aquela mulher perigosa que poderia matá-lo sem pensar muito. Ela gostava de ficar por cima. Abria as pernas sobre o corpo esticado dele e o olhava nos olhos. Ordenava: Quero uma enfiada só, de uma vez, ouviu? E ia se abaixando devagarinho, ficando de cócoras sobre o pau em riste. Dava um tranco rápido com as nádegas e se acomodava gostosamente, as pernas ao redor da cintura do policial e o membro dele inteiro dentro dela. Mexia os quadris como profissional experiente, devagar primeiro, acelerando o ritmo aos poucos e apertando e puxando para cima o bico dos seios. Isso deixava Pestana louco e ele tinha que se segurar para não gozar de imediato. Quando se separavam, cada um num lado da cama, suados e vazios, ele gastava minutos olhando a barriga redonda de Aurora, que subia e descia em movimento uniforme. Naquela noite, assim que ela se levantou para ir ao banheiro se lavar, Pestana grampeou o telefone do quarto. Cadela, que pena, agora te peguei, pensou o investigador. Não pegou. No dia seguinte ela descobriu o grampo, desativou a armadilha, pintou o cabelo de preto e sumiu. Semanas sem saber dela, Pestana quase enlouqueceu.

    Em Barcelona, pensou tê-la visto na rua. Não era, mas podia ser. Foi pra cama com a desconhecida e percebeu que não era mesmo a outra: não tinha o piercing no clitóris, nem o anjinho tatuado na nádega esquerda, nem gritou Drácula! na hora de gozar. Deu dinheiro e dispensou a falsa.

    Andou um tempo com medo. A Europa amedrontava, tinha a barreira da língua, o frio que endurecia os ossos, a comida que parecia cimento e ninguém em quem confiar. E a solidão, essa cachorra! E a cachorra da Aurora, que tinha sumido como fumaça? Estava desolado. Queria voltar e se torrar sob o sol do Leblon. Recebeu notícia do chefe: Aurora tinha sido vista num inferninho em Copacabana. A ordem foi que voltasse correndo. Pestana tomou o primeiro avião. De novo no Rio, recomeçou a perseguição. Maré, Rocinha, Alemão, Cidade de Deus, um sabonete chamado Aurora fazia muita espuma e desaparecia como se nunca tivesse existido.

    Até que um dia seus olhares se cruzaram de novo, e aquela foi a penúltima vez. A polícia foi avisada por um delator, vários investigadores deram flagrante, chamaram a televisão e os jornais: a ruiva, dólares e euros em dinheiro vivo, carregamento pesado de drogas, todos presos, ela também. Pestana pôs as algemas olhando para ela direto nos olhos. Quinze anos no xilindró, quando sair vai estar velha, gasta. Pena. Assim que a poeira baixou, Pestana foi para casa descansar, dormir e tentar esquecer.

    Com a ajuda de um rábula vesgo e corrupto, a ruiva conseguiu habeas corpus e, de novo na rua, foi cobrar o prejuízo. Soube que uma noite o Pestana estava bebendo no Golden Duck, em Copa. Ele ainda não estava completamente bêbado quando ela entrou e o encarou. Essa, sim, foi a última vez que cruzaram os olhares. Ela sorriu, se aproximou, colou o corpo no dele e o beijou na boca. Disparou cinco vezes com a automática silenciada enquanto o beijava. Saiu da boate sem ninguém impedir ou entender como, protegida por seus capangas.

    Pestana respirou uns dias por uma máquina. As agulhas nas veias providenciaram alimento e sobrevivência. Quis morrer, não agonizar. Quis morrer com a ruiva mordendo seus lábios, balançando a cabeleira como a moça do gibi. Morreu sem isso.

    O chefe da Polícia Federal entrega o documento ao assistente, autorizando o traslado do corpo. O Pestana disse que queria ser enterrado ao lado do papai e da mamãe dele. Coisa de sujeito sentimental. Otário! Despacha o corpo pra lá, anda. Alguma pista da cachorra da Aurora?

  • A vida dos outros

    Quando Januária, a empregada, entrou na sala e anunciou que a comida estava na mesa, ele, o vizinho do prédio em frente ao nosso, continuava na mesma posição e nada tinha mudado desde a manhã: só de cueca, sentado numa cadeira frente a um grande espelho, a arma apontada para o lado direito da cabeça. Não se decidia. Às vezes depositava a arma sobre a escrivaninha e dava passos nervosos na sala, a cabeça entre as mãos. Em seguida sentava-se novamente, olhava-se no espelho e apontava a arma mais uma vez para a têmpora direita. Passou assim a tarde toda, foi o que disseram meu pai e minha mãe quando voltei do trabalho e os guardei espiando a vida alheia.

    Atrás da cortina semicerrada da sala de jantar, meu pai disputava com minha mãe o melhor ângulo para observar a cena. Ela dizia que sim, que era uma questão de minutos e logo se ouviria o disparo e a polícia não tardaria a chegar. Ele apostava que não, aquele homem não teria coragem para ir até o fim.

    Depois de muitas horas de espera e, vendo que o vizinho não dava sinais de que iria resolver a questão de uma vez por todas, fecharam a cortina e foram jantar. Venha, Aparício, enquanto a comida está quente. Comida fria é um horror, disse minha mãe. Eu já tinha jantado e, à falta de algo mais interessante para fazer, liguei a televisão para ver a telenovela.

  • Foi assim que tudo começou

    No primeiro dia, vassoura na mão, limpou a casa, caiou as paredes, pendurou as cortinas, distribuiu os móveis, arrumou os livros, pintou o número na porta, colocou o tapete, forrou o sofá e viu que tudo isso era bom.

    No segundo dia estendeu os fios elétricos, instalou interruptores novos e brilhantes e, quando os ligou, viu que a luz se fazia clara, forte, iluminando tudo, criando sombras nas paredes brancas, e viu que isso também era muito bom.

    No terceiro dia cimentou os encanamentos, trouxe água da nascente do rio e, concluído o trabalho, abriu as torneiras e a água jorrou límpida, cristalina, ainda fresca da fonte, o que o fez sorrir, pensando que isso também era bom, mais do que bom, era ótimo.

    No quarto dia comprou um aquário com peixinhos coloridos, uma gaiola com dois canários cantores e diversos vasos com flores, que distribuiu pela casa e, vendo os peixinhos, ouvindo os canários, sentindo o perfume das flores, ficou feliz, pois concluiu que tudo isso era muito bom, e como era!

    No quinto dia banhou-se na água do chuveiro recém-instalado, barbeou-se, vestiu roupas novas, olhou-se no espelho e viu-se solitário na casa que construíra com tanto capricho. Pensou que precisava de uma companheira e saiu batendo de casa em casa, até que encontrou uma moça modesta e simples que aceitou dividir com ele a casa, os canários, as flores, a água e a luz, e ele sorriu feliz, pois viu que isso era maravilhoso.

    No sexto dia acordou ao lado da companheira, desembaraçou-lhes os cabelos, deu-lhe banho, perfumou-a e a amou, e desse amor nasceram muitos filhos e esses filhos tiveram filhos, de modo que a casa ficou cheia de vida, de risos e alegrias. Todos ficaram felizes, porque viram que tudo isso era muito bom.

    No sétimo dia, cumpridas todas as tarefas, reuniu a família, dividiu o pão do celeiro e o vinho da adega, beijou um a um os filhos e netos, sorriu para a companheira e, sem outro aviso, deitou para descansar e nunca mais acordou. Quem ficou achou que isso também foi muito bom, foi boníssimo.

  • Os olhos e o sorriso dela

    Existiu há muito tempo um homem que dedicou sua vida a estudar o sorriso mais famoso do mundo. Enigmático, indecifrável, dissimulado, insolente — ele jamais admitiu esses adjetivos para descrever o que chamava de “o mais belo ricto da história da espécie humana”. Para ele, ali havia muito mais que um simples contrair e curvar de lábios: havia um segredo, e qual seria? Estudava, estudava. Um dia chegaria a saber.

    Já velho, o homem quase abandonou suas investigações não fosse a descoberta de um fato que mudou tudo: o artista não pintara no rosto da mulher nenhum sorriso. De seu pincel brotara apenas uma face sombria, com olhos da cor de amêndoas maduras em tempo de colheita. Eram esses olhos que seduziam o observador, que, ao admirar o retrato e sentir o despertar do desejo, sorria primeiro. Ela, senhora de si, se tivesse vontade, sorria depois.

  • Memória para último uso

    No dia de seu aniversário de oitenta e cinco anos, ele saiu de casa pela primeira vez depois do longo período em que seus passos só conheceram o caminho entre o quarto, o banheiro e a cozinha. Era outono e fazia frio, e sua garganta rascava. Com esforço, chegou até o banco costumeiro, na avenida diante do mar. Por sorte estava vazio e era disso que precisava: ninguém por perto, nenhuma presença que o incomodasse, nenhum olhar curioso sobre a sua pessoa. Soltou o corpo sobre o assento e tirou o chapéu. Estava cansado. Tossiu e levou a mão à garganta, identificando o incômodo. Passou os dedos pelas tábuas do banco, acariciou os nós da madeira e depois perdeu o olhar na imensidão que tinha à frente. “Este banco é mais confortável que o anterior, de pedra. Mas o mar continua o mesmo de sempre, traiçoeiro.” Olhou as ondas e sua mesmice. Fechou os olhos e respirou devagarinho.

    Quando levantou as pálpebras instantes depois, viu-se com dez anos sentado na areia, fazendo castelos com dois amigos. Em seguida tinha vinte anos e sentiu nos lábios sabores novos: a primeira taça de vinho tinto, o beijo de Marilda, o sangue que a bofetada de seu pai produziu.

    Continuou olhando o mar e apreciando as imagens que passavam diante de seus olhos: a trincheira durante a guerra, a dor, o companheiro que pisou numa mina e perdeu uma perna, a fome, o rádio, as cartas de Marilda, o frio, o cheiro de pão fresco, as fotografias, o casamento, o sorriso de Marilda, o trigo queimado, os filhos, a cidade, a televisão, o trem, o trabalho, a casa que tinha construído à custa de dinheiro poupado por anos, a ausência de Marilda, a solidão, o abandono, o esquecimento, o banco de madeira que antes era de pedra, o mar, a areia, uma lágrima, um sorriso — tudo o que acreditava perdido, até aquele momento, nalgum escaninho da memória. Aprendeu, sentado naquele banco, a abrir os olhos sem medo, a fechá-los sem culpa e a tranquilamente dizer adeus a tudo.

    Certas memórias doem e não cicatrizam. Em vez de obscurecerem com o passar do tempo, como acontece com lembranças desimportantes, elas, pelo contrário, permanecem, fazendo apenas as outras desaparecerem. Essas memórias escurecem como lampadinhas enfileiradas que se apagam uma a uma, lentamente, desafiando a capacidade humana de lembrar. Gritam para continuarem vivas.

    Ciente de que não sabia nadar, caminhou devagarinho na direção da água.

  • Os labirintos da noite

    Com o tempo, minha mulher se acostumou com meu sonambulismo. A convivência tem dessas coisas, entre elas o dom de converter nossos atos mais estranhos em aborrecida rotina e agora, quando me levanto no meio da madrugada, ela não mais se incomoda e continua dormindo.

    Há algumas noites uma novidade se incorporou à minha mania de caminhar de olhos abertos, embora estivesse dormindo: o alcance da minha ronda. Antes restritos ao espaço da sala, cozinha e área de serviço, meus passos agora me levam para lugares um pouco mais distantes. Acontece assim: pego a chave, abro a porta da frente, cruzo o jardim e entro na casa vizinha. É uma casa exatamente igual à minha, por dentro e por fora. Na entrada, há o mesmo cabideiro onde costumo pendurar o casaco de inverno; na sala, o televisor ocupa lugar idêntico e na frente dele há a mesma poltrona de veludo marrom. Na parede da direita, a mesma reprodução de um quadro de Volpi e, sobre a mesa de jantar, idêntico vaso de gerânios vermelhos. Igual tapete cobre o chão do corredor. Na cozinha, os armários e utensílios como se fosse cópia. No dormitório, reconheço a mesma cabeceira da cama, em carvalho maciço, as duas mesinhas, uma em cada lado, e o abajur sobre elas. Um casal dorme tranquilamente, e noto como ela é bonita, tão bonita quanto minha mulher.

    Dando um longo suspiro, o homem se levanta dormindo de olhos abertos e, tão natural quanto o amanhecer ou o pôr do sol, caminha quarto afora. Ele passa por mim sem me notar. Eu ocupo seu lugar na cama junto à mulher adormecida. Ela cheira a alfazema. Vejo pela porta entreaberta que o homem atravessa o corredor, entra no escritório e começa a digitar velozmente no computador. A impressora faz barulho quando cospe as folhas, mas nem assim ele desperta. Em seguida, ouço que ele abre a porta da frente e sai para o jardim, carregando nas mãos um maço de papéis. Pela janela, vejo que ele entra em minha casa, cuja porta eu tinha deixado aberta. A mulher ao meu lado de repente acorda, me abraça e mostra que deseja fazer sexo. Fazemos, entre o cheiro de alfazema, o dos lençóis recém-lavados e o do nosso corpo quente.

    Quando acordo, percebo que estou em minha casa de novo, deitado em minha cama e com minha mulher ao lado. Não pergunto nada a ela, pois não quero saber. Levanto-me e olho para a casa vizinha: as cortinas ainda estão fechadas, o carro segue estacionado na garagem e o jardim, como sempre, com a grama aparada.

    Eu ainda não conheço nossos vizinhos. Enquanto tomava café, perguntei, sem olhar para a minha mulher, de maneira dissimulada, se ela os conhecia. Ela respondeu que só de vista, um “bom dia” e nada mais, e mudou de assunto. Terminei o café na mesa do meu escritório onde encontrei, ao lado do teclado do computador, e como em todas as manhãs, o novo capítulo impresso de um romance. E eu não sou escritor.

  • STRIPTEASE

    De longe só se vê que há luz no quarto, mas pouco se distingue o que acontece lá dentro. Com meu binóculo, escondido atrás da cortina no apartamento do prédio em frente, tenho visão privilegiada e posso ver tudo com detalhe. Posso vê-la tirar a roupa, por exemplo. Como agora. Ela acabou de entrar no quarto. Jogou a echarpe no chão e sentou-se na borda da cama para tirar os sapatos de salto. Joga-os num canto. Começa a desabotoar a blusa. Noto que está um pouco mais cansada que o habitual, as rugas da testa estão mais acentuadas e as olheiras, mais fundas. Imagino o dia puxado de trabalho que ela teve e me comovo.

    Agora de pé, abre o zíper da saia e a deixa cair até os tornozelos. Com um movimento da perna direita, joga a peça em cima da cama. Vai de um lado ao outro do quarto, olhando em volta, como se procurasse algo. Para e inclina-se para tirar a meia-calça, que larga no chão. Assim, de blusa e calcinha, descalça, solta o coque e balança a cabeça enquanto os cabelos lhe cobrem as costas. Parece que encontrou o que buscava. Acende o cigarro e fuma na frente da janela, olhando o movimento da rua.

    Volta para dentro do quarto e apaga o cigarro no cinzeiro da mesinha de cabeceira. Retoma o ritual de desnudamento. Tira as rugas, aquelas que ainda povoam seu rosto, resistindo ao creme hidratante. Arranca também as manchas dos braços e as olheiras escuras que lhe dão penumbra nos olhos. Desfaz-se completamente das varizes e estrias das coxas e panturrilhas. Respira fundo como se tomasse coragem e puxa de uma só vez a cicatriz da cesariana. Aos tufos e com movimentos bruscos das mãos, livra a cabeça dos indesejados cabelos brancos que envelhecem a moldura de seu rosto. Olha-se de costas no espelho grande da penteadeira e arranca de uma vez a gordura acumulada nas nádegas. Agora de frente, elimina por completo, com a ajuda de uma esponja, o olhar sombrio que tinha até então. Por último, esfrega os seios e o sexo, empurrando para o chão todos os homens que escreveram a história do seu corpo.

    Completamente nua, o olhar sereno, fecha as cortinas e apaga a luz.

  • O que acontece dentro de casa

    O que acontece dentro de casa deve ficar dentro de casa, eu acho. É assim que eu penso, e por isso nunca o denunciei. Minhas amigas sempre me diziam que era o que eu devia ter feito desde o início, mas, o senhor há de compreender, a gente nunca quer que as pessoas saibam o que acontece entre as quatro paredes de um lar. A vergonha me paralisava e eu ficava quieta como um caramujo dentro da concha, e ele se sentia livre para fazer o que quisesse. Eu chorava quando ele saía para a rua.

    Antes era diferente: ele não me batia. Soltava palavrões, me insultava, quebrava as coisas que estivessem perto. Eu me escondia atrás da porta da cozinha e ele descontava sua fúria na madeira. Está vendo essas rachaduras aqui?

    As humilhações foram só o começo de tudo. Um dia ele rasgou minha roupa e me fez desfilar nua pela casa, tocando meus órgãos genitais. Fez com que eu me masturbasse na frente de um espelho enquanto ele bebia e gargalhava.

    Na primeira surra ele quebrou meu maxilar com o punho fechado. Perdi dois dentes e ganhei essa cicatriz aqui no queixo, está vendo? No hospital, ele me pediu perdão e disse que isso nunca mais iria acontecer. Mentira. Aconteceu sim, muitas vezes depois.

    Até que um dia eu apontei a espingarda na direção dele, e ele não conseguiu esconder o espanto. Parou e levantou os braços. E sorriu. Sim, senhor, ele sorriu. As últimas palavras que me disse foram: Você não tem força nessa boceta para apertar o gatilho, mamãezinha!

  • O SACRIFÍCIO

    Dinah, nascida da mãe de Caim e Abel, era irmã desses dois. Irmã legítima, de mesmo sangue, mas diferente pelos músculos menores, pelas tetas, pelas pernas roliças. Diferente também por dentro: tinha útero. Olhavam-na. A mãe: “É uma mulher como eu, quando chegar o dia certo vai sangrar no meio das pernas.” O pai: “Não tem força pra me ajudar na lavoura, não serve de muita coisa.” E os irmãos: “É como uma ovelha, só que maior; quando chegar a hora, Deus se agradará de uma oferta assim gorda.”

    Tempos mais tarde, a família colocou Dinah na frente da pedra do sacrifício. A mãe cobriu o rosto com as mãos. O pai cuidou de despir as roupas da filha, cobrindo sua nudez com um mínimo de panos. Os irmãos tratavam de avivar as chamas do carvão. O fogo estalava. Antes de tudo, oraram de olhos fechados, braços abertos e dirigidos para o alto.

    Ouve-nos, Deus!
    Olha-nos, Deus!
    Aceita esta oferta, Deus!
    Abençoa-nos, Deus!

    O sol do meio do dia é inclemente e queima tanto quanto o fogo. A medula de Dinah começa a derreter. Um espanto: acima dos músculos dilacerados, bem acima das tetas inchadas, no fim do labirinto do útero, Dinah tinha uma cabeça. E olhos, e boca, e ouvidos. Como num riscar de pedras, como numa faísca, naquele instante antes do fim, Deus, pela primeira vez, lhe dirigiu a palavra e, pela primeira vez disposto a ouvir uma mulher, perguntou-lhe algo.

    Antes de ser consumida pelo fogo, Dinah respondeu.

    Deus não ouviu.


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