Contos

Enquete

Poucas horas após minha morte, recebi por e-mail uma mensagem que pedia minha opinião sobre o que era a vida, já que eu tinha acabado de sair dela. Quando estava vivo, costumava receber esse tipo de pesquisa eletrônica, completamente desimportante para mim. Eram perguntas sobre o último hotel onde tinha me hospedado poucos dias antes, ou sobre um restaurante que descobrira num bairro distante. Nunca me dei ao trabalho de responder, e não seria agora, já convertido em defunto e com meu corpo se decompondo lentamente, que faria isso.

Mesmo assim, dei uma olhada rápida, aproveitando que o celular ainda estava funcionando. A pesquisa era bem completa, como era de se esperar, e perguntava sobre o meu grau de satisfação — nota de zero a cinco — sobre aspectos relacionados com minha saúde, a idade que consegui atingir, os sonhos realizados, as metas cumpridas, os objetivos alcançados, os fracassos, as decepções, as ilusões perdidas. E deixava um espaço em branco para que eu escrevesse um comentário sobre minha passagem por este mundo a fim de contribuir, de alguma forma, para melhorar as condições dos últimos dias para os futuros defuntos. Havia também, claro, a indefectível pergunta: eu recomendaria essa experiência de sair do corpo físico a meus amigos e familiares?

Como disse anteriormente, eu não estava em situação de atender a todas essas questões, nem mesmo a troco dos valiosos prêmios aos quais, a pesquisa dizia, eu poderia concorrer ainda que estivesse morto (não entendi a que prêmios eu estaria apto). E, por mais que tivesse tentado de todas as maneiras, não consegui cancelar meu endereço de e-mail. Por isso é que agora, anos mais tarde, quando de mim não resta nem o pó de que fui feito, continuo atualizado com as últimas novidades e promoções das empresas.

Mário Baggio

Mário Baggio é jornalista e escritor. Nasceu em Ribeirão Claro-PR. Mora em São Paulo-SP desde os anos 70. Tem 7 livros de contos publicados: “A (extra)ordinária vida real” (2016), “A mãe e o filho da mãe (2017), “Espantos para uso diário” (2019), “Verás que tudo é mentira” (2020), “Antes de cair o pano” (2022), “A vida é uma palavra muito curta” (2024) e “Vozes para tímpanos mortos” (2025). Publicou contos em várias revistas eletrônicas (Germina, Gueto, Ruído Manifesto, Subversa, entre outras). Escreve semanalmente na revista Crônicas Cariocas. Participou da “Antologia Ruínas” (2020), “Tanto mar entre nós: diásporas” (2021), “Brevemente Infinito” (2024) e Antologia de Contos da UBE-União Brasileira de Escritores (2021 e 2023).

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