Contos

LAR

Gilda não me dá descanso. Diz que aposentadoria não é meio de vida. “Homem aposentado é bom para não prestar”. Raro me deixa visitar os amigos, porque preciso, prioritariamente, e diuturnamente, faxinar, lavar as roupas (até dos netos), lavar a louça e arrumar o guarda-roupa. Não acho que homem deve estar em pedestal, imune aos trabalhos domésticos. Mas parece que ela quer me penalizar, por ter sido a vida inteira dona de casa profissional. Às vezes acho que ela não sabe o que fazer com um homem dentro de casa (nunca passei tanto tempo assim). Na pandemia, também, ela me botava moral, para fazer comida e o escambau. Além do medo insuportável da doença fatal, eu tinha de lidar com os melindres de Gilda. Foi, sem dúvida, a pior fase da minha vida, e a suportei porque tinha a mulher amada ao lado, apesar dos pesares. Sei que ela está farta da vida doméstica. Passa o tempo a reclamar das roupas “mal” lavadas, das mal-arrumações. “Que servicinho porco é esse, Sr. Genival?”. São quarenta anos de casados, dos quais noventa por cento ela se dedicou à casa e ao cuidado com as crianças. Gilda é um trator, mas da década de sessenta, já surrado, perto de virar sucata, quem sabe. Ela é mandona, mas não me incomodo com isso, porque aprendeu, com as adversidades, a ser assim, não é por mal. Trabalhou duro com o pai na lavoura, em Santa Quitéria. Eu a vi aí, linda, e esplêndida, e resolvi roubá-la, para, inclusive, lhe dar uma vida melhor. Ela cuida de casa, mas sempre teve o apoio de Lourdes, que ajuda nas tarefas domésticas – mas Gilda quer que eu faça isso e aquilo, para não “enferrujar”, não ficar “tantã”. Sou apaixonado por Gilda, e desde que me entendo por gente vivi com ela, nos casamos muito jovens. Logo arrumei um trabalho na metalúrgica e fiquei por longos trinta e cinco anos. Criamos três lindos filhos, educados, estudiosos. Marcílio, o mais velho, é médico cardiologista. Ludmila é arquiteta. Ferdinando é cirurgião-dentista. Gilda botou quente na criação. Até achei, por muitas vezes, que ela exagerava na dose. Devo a ela o rigor e a postura. Sempre fui um pai ameno, talvez tenha atrapalhado mais do que ajudado. Mas, enfim, tudo se resolveu. A minha queixa, para terminar, é somente ter um dia inteiro de descanso. Gilda não permite. Não pode me ver deitado na rede, depois do almoço, que logo arranja um serviço. Até curso de “marido de aluguel” fui forçado a fazer, com todas as limitações da idade. Ela não quer saber, deseja um trator velho de companhia. Vai ver que isso vem de algum trauma, dos tempos da brutalidade na roça, cuidando de mãe doente e tudo mais. Tenho orgulho da minha guerreira. Não vou mais tentar me livrar ou explicar os fatos. Se eu a amo, tem de ser assim. Que seja, para o bem dos que se amam.

Adriano Espíndola Santos

Adriano Espíndola Santos é autor de “O sussurro cálido da negação”, “Flor no caos”, “Contículos de dores refratárias”, “o ano em que tudo começou”, “Em mim, a clausura e o motim”, “Não há de quê”, “Amparo secreto”, “Viver morrendo” e “Arraia-ralé”. Advogado. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. instagram.com/adrianobespindolasantos/ e escreve no Crônicas Cariocas às sextas-feiras.

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