
Serena
Serena entrou no meu mundo por acaso – se é que posso acreditar em acaso; não estou tão seguro assim. Eu não pretendia adotar, essa era uma máxima que construía na minha cabeça pelo fato de ter um primo adotado que sofreu com vários transtornos por não o aceitar. Wilson, o nome dele, tentou se matar umas duas vezes, mesmo recebendo o apoio dos meus tios para tudo. Ele era depressivo em grau máximo e bipolar. Mas isso agora não vem ao caso… Voltemos: desde muito cedo, queria ter a minha família, com filhos biológicos. Mas Nazaré apareceu. Ela veio trabalhar em casa, recém-chegada do interior, e nós não sabíamos que ela estava grávida. Ela escondeu até onde pôde, mas logo começaram os enjoos, e Nazaré, revoltada com o pai da criança que esperava, dizia que iria abortar. Flávia e eu não deixamos. Foi um deus nos acuda, porque Nazaré falava que não queria ser mãe aos dezessete anos; que sabia da vida difícil que levara, com oito irmãos, no interior; que mulher parida é desprestigiada pela sociedade, como sendo mulher da vida ou algo do tipo. Ficávamos no seu pé todos os dias, convencendo-a de que uma criança é uma dádiva, uma bênção, com todos os argumentos que tínhamos. Foi difícil, quase impossível de segurar a revolta da mãe. Então, me prontifiquei a ficar com Serena – o nome que escolhemos; já um prognóstico para serenar as nossas vidas, tão agitadas –, disse a ela que a menina seria muito bem-criada, teria, certamente, uma vida bem diferente da que Nazaré teve. Nazaré aceitou a proposta, sempre reclamando por estar grávida, pelo peso e tudo o mais para fazer as tarefas de casa, das quais a dispensamos. Veio a sua irmã Lucila para ajudar nos afazeres domésticos. Serena nasceu, e, como esperado, foi enjeitada pela mãe; sequer recebeu a primeira amamentação. Logo, Flávia e eu a pegamos para criar, nos idos de 80, e registramos como nossa filha, com o inteiro consentimento da mãe – o que se chama de adoção à brasileira. Não havia essa burocracia que há hoje. Serena caiu perfeitamente em nossos braços, arrebatados que estávamos por sermos pais. Depois de Serena, felizmente Flávia engravidou duas vezes, e tivemos Serginho e Paulo Filho. A família estava completa. Nazaré continuou conosco e passou a ter uma relação melhor com a filha biológica, ainda que não quisesse ter as responsabilidades de mãe. Nazaré marcava uma diferença grande na relação com a pequena, que a amava. Serena hoje só nos dá orgulho: é formada em engenharia pelo ITA e trabalha num centro de tecnologia em Orlando. De seis em seis meses, ou ela vem nos visitar, ou vamos vê-la. O amor é infinito; não cabe no peito e no pensamento. Ela é minha princesa e meu encantamento. Nasceu justamente para ser a nossa filha amada.























