Contos

Dona ÚRSULA não pode reclamar

Recostada em minha poltrona, reflito sobre a vida. Não pode ser somente coincidência: de uns tempos para cá, sinto que tudo dá errado. Um acúmulo de desencontros e aporrinhações.

Olho pela janela e vejo a mesma paisagem. Amanhã, o sol nascerá de novo para repetir o mesmo espetáculo. O marasmo impera. Tem tempo que não faço uma viagem. Tem tempo que não faço nenhuma loucura. Porra nenhuma.

Por que resolvi eu mesma tingir os fios brancos do cabelo? Resultado: três cores distintas, um arco-íris brega na cabeça. Fiz tudo para melhorar a aparência. Preenchimento labial, laser para manchas do rosto, lifting, rejuvenescimento profundo, toxina botulínica e o escambau. Para, no final, ver meu último namorado sumir sem deixar rastros. O miserável nem reconheceu meu esforço. Dá no mesmo, ele não valia nada. Nem como passatempo. Com ele, o tempo demorava a passar. Sujeito chato.

E a maldita rotina doméstica? Um dia me rebelo. Não vou fazer faxina, vou deixar a casa apodrecer, tomada de pó, louça suja na pia, plantas por regar, paredes por pintar, roupas para lavar, roupa de cama para tirar. Tédio.

Para piorar, agora a incontinência urinária. Toda vez que rio muito, me mijo toda. Vivo com absorventes na bolsa. Um inferno. Menos mal que, ultimamente, está difícil dar uma boa risada. São os percalços da terceira idade. Paciência. Para isso tomo creatina, evito enlatados e me encho de ansiolíticos.

A dermatologista alertou sobre o sol: Dona Úrsula, cuidado com o câncer de pele. Pareço um pote de creme ambulante. Parei de fumar e não sei por que ainda continuo tossindo. Já estou sentindo o nariz entupido. Nunca perdi as campanhas de vacinação. Volta e meia sofro reação à vacina. O certo é que, prevenida ou não, vivo gripada. E o plano de saúde não para de encarecer. O preço dos remédios? Pela hora da morte. Por isso tantas drogarias pela cidade. Lucro certo.

Admito sofrer de transtorno de humor. Bipolar, mesmo. Culpa da menopausa e das malditas ondas de calor pelo corpo. A pipoca mais cara que o cinema, o metrô lotado, as agências bancárias sumindo, o mar poluído, meu time na zona de rebaixamento, as ruas e os bairros inseguros, a cidade toda insegura. Quando vou caminhar, levo xerox dos documentos e deixo os originais em casa. Já me roubaram o celular duas vezes. Na primeira nem vi, e na segunda, me tomaram com um empurrão. Ainda me deram um chute quando estava caída. Fiquei toda roxa, hematomas diversos, suspeitei de trombose.

Estou um pouco acima do peso. Na realidade, bem acima. Gorda e cevada. Daqui a pouco, obesa mórbida, com certeza. Adoro comer pão, macarrão, nhoque, lasanha e empada. Com certeza a razão de meu Índice de Massa Corporal ter só massa. O médico me aconselhou a fazer exercícios. Correr, o joelho me impede, andar na esteira me aflige. Vejo-me como um hamster em fuga contínua. Bicicleta, nem cogitar. Não sou louca de encarar o trânsito. Desisti da hidroginástica. No começo fui bem, mas a visão dantesca das pessoas caindo aos pedaços, de touca e se mexendo na água como tartarugas provectas, me causava profunda depressão. Abandonei as aulas quando uma senhora entrou na piscina de bengala.

Se sou uma mulher que reclama e exige as coisas, me taxam de desatinada e inconformada. As amigas comentam que tenho temperamento forte. Por trás, sou Úrsula, a perua maluca.

É preciso coragem e certa teimosia para seguir adiante. Enfrentar as frustrações ajuda a repensar a vida. Podia ser pior. Na hora parece que o mundo vai acabar, depois a gente descobre que o mundo é uma bosta. Não vou me desesperar: ainda tenho tevê por assinatura, um garoto lindo que mora em frente e vive pelado, contas de luz e gás pagas, o sol da manhã, o George Clooney, discos de jazz, bingo aos sábados, nenhum ex-marido a encher o saco, livros, alguns sonhos e meu travesseiro.

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Márcio Paschoal

Marcio Paschoal nasceu no Rio de Janeiro, onde também se formou em Economia. Escritor e redator de longa estrada, construiu uma obra diversa, com mais de dez livros publicados entre romances, crônicas, ensaios e literatura infantil. Trabalhou na Fundação Getúlio Vargas, no Cederj (Centro de Ensino Universitário a Distância), e colaborou com o Jornal do Brasil, escrevendo sobre música e literatura. Entre seus romances estão Sofá branco — menção honrosa no Prêmio Graciliano Ramos e pré-selecionado para o Prêmio Nestlé de Literatura —, além de Odara e Os atalhos de Samanta. No campo do humor, publicou Cada louco com sua mania, ilustrado por Jaguar, e o Horóscopo sexual para praticantes. Também é autor de A morte tem final feliz e do livro de crônicas A maconha está bêbada. Na literatura infantil, escreveu O livro maluco e a caneta sem tinta. É ainda autor das biografias do compositor maranhense João do Vale, da atriz e travesti Rogéria e do romance biográfico João Antônio e os Bee Gees.

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