
Abriguei-me na loucura, porque a normalidade em excesso sufoca
Creio que escrevo porque ainda não encontrei outra maneira de lidar comigo. Talvez exista em mim a necessidade de transformar sentimentos em palavras, ou apenas o desejo de saber se alguém, do outro lado, reconhece alguma coisa de si no que escrevo. Nem sempre sei o que procuro quando começo.
Hoje, por alguns minutos, a angústia bateu. Não houve notícia ruim, despedida ou qualquer acontecimento que justificasse aquele desconforto. A vida seguia do lado de fora, indiferente ao que se passava aqui dentro. E eu me perguntei quantas vezes tentei parecer bem simplesmente porque não sabia explicar o que sentia.
Existe uma cobrança silenciosa para que tudo esteja em ordem. É preciso trabalhar, produzir, cumprir horários e manter as aparências. A vida adulta parece exigir funcionamento contínuo, como se bastasse uma manutenção ocasional para continuarmos operando. Quando alguma coisa falha, a pergunta é quase sempre a mesma: quando tudo voltará ao normal?
Mas quem decidiu que o normal é o lugar para onde todos precisam voltar?
Talvez eu tenha passado tempo demais tentando caber em expectativas que nunca fizeram sentido para mim. Confundi equilíbrio com controle, maturidade com silêncio e lucidez com a obrigação de compreender tudo antes mesmo de me permitir sentir. Há momentos em que pensar demais não esclarece: apenas prolonga o desconforto, transforma dúvidas em problemas e faz de cada escolha uma possibilidade de arrependimento.
Foi assim que comecei a pensar no meu próprio refúgio.
Abriguei-me na loucura, porque a normalidade em excesso sufoca.
Não falo de perder o contato com a realidade, mas de questionar aquilo que sempre disseram ser correto. De desconfiar das certezas que nos entregaram prontas e admitir que nem tudo precisa caber numa explicação lógica. Quero o direito de não saber, de mudar de ideia e de não apresentar uma versão organizada de mim mesmo a cada encontro com o mundo.
Talvez o problema não esteja na razão, mas na necessidade de controlar cada movimento da existência. Como se sentir demais fosse um erro, mudar de ideia fosse fraqueza e demonstrar contradições significasse não ter maturidade suficiente para viver.
A normalidade também tem suas máscaras. Há pessoas que trabalham, sorriem e cumprem suas obrigações enquanto tentam organizar silenciosamente o próprio mundo. Por fora, tudo parece funcionar. Por dentro, nem sempre existe a mesma tranquilidade. Afinal, somos sujeitos, não máquinas. Temos desejos que desconhecemos, lembranças que retornam sem pedir licença e perguntas que não desaparecem porque precisamos levantar cedo no dia seguinte.
Talvez seja justamente aí que a escrita encontre seu lugar.
Escrevo para dar nome ao que ainda não compreendo. Para revisitar lembranças sem fingir que já não me afetam e reconhecer meus erros sem transformar a culpa numa identidade permanente. Algumas escolhas fiz por desejo; outras, por ignorância. Em certas ocasiões, compreendi as consequências tarde demais. Só depois percebi o quanto havia me afastado de mim mesmo.
Não posso voltar e escolher novamente. Posso, porém, olhar para o passado sem permitir que ele determine sozinho quem sou.
A culpa costuma nos manter presos ao que já aconteceu, como se sofrer indefinidamente pudesse reparar os danos. Mas reconhecer a responsabilidade é diferente de passar a vida se condenando. Uma atitude pode abrir espaço para a mudança; a outra apenas prolonga a punição.
Minha clemência talvez esteja nas palavras. Não porque escrever apague os erros ou garanta absolvição, mas porque me permite olhar para eles sem reduzir minha existência a uma lista de fracassos.
Há dias em que as palavras surgem facilmente. Em outros, permaneço diante da página tentando descobrir se ainda tenho alguma coisa a dizer. Talvez eu espere de cada frase uma resposta que ela não pode oferecer: uma definição exata de quem sou.
A psicanálise me interessa justamente porque desconfia das respostas fáceis. Nem sempre sabemos por que desejamos o que desejamos, repetimos determinadas escolhas ou continuamos ligados a ausências antigas. Às vezes, compreender começa quando deixamos de exigir uma conclusão imediata.
O sujeito não cabe inteiramente nos nomes que recebe nem nas histórias que conta sobre si. Somos feitos também daquilo que não conseguimos explicar, das contradições que carregamos e das mudanças que o tempo provoca.
Quanto à loucura, talvez eu tenha escolhido essa palavra porque ela incomoda. Questiona a fronteira entre o que é aceito e aquilo que escapa às regras. Não quero, entretanto, transformá-la em identidade ou destino. Refúgios também podem se tornar prisões quando já não encontramos a saída.
O que procuro é a liberdade de pensar sem me torturar, sentir sem me julgar antecipadamente e existir sem tratar cada diferença como uma falha a corrigir. Quero conservar a lucidez sem fazer dela uma vigilância permanente sobre mim mesmo.
Talvez a normalidade em excesso sufoque quando deixa de ser uma referência e passa a ser uma exigência. Quando parecer bem se torna mais importante do que cuidar do que não está bem.
Não quero viver fora do mundo. Quero encontrar uma maneira de estar nele sem precisar desaparecer de mim.
Talvez eu não tenha perdido o jeito de escrever. Talvez apenas tenha mudado a maneira de procurar aquilo que quero dizer. O texto que comecei há algum tempo continua aqui, mas já não sou exatamente o mesmo sujeito que o escreveu. Algumas perguntas permaneceram; outras perderam a importância. Hoje, consigo olhar para certas inquietações com menos pressa de resolvê-las.
Ainda não sei como termina essa história. Talvez nem precise saber.
Por enquanto, abrigo-me na escrita. Não para fugir de mim, mas para não me abandonar enquanto tento compreender quem sou.
E, se a normalidade em excesso sufoca, que exista espaço para respirar sem precisar transformar a própria existência numa justificativa.
Eu Só Escrevo Porque Escrevo
Eu só escrevo porque escrevo. Não é por ruindade que não digo o porquê, tampouco por alguma resistência em confessar aquilo que me move. A verdade é que nem eu sei. Deve ser karma, dessas coisas que a gente carrega sem saber em que vida começou, nem em qual delas pretende terminar. Seja lá o que for, há momentos em que me sinto vivo quando escrevo, como se a palavra me devolvesse, por alguns instantes, aquilo que a existência insiste em me tomar.
Hoje é dia 27, quarta-feira. Estou louco, pois 27 não é quarta. Quarta é quarta, 27 é 27. Pelo menos neste ano. E o que há de diferente nisso? Pouco sei. Talvez seja apenas o calendário pregando suas peças, ou talvez eu esteja começando a desconfiar de que nem tudo precisa coincidir para existir. Há coisas que seguem seus próprios dias, indiferentes à ordem que inventamos para não nos perdermos de nós mesmos.
Talvez eu escreva para matar e renascer aquilo que me corrói a alma, já tão esgotada de carregar os próprios vestígios. Escrevo como quem enterra alguma coisa sem ter certeza de que morreu, como quem retorna ao lugar do desaparecimento para conferir se ainda deixou ali alguma parte de si. E tenho essa tendência de sumir por tempos, recolher-me sem alarde, deixar que o silêncio faça o seu serviço. Depois volto, trazendo algum sinal de que aconteceu alguma coisa, embora nem sempre saiba dizer o quê. Há acontecimentos que não deixam provas, apenas modificam a pele de quem os atravessou.
Até porque sou esse nada que escreve loucuras em versos, versos que se desmancham em palavras, palavras que, por sua vez, parecem saber mais de mim do que eu mesmo. Há uma espécie de desatino nisso, uma desordem que não me apresso em corrigir. Talvez eu seja apenas o intervalo entre aquilo que penso e aquilo que consigo escrever, esse sujeito que desaparece de si para, tempos depois, reaparecer em algumas linhas, como se nunca tivesse partido.
E continuo escrevendo. Não por saber, não por compreender, muito menos por ter alguma verdade a oferecer. Escrevo porque alguma coisa insiste, mesmo quando já não encontro disposição para lhe dar ouvidos. Se é karma, mania ou alguma dívida antiga que a memória não alcança, deixo que permaneça sem nome. Nem tudo o que nos acompanha precisa apresentar documentos.
No fim, há dias em que sou apenas isso: um homem, uma folha e essa estranha obrigação de existir por escrito. O restante fica por conta do tempo, que nunca soube explicar direito as minhas ausências. Afinal, se 27 é 27 e quarta é quarta, talvez eu também possa ser aquilo que sou sem precisar coincidir comigo mesmo.























