Contos

Não arredo pé

Natyely se deleita com o meu fracasso. Ela é o único ser que conheço que não tem empatia. Quando éramos criança, ela ria das minhas quedas, até quando fraturei o braço. Na ida para o hospital, não parava de rir, um riso estridente e sarcástico, como se eu fosse um frouxa, e o pior, meus pais não diziam nada, não a mandaram parar com o escárnio, porque, obviamente, ela era a filhinha amada. Parece que eu era seu palhacinho de estimação. Em muitas estripulias ela me metia só para ver eu me dar mal. Inventava brincadeiras em que, no final, eu me lesionava; nada era tranquilo, nada era harmônico, como deveria ser entre dois irmãos, únicos irmãos. Meus pais a apoiavam porque a queridinha tirava notas muito boas, e para eles isso era suficiente. Natyely, para se ter uma ideia, nunca recebeu uma bronca do meu pai, enquanto eu aguentava toda a rebordosa, principalmente quando ele chegava bêbado e queria descarregar suas frustrações. Meu pai, sim, era um fracassado; dependia de minha mãe, que era concursada, e se virava com bicos. Quando não dava certo nalgum serviço, ele passava o dia bebendo, e, quando chegava em casa, daquele jeito, dava em cima da moça que trabalhava cuidando da gente. Mirian era uma meninota, pouco mais velha que nós, e teria vindo do interior para estudar – mas, na verdade, passava o dia trabalhando com serviços domésticos. Isso hoje seria crime. Meus pais diziam que a contrataram para o seu bem, para que pudesse vencer na vida, mas como? Não tinha tempo sequer de estudar em casa, e ia todas as noites para um colégio público. Mirian era meu amuleto, eu a amava, porque ela me safou de várias empreitadas. Mas, como minha irmã era endiabrada, sempre sobrava uma bronca para mim. Natyely cresceu e ousou destruir todos os meus sonhos. Sou artista e vivo da arte, mas para ela sou um vagabundo. Vendo os meus livros de porta em porta, e tenho uma vida feliz e relativamente estável, para quem não tem filhos. Nossos pais morreram. Minha família é pequena e dispersa. Poucos me entendem. Natyely é médica e não deve tratar bem seus pacientes, porque ela é raivosa – certamente se formou por status. Tenho certo medo dela, devo admitir. Brigamos na justiça pela casa de nossos pais, onde moro até hoje. Ela é farta de dinheiro e quer sempre mais. Por ela, eu não teria nenhum direito sobre os bens dos meus pais, porque sou “vagabundo”. Tenho um amigo advogado que me ajuda muito. Não quer nenhum honorário antecipado. Já fomos a duas audiências, sem acordo. É completamente estafante para mim, que, além do mais, sou autista, nível de suporte um. Mas hei de vencer e ficar, como proponho, com pelo menos uma parte da casa, que já está subdividida. Ela faça o que quiser com o restante, mas não arredo o pé daqui, do meu chão, de onde me criei. 🗞️

Adriano Espíndola Santos

Adriano Espíndola Santos é autor de “O sussurro cálido da negação”, “Flor no caos”, “Contículos de dores refratárias”, “o ano em que tudo começou”, “Em mim, a clausura e o motim”, “Não há de quê”, “Amparo secreto”, “Viver morrendo” e “Arraia-ralé”. Advogado. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. instagram.com/adrianobespindolasantos/ e escreve no Crônicas Cariocas às sextas-feiras.

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