Jorge Lannes Júnior no Crônicas Cariocas

  • De onde se escapa o amor?

    De onde se escapa o amor? Quem não se limita a viver só talvez também não saiba viver com o outro. Quem não encara a própria solidão a sós, não, a só, talvez não suporte a presença de alguém sem transformá-la numa tentativa de preencher aquilo que lhe falta. Dizem que o amor transforma. Mas o que seria essa transformação? Tornar-se dor? Amar também dói, é verdade, mas a dor não pode ser a única testemunha do amor. Quando tudo o que resta é sofrer, pode-se dar a isso qualquer nome, menos o de amor. Ou será que, em algum momento, aprendemos a chamar de amor aquilo que apenas nos mantém presos à possibilidade de sermos amados?

    O amor escapa pela linguagem e retorna à repetição. Repetimos aquilo que não conseguimos dizer. Talvez seja por isso que tantos confundam o começo com a promessa de uma eternidade. Dizem que amar é casar, que no começo são flores e, depois, a derrota. Mas que derrota é essa que exige um corte? Teria o outro deixado de ser quem era ou fomos nós que, de tanto idealizá-lo, já não conseguimos reconhecê-lo? Há quem espere que o amor se sustente sozinho, como se amar dispensasse o trabalho de descobrir, todos os dias, quem existe por trás da imagem que inventamos. Talvez a decepção não comece quando o outro muda, mas quando ele deixa de corresponder àquilo que imaginávamos que fosse.

    Confunde-se amor com sexo, carência, beijo, sintonia. Como se o encontro dos corpos garantisse o encontro de duas existências. Amar, porém, talvez seja desaprender o que julgávamos saber, renunciar à imagem que fabricamos do outro e suportar aquilo que nele não nos pertence. Muitos se entregam à carne, ao outro, à promessa de serem dois e, paradoxalmente, esquecem de si mesmos. Há quem se perca tentando ser tudo para alguém e descubra, tarde demais, que deixou de existir para si. Mas quem somos nós quando já não precisamos representar o papel daquele que o outro deseja? O que resta quando o desejo deixa de obedecer à fantasia?

    Eu amo… amo a ponto de aceitar suas esquisitices, de não me importar que o banheiro fique todo molhado depois que você sai. Mas desejo ainda mais quando você me conta suas esquisitices, quando fumo um cigarro, volto e encontro o banheiro seco. Há qualquer coisa nesse gesto que não se explica pela obrigação, nem pela concessão. Ninguém precisou pedir, ninguém precisou ensinar. O gesto aconteceu, quase sem testemunhas, como se o cuidado pudesse existir sem anunciar a própria presença. E talvez seja justamente aí que o amor se revele, não nas grandes declarações, mas naquilo que o outro faz quando não precisa provar coisa alguma. O banheiro seco não é uma promessa de eternidade. É apenas um banheiro seco. E, ainda assim, alguma coisa em mim o reconhece.

    Amar também é aprender a conviver com aquilo que não somos. O outro não é uma extensão de nós, tampouco um objeto destinado a obedecer à nossa falta. Ele tem seus excessos, seus silêncios, suas maneiras de existir. Há coisas que nos aproximam e outras que nos devolvem à nossa própria solidão. Porque estar com alguém não significa deixar de estar só. Significa, talvez, descobrir que a solidão não precisa ser preenchida para que a presença do outro tenha valor. Nem toda diferença exige uma ruptura. Nem todo desconforto anuncia o fim. Às vezes, é preciso apenas falar, escutar e admitir que duas pessoas podem habitar o mesmo espaço sem precisar ser iguais.

    Mas há também aquilo que não se resolve pela conversa, aquilo que insiste mesmo quando as palavras parecem suficientes. O inconsciente não se apresenta com explicações organizadas. Ele tropeça, retorna, repete. Às vezes, o que dizemos não coincide com aquilo que desejamos; outras vezes, o corpo parece falar antes que consigamos reconhecer o que se passa. E quantas vezes chamamos de destino aquilo que talvez seja apenas a repetição de uma história que ainda não conseguimos escutar? Talvez amar também seja perceber quando estamos diante de alguém e quando, sem perceber, estamos diante de tudo aquilo que trouxemos conosco.

    Não sei se o amor transforma alguém ou se apenas revela aquilo que já não conseguimos esconder. Sei que amar não deveria exigir o desaparecimento de si, nem a anulação do outro. Existe uma diferença entre renunciar a uma vontade e renunciar à própria existência. Existe uma diferença entre aceitar as esquisitices de alguém e fazer da dor uma morada. O amor não precisa ser perfeito, mas precisa encontrar algum lugar onde duas pessoas possam existir sem que uma precise apagar a outra.

    O amor é uma linguagem que passa pelo inconsciente e escapa pelo corpo. Talvez nunca consigamos traduzi-lo por inteiro. Talvez a sua verdade esteja justamente naquilo que não sabemos dizer, mas continuamos fazendo, repetindo, procurando.

    E, no fim, quando as palavras falham, resta a pergunta: de onde se escapa o amor, se até aquilo que tentamos esquecer insiste em retornar?

    Entre teclas, cigarros e ausências

    Nunca imaginei que uma máquina de datilografia dos anos 60 pudesse me colocar diante de um problema tão atual: o que fazer com aquilo que não consigo dizer? Eu sequer existia quando suas teclas começaram a registrar palavras, cartas, confissões e talvez despedidas que ninguém teve coragem de pronunciar em voz alta. Agora, sentado diante dela, tento aprender seus mecanismos, como se dominar o movimento dos dedos fosse suficiente para organizar alguma coisa dentro de mim.

    A máquina não tem pressa. Sou eu quem erra, quem retorna, quem insiste na tecla equivocada e precisa encontrar uma maneira de continuar. O papel recebe tudo sem perguntar se acredito no que escrevo. Não distingue uma confissão de uma mentira, tampouco exige que eu seja coerente com aquilo que afirmei algumas linhas antes. Talvez resida aí sua maior crueldade: a página aceita minhas palavras, mas não me absolve delas.

    Acendo um cigarro. A fumaça sobe, perde a forma e desaparece. Há algo de profundamente familiar nesse movimento. Passamos tanto tempo tentando dar contorno ao que sentimos que esquecemos como certas coisas existem justamente porque não conseguimos contê-las. Quero compreender meus excessos, minhas contradições, essa necessidade quase ridícula de ser aceito até por quem não me conhece. Agrado, recuo, reformulo o que penso e, quando percebo, já não sei se estou falando por mim ou tentando produzir uma versão de mim que seja menos difícil de suportar.

    Quem é o proprietário de uma verdade? Digo que conheço minhas intenções, mas quantas delas reconheço somente depois de terem produzido seus efeitos? Quanto às mentiras, talvez eu tenha mais intimidade com elas. Sei onde as escondo, embora nem sempre saiba quando começam a falar em meu lugar. Existe uma fronteira incômoda entre aquilo que inventamos para sobreviver e aquilo em que nos transformamos depois de repetir a invenção por tempo suficiente.

    Olho para a máquina. O metal envelheceu, algumas teclas carregam as marcas do uso e o mecanismo responde com um ruído que nenhum teclado moderno conseguiria reproduzir da mesma maneira. Penso no tempo que passou por esse objeto sem pedir licença. Quantas mãos já estiveram aqui? Quantas pessoas tentaram dizer o indizível antes de mim? Não conheço suas histórias, mas reconheço a tentativa. Talvez toda escrita comece quando a experiência já não cabe no silêncio e ainda não encontrou uma forma satisfatória de existir no mundo.

    Lembro-me das rosas brancas, amarelas e azuis. Não sei por que certas lembranças permanecem enquanto outras se dissolvem sem deixar vestígios. Amo o azul, embora não saiba o que ele encontra em mim. Há cores que nos acompanham sem precisar explicar sua permanência. Com as pessoas, entretanto, quase nunca aceitamos esse mistério. Queremos saber o que significamos, que lugar ocupamos, por que alguém ficou ou foi embora. Como se o afeto pudesse ser submetido a uma perícia e a falta, uma vez identificada, deixasse de nos atravessar.

    Talvez eu esteja cansado de procurar uma resposta para cada sensação. Existe uma exaustão que não vem do trabalho, mas da vigilância constante sobre si mesmo. Observo meus pensamentos, examino minhas escolhas, desconfio das minhas certezas. Transformo a própria existência em interrogatório e depois me espanto por não encontrar descanso. Até a angústia, quando tentamos obrigá-la a explicar tudo, parece perder a voz e se tornar ainda mais presente.

    Volto a datilografar. Uma palavra aparece, outra a contradiz. Não sei se estou construindo uma narrativa ou deixando escapar aquilo que gostaria de manter escondido. Escrever não me torna necessariamente mais verdadeiro. Às vezes, a linguagem também serve ao disfarce, oferece beleza ao que é confuso e organiza em frases elegantes aquilo que continua desordenado por dentro. Ainda assim, escrevo. Não porque tenha descoberto alguma saída, mas porque o silêncio também tem seus limites.

    Há uma ausência que não desaparece quando recebe um nome. Há um desejo que muda de direção justamente quando acreditamos ter compreendido sua origem. E há coisas que permanecem conosco sem que possamos reivindicá-las como propriedade. Talvez sejamos feitos, em parte, daquilo que nos falta, mas seria ingenuidade imaginar que conhecer a falta significa dominá-la.

    A folha avança. O cigarro termina. A máquina permanece diante de mim, indiferente ao que consegui ou deixei de dizer. Não me oferece respostas, apenas devolve o som das minhas tentativas. Pela primeira vez, penso que talvez não seja necessário transformar cada inquietação em uma conclusão. Nem tudo precisa terminar em descoberta. Algumas perguntas continuam vivas precisamente porque não se deixam encerrar.

    Quando me levanto, continuo sem saber exatamente o que escrevi. Talvez tenha falado da máquina, talvez do tempo, talvez dessa estranha insistência em procurar no papel uma imagem de mim que nunca permanece inteira. Não importa. Amanhã, outras palavras poderão contradizer estas. O desejo encontrará outro nome, a ausência mudará de lugar e eu provavelmente voltarei a acender um cigarro antes de começar.

    Por enquanto, deixo a folha onde está. Não resolvi a angústia, tampouco pretendo fingir que a compreendi. Há coisas que precisam de palavras, mas não de invasão. E talvez escrever também seja aprender a chegar perto sem exigir que tudo se revele.

    A máquina descansa. Eu, não sei.

    A estranha tarefa de estar vivo

    Um café, um cigarro, livros, às sete horas da manhã. A janela aberta, deixando entrar o cheiro do dia, essa promessa silenciosa de um mundo que desperta sem saber muito bem para quê. Hoje é quarta… hoje é quarta? Não importa. Dia é dia, noite é noite, madrugada é madrugada. Ainda estou com sono, embora talvez não seja o corpo que precise descansar, mas alguma região mais profunda de mim, onde a consciência se esconde quando já não suporta a própria companhia.

    Vou ler os jornais, mas sinto falta dos de papel, daqueles que deixavam os dedos sujos de tinta e tornavam o mundo menos distante. Agora tudo é digital: os livros, os jornais, os afetos, os robôs. Tudo cabe numa tela, inclusive a solidão. Sinto meu espírito regressando lentamente ao corpo, como quem emerge da própria tumba sem saber se voltou por vontade própria ou se simplesmente se esqueceu de morrer.

    Me angustia pensar. Pensar em quê? Nas coisas que perdi, nas pessoas que partiram e continuam vivendo em meus gestos, nas palavras que ficaram suspensas entre o desejo e o arrependimento. O passado não passa; apenas aprende a se disfarçar. Às vezes, senta-se conosco à mesa e permanece em silêncio, esperando ser reconhecido. Talvez sejamos feitos dessas ausências, de desejos reprimidos e lembranças que insistem em sobreviver à nossa tentativa de esquecê-las.

    Será que os seres humanos desaparecerão e restarão apenas os robôs? Bom, não seria uma ideia. Talvez eles não precisassem fingir que estão bem, nem passar noites tentando compreender uma despedida. Poderiam reproduzir nossas vozes, imitar nossos rostos e escrever poemas sobre a saudade. Mas saberiam o que significa sentir falta de alguém sem conseguir explicar exatamente do quê? Talvez nem nós saibamos. Talvez a saudade seja a permanência inexplicável daquilo que já se foi.

    Entregamos às máquinas o trabalho, os cálculos e as respostas. Talvez um dia entreguemos também nossos pensamentos, como se pensar fosse um fardo do qual pudéssemos nos livrar.

    Mas, se uma máquina escrever o poema, quem ficará com a insônia? Se ela encontrar palavras para explicar a dor, quem suportará aquilo que não pode ser dito? Talvez nosso maior medo não seja o de as máquinas se tornarem humanas, mas o de descobrirmos que passamos a vida tentando funcionar como elas, escondendo nossas falhas e repetindo comportamentos para sermos aceitos.

    Observo a fumaça do cigarro desaparecer no ar. Há algo de honesto nessa brevidade: existir sem precisar justificar a própria passagem. Nós, ao contrário, procuramos sentidos, queremos deixar marcas, encontrar razões para permanecer. E se não houver razão alguma?

    Talvez inventemos explicações apenas para não encarar o silêncio. O mundo continuará depois de nós, indiferente às nossas dores, enquanto outras pessoas despertarão para suas próprias angústias.

    A manhã avança. Continuo diante da janela, tentando compreender esse desconforto que me acompanha. Talvez seja apenas sono, talvez seja a consciência despertando antes do corpo.

    O pensamento, às vezes, também mente: constrói labirintos, abre portas que conduzem a outras portas e nos faz acreditar que estamos perto de uma saída quando permanecemos exatamente onde começamos.

    Lá fora, alguém ri, alguém chora, alguém espera uma mensagem que talvez nunca chegue.

    Cada pessoa carrega um mundo que ninguém consegue conhecer por inteiro. Talvez a solidão não seja a ausência de companhia, mas a impossibilidade de entregar completamente a alguém aquilo que acontece dentro de nós. Há sempre um quarto escuro, até mesmo em quem acredita conhecer a própria casa.

    Talvez essa seja a estranha tarefa de estar vivo: carregar perguntas sem transformá-las em condenações, reconhecer as próprias sombras sem fazer delas morada definitiva. O café esfria, o cigarro termina, a janela permanece aberta. E eu continuo aqui, sem saber se o que me mantém desperto é esperança, hábito ou a simples resistência de quem ainda não aprendeu a desistir de compreender a própria existência.

    Lá fora, a manhã continua. Aqui dentro, alguma coisa insiste em despertar. Por enquanto, não preciso saber o nome.

    O caminho de volta não é o mesmo

    Há lugares que permanecem em nós sem que precisemos visitá-los. Muriqui, por exemplo, há muito não me vê, ou talvez seja eu quem tenha deixado de me reconhecer naquele caminho. Lembro-me do carnaval, da alegria que parecia não caber nos corpos, dos dias em que a vida se permitia uma espécie de desatino sem pedir desculpas. Havia qualquer coisa de excessivo naquela felicidade, como se o mundo, por alguns instantes, suspendesse sua vocação para o desencanto.

    Hoje, penso na estrada de ida e volta. No arco metropolitano, na paisagem que se desloca pela janela, na chuva que chega sem aviso e no sol que, logo depois, finge que nada aconteceu. Às vezes, um arco-íris atravessa o céu como uma resposta cuja pergunta esquecemos. E seguimos. Talvez seja esse o equívoco de quem viaja: acreditar que o destino está no lugar para onde se vai, quando, não raro, é a memória que nos conduz.

    Faz tempo que não volto a Muriqui. Não sei se sinto falta do lugar ou daquele que eu era quando estive lá. Há uma diferença incômoda entre as duas coisas. O lugar pode continuar existindo, o mar pode conservar sua insistência, o carnaval pode devolver às ruas a mesma vertigem. Mas quem retorna não é exatamente quem partiu. O tempo não nos impede de voltar; apenas altera, silenciosamente, aquilo que esperamos encontrar.

    A chuva passa, o sol reaparece, e o arco-íris permanece por pouco tempo. Talvez a alegria também seja assim: não uma morada, mas uma visita. E há visitas que, mesmo depois de irem embora, continuam fazendo barulho dentro de nós.

    Muriqui ainda está lá. Eu é que não sei se chegaria ao mesmo lugar.

    Entre o incêndio e a cinza

    Sou oito ou oitenta. Incêndio ou cinza. Permanência ou despedida. Não suporto a letargia dos entremeios, esse limbo onde as coisas não se consumam nem se extinguem. Ou me fala logo, ou me condena ao silêncio. Ou me toca, ou não me despertes a pele. Ou me ama, ou não me submetas à indigência de um afeto hesitante.

    Ou fica, ou parte. Ou me atravessa a existência por inteiro, ou me restitui à minha própria solidão. Ou me oferece a inteireza da tua verdade, ou me poupa da indigência das tuas meias-palavras. Ou vem sem o sortilégio do medo, ou não suscites aquilo que tua covardia não saberá amparar. Ou me escolhe, ou me destitui da tua memória. Ou me encontra, ou me perde em definitivo.

    Porque o quase sempre foi uma modalidade insidiosa de ausência. Porque jamais aprendi a habitar o inócuo, esses espaços onde nada se inaugura e tudo parece aguardar uma sentença. Porque, diante da inércia, faço acontecer. Porque o silêncio, quando se prolonga além do suportável, transmuta-se em brado, uma estridência íntima que nenhuma quietude consegue aplacar.

    As esperas me corroem com mais requinte do que as despedidas. As dúvidas me vergastam mais do que as certezas dolorosas. Nunca soube existir em parcelas, tampouco acomodar a alma na parcimônia dos sentimentos. Tudo o que me toca encontra guarida ou desencadeia uma intempérie. Não conheço o morno. Não reconheço os itinerários onde a pulsação se torna irrelevante, onde a vida, por excesso de cautela, abdica de si mesma.

    Carrego excessos, lacunas, volúpias e cicatrizes. Trago comigo os vestígios de tudo aquilo que amei e os resíduos do que, mesmo extinto, jamais se deixou sepultar. Há lembranças que não permanecem por saudade, mas por uma espécie de liturgia da ausência, como se esquecer fosse profanar aquilo que um dia nos constituiu.

    E talvez seja por isso. Ou porque tenha nascido para atear fogo aos silêncios que os outros, por conveniência, denominam paz. Ou porque exista em mim uma combustão refratária à extinção, uma chama que não reconhece na própria exaustão o direito de se apagar. Ou porque certas almas não vieram ao mundo para a mera subsistência, para essa existência asséptica em que respirar se confunde com estar vivo.

    Vieram para sentir até a vertigem. Até o paroxismo. Até o último grau de si mesmas.

    E, se isso é excesso, que seja. Há quem faça da contenção uma virtude e da ausência uma morada. Eu, ao contrário, jamais soube chamar de paz aquilo que, por dentro, me asfixia.

    A tinta acabou, mas o caderno permaneceu

    O que eu quero, não sei. O que posso ter, tampouco. Talvez uma caneta elegante, dessas que parecem guardar um segredo sob a ponta, ou alguma coisa estranha o bastante para que eu não consiga nomeá-la sem antes me perder nela. Há em mim uma inclinação pelo que não se entrega de imediato, pelo enigma que resiste à interpretação, pelo indivisível que nem a razão, tão pretensiosa, consegue reduzir a uma explicação. Gosto daquilo que é extremamente complexo de conseguir e, ainda assim, se consegue. Como se a impossibilidade fosse apenas uma maneira mais sofisticada de o desejo adiar a própria satisfação.

    Depois de quase terminar isso, recorri ao meu velho e bom caderninho. A tinta da máquina acabou. Há qualquer coisa de irônico nessa interrupção, como se o objeto tivesse decidido, por conta própria, lembrar-me de que até a escrita depende daquilo que um dia se esgota. E ainda bem que existem outras fitas, outros dias, outras horas, outras pessoas, outras e outras coisas. Imagina ficar preso a uma coisa só, condenado a repetir o mesmo gesto, a mesma presença, a mesma falta. Deus me livre. Talvez seja justamente a possibilidade de substituir o objeto que nos salve da ilusão de que ele era tudo. A falta permanece, mas mudam os nomes que damos a ela.

    Quem me dera, no entanto, viver numa fazendinha, distante do ruído tecnológico, com uma máquina de escrever, meus cadernos e o tempo necessário para não precisar justificar a existência de cada palavra. Não quero a metrópole, esse organismo que nunca dorme e parece exigir de nós uma presença permanente, nem a cidade pequena, onde até o silêncio corre o risco de ter testemunhas. Queria um lugar entre os dois, suficientemente afastado do mundo para escutar a mim mesmo, mas não tão distante que eu deixasse de desejar o que existe além dele. Uma espécie de refúgio sem inocência, porque até a solidão carrega seus habitantes.

    Talvez eu não queira fugir do mundo. Talvez queira apenas encontrar um lugar onde ele não fale por mim.

    E onde a máquina, quando a fita acabar, me ensine que o silêncio também escreve.

    O abismo entre agradar e amar

    A noite se instala, e escrevo para despertar aquilo que o mundo não desperta em mim. E me pergunto: o que fiz de bom hoje por mim, sem a necessidade de reconhecimento, sem a obrigação de corresponder às expectativas de alguém? Há um prazer legítimo em agradar o outro, mas existe um abismo entre oferecer por afeto e oferecer na esperança de receber algo em troca.

    Às vezes, aquilo que chamamos de generosidade esconde uma necessidade silenciosa de sermos escolhidos. Damos atenção, oferecemos cuidado, permanecemos disponíveis e, sem perceber, começamos a contabilizar as ausências do outro. O gesto, que deveria ser livre, transforma-se numa cobrança que ninguém declarou, mas que esperamos ver satisfeita. Já não oferecemos simplesmente: tentamos comprar uma permanência.

    O afeto, entretanto, não se negocia. Não se compra uma amizade com favores, tampouco se conquista o amor sacrificando a própria identidade. Amar não é possuir, nem transformar a presença do outro numa dívida. É reconhecer que ninguém nos pertence e que a reciprocidade só tem valor quando nasce da liberdade, não da obrigação.

    Talvez o equívoco esteja em procurar no olhar alheio a confirmação de um valor que ainda não reconhecemos em nós mesmos. Agradamos para sermos vistos, cedemos para não sermos abandonados e silenciamos para não desagradar. Nesse esforço de nos tornarmos indispensáveis, corremos o risco de nos tornarmos estrangeiros de nós mesmos. Por isso, em vez de tentar comprar a presença de alguém, compre uma bela roupa, vista-se de si mesmo e vá passear. Não como quem desistiu do amor, mas como quem compreendeu que a própria vida não pode permanecer suspensa à espera de uma escolha alheia. Estar sozinho não significa estar incompleto, assim como estar acompanhado não significa ser amado.

    Talvez a maior forma de amor comece quando deixamos de negociar a nossa existência para merecer a permanência de alguém. Afinal, o amor pode nos fazer companhia, mas não deveria ser o preço que pagamos para suportar a nós mesmos.

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