Contos

O Sorriso Perdido

Jandira teve uma infância de indigente. Criada com mais seis irmãos numa cidade pequena no interior, enquanto seu pai trabalhava na roça, ela ajudava a mãe a cuidar da casa e das crianças. Na tapera em que moravam, a miséria acompanhava de perto a família. Não havia comida todos os dias, faltava luz elétrica e, no caso de Jandira, lhe faltavam todos os dentes da frente. Era pobre, raquítica e banguela.

Com dez anos, foi entregue aos cuidados de uma senhora para trabalhar na fazenda. Logo aprendeu as tarefas domésticas e se destacou na cozinha. Dava gosto a sua força de vontade e o esforço que fazia em aprender e melhorar. Seu jeito tímido e sempre sorridente cativava. Ela sorria, tapando a boca com a mão. “Jandira, abre essa boca, menina, onde se viu rir assim de boca tampada”.

Com o tempo Jandira foi se tornando peça-chave na fazenda, uma espécie de faz tudo. Movida por aspirações maiores, mudou-se para a cidade grande e arrumou emprego como ajudante de cozinha numa lanchonete.

Ela não pensava em namoro, diversão, em mais nada, somente trabalhar e guardar dinheiro quando sobrava algum. Vendendo quentinhas nas horas vagas, obteve certa prosperidade. Seu tempero era comentado. Nessa toada foi levando a vida, sorrindo de boca fechada e sonhando com o dia de deixar de ser banguela e poder dar gargalhadas com seus dentes à mostra. A vida por uma dentadura completa.

Com obstinação e alguma sorte, finalmente conseguiu no programa do SUS um implante dentário. O procedimento envolvia cirurgia, seguida de osseointegração e colocação da base fixa. Jandira nunca tinha ouvido falar daquilo, apavorou-se e quase desistiu. Mas a longa espera por uma dentadura falou mais alto. Tomou coragem e confirmou o bendito implante.

Os pinos de titânio foram fixados no osso maxilar de Jandira que aguentou firme, como só Deus sabe. Enfim, teria de volta a função estética do sorriso. Tudo o que sempre havia sonhado.

Com dentes novos, era outra mulher. Durante o dia, vivia de boca aberta mostrando os dentes por qualquer motivo, orgulhosa que só. À noite, rezava fervorosamente para que não houvesse nenhuma infecção ou rejeição. Eventuais dores e algum sangramento na gengiva, mas nada de grave. O implante múltiplo tinha sido um sucesso. Somente uma singularidade: com o tempo, foi percebendo que quando ia sorrir, involuntariamente tapava a boca. Talvez reminiscências antigas e enraizadas. Bem no fundo, sua alma ainda trazia o seu velho sorriso desdentado.

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Márcio Paschoal

Marcio Paschoal nasceu no Rio de Janeiro, onde também se formou em Economia. Escritor e redator de longa estrada, construiu uma obra diversa, com mais de dez livros publicados entre romances, crônicas, ensaios e literatura infantil. Trabalhou na Fundação Getúlio Vargas, no Cederj (Centro de Ensino Universitário a Distância), e colaborou com o Jornal do Brasil, escrevendo sobre música e literatura. Entre seus romances estão Sofá branco — menção honrosa no Prêmio Graciliano Ramos e pré-selecionado para o Prêmio Nestlé de Literatura —, além de Odara e Os atalhos de Samanta. No campo do humor, publicou Cada louco com sua mania, ilustrado por Jaguar, e o Horóscopo sexual para praticantes. Também é autor de A morte tem final feliz e do livro de crônicas A maconha está bêbada. Na literatura infantil, escreveu O livro maluco e a caneta sem tinta. É ainda autor das biografias do compositor maranhense João do Vale, da atriz e travesti Rogéria e do romance biográfico João Antônio e os Bee Gees.

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