
Gastura de vida
Uma dose de amargura espreita os meus dias. Posso deixar-me cair, mas posso, inclusive, não permitir que isso aconteça. A dor é um karma que me segue há longas datas, desde que meu pai se foi (essa é a minha forte lembrança) – ou bem antes disso, pois fui afeito ao gosto de sal que saía dos meus olhos e inundavam a minha boca. Sou sagitariano, de poucas palavras, de perseguições absurdas pelo conhecimento, e é isso que me salva – ainda. Sim, há tempo para vencer. Há tempo para transpor o absurdo. Veja a minha história: Sara rezava todos os dias para que eu mudasse. Ela parecia uma beata incauta, um serzinho pequeno e inservível, que me fazia sentir nojo. É lógico que o “amor” se transformou em desastre. Deu certo até tal ponto, onde ela cuidava amorosamente dos nossos filhos, e isso me deixava tranquilo, relaxado. Depois, eu tinha impulsos para sumir de casa, pelo desgosto de encontrá-la, chorosa, piedosa e dramática. Uma mulher que clamava por ter uma família bendita, entregue ao Pai. A dose foi muito forte e concentrada quando ela nos levou para uma dessas renovações carismáticas da Igreja Católica. Eu vi amor, no começo, mas depois senti o peso do exagero. Afastei-me mais e mais. Porque me sentia impuro, demasiado humano, daqueles que sentem desejos absurdos – eu queria gozar, literalmente, com putas dançando e se esfregando em mim; queria beber whisky na sala e bater punheta até o dia acabar. Com relação aos nossos filhos, fazia de tudo para manter a boa aparência, dar uma de pai presente, mas “o mundo” me chamou mais forte, vertiginoso. Embrenhei-me fundo em tantas aventuras que um dia, voltando de Maracanaú, bati o meu lindo carro, do ano, um Opala Comodoro, em duas vacas na estrada, que ficaram se estrebuchando no capô do carro, enquanto eu me certificava de que estava vivo ou não; eu era, para mim, uma alma penada. Em pouco tempo chegaram os nativos para terminar de esquartejar as vacas. Muitos levaram pedaços imensos para casa, cobertos de sangue e de cocô. Era a cena mais absurda que presenciava em minha vida – que não era, e não foi, nem um pouco normal. Deu-se o fim de uma história montada. Sara, por influência dos pais e da família, me largou, mesmo eu sabendo que ela me amava demais e que não era a sua vontade. Separamo-nos por seis meses. Senti a dor de não ter a presença dos meus filhos a hora que precisasse. Certifiquei-me que eles, sim, me salvavam. Arrependi-me, chorava e clamava ao Senhor por perdão. Então, por um milagre do destino, voltamos, para o desgosto dos que não nos queriam. Pelo menos percebi que tinha o calor dos meus filhos a toda hora. Passei verdadeiramente a amá-los, e, com isso, permiti a existência de um enlace matrimonial. Foi a chance de renovar, de me perdoar a mim mesmo, ainda que com forças contrárias a nos espreitar – o cão é sabotador, zombeteiro. Foram pelo menos dois anos para as coisas se apaziguarem. Só aí entendi o que era o amor.























