Conto de Márcio Paschoal

  • XÊNIA precisa matar alguém

    Xênia estava a ponto de desistir de tudo. Vinha tendo problemas com o marido e os filhos. Ele, gordo, careca, sempre doente e reclamando da próstata que aumentara, do café frio, da chuva, do custo de vida e do governo. E, principalmente, dela. O filho mais velho, vagabundo, demente e drogado, sonhando ser cantor de rock. E não gostava de banho. A menina, uma amoral rebelde e chata, tinha o corpo coberto de tatuagens e piercings. Havia feito três abortos e agora descobrira ser lésbica.

    Xênia queria mudar tudo, mas não encontrava solução. Em busca de alívio, quando sentia que a cabeça estava a ponto de estourar, ia a um bar perto de casa, pedia uma Malzbier gelada, uma porção de torresmos e deixava-se ficar ali, em pé, encostada no balcão, por horas a fio, a pensar sobre nada. Uma espécie de pausa necessária. O dono do boteco, um português que torcia pelo Fluminense, já havia tentado puxar conversa, mas desistira: a mulher parecia em transe, absorta e presa a seu mundo.

    Um sábado, quando Xênia estava no tal boteco, uma mulher loura, alta e bem vestida se aproximou e puxou assunto com ela. Precisava de um serviço urgente, de preferência naquele final de semana. Xênia era a pessoa mais indicada – ela disse – soube disso no primeiro momento em que pôs os olhos nela. Precisava que ela fosse a um apartamento e matasse quem lá estivesse. Só confiava nela para esse trabalho.

    Por que ela? Xênia pensou no anjo que encomendou um réquiem a Mozart. No fundo não queria matar ninguém. Inusitado e tragicômico ser escolhida para esse tipo de serviço. Imaginou-se como o personagem Barry, o assassino de aluguel da série, que viu seu mundo dar uma reviravolta. A misteriosa mulher insistiu e lhe ofereceu uma quantia irrecusável. Devia ser milionária. A seguir, passou-lhe uma bolsa com a pistola e o silenciador para ela fazer o trabalho. Xênia logo associou aquele convite ao conto “O Cobrador”, de Rubem Fonseca. Talvez por ansiar uma guinada em sua vida, aceitou. Logo ela, pacata dona de casa, sempre comedida, que não matava nem uma formiga. Não estava se reconhecendo. A loura, então, passou-lhe um pacote com a metade da quantia combinada. O restante, depois do serviço.

    De lá, foram para o aeroporto Santos Dumont. A mulher deveria seguir na ponte-aérea para São Paulo, de onde só retornaria na segunda-feira. Uma única recomendação: não poderia causar grande sofrimento às vítimas. Serviço limpo e direto.

    Despediram-se, Xênia chamou um táxi e se dirigiu ao endereço que lhe fora passado. Um condomínio residencial de luxo. Durante o trajeto, sua respiração desacelerou e sentiu sumir o peso do próprio corpo. Era como se flutuasse em um espaço onde o tempo tinha deixado de existir.

    O taxista avisou que haviam chegado. Xênia pagou a corrida e saiu do carro, quase em frente ao condomínio. Na entrada, o porteiro acenou, como se a conhecesse. Isso não era normal. Achou estranho, mas foi em frente. Compenetrada, pegou o elevador, tirou a arma da bolsa e colocou, calmamente, o silenciador. Tocou a campainha. Demorou um instante e a porta foi parcialmente aberta. Xênia perguntou pela dona da casa. Uma moça morena, vestida de branco, possivelmente a diarista, respondeu que a patroa estava viajando e perguntou se era só com ela. Xênia não esperou mais. Forçou a porta entreaberta, empurrou a mulher para dentro e com a pistola engatilhada, atirou duas vezes. Antes de cair, a moça ainda a olhou com incredulidade e assombro.

    Xênia, com o coração acelerado, respirou fundo para não perder o controle, passou por cima do corpo, atravessou a sala e seguiu por um longo corredor que a levaria a outros cômodos. As pernas ainda bambeavam. No primeiro quarto, à direita e com a porta aberta, em frente, sentada e se penteando, uma menina com tatuagens e piercings, só de calcinha, com uma garota a seu lado, despida e também distraída. Sem ser notada, Xênia não esperou sequer que virassem. Fez um furo no meio das costas da moça e, antes que sua acompanhante pudesse esboçar qualquer reação, enfiou-lhe um tiro certeiro, quase à queima-roupa. Aguardou um pouco a fim de se certificar de que ambas estavam mortas. Xênia espantou-se com sua frieza. Ainda que estivesse com taquicardia e as mãos geladas de suor, agia como uma assassina experiente.

    Ainda trêmula, voltou ao corredor e foi ao próximo quarto, à esquerda. Percebeu logo o cheiro de maconha e os sons estridentes de um rock nacional. Quando entrou, o rapaz a olhou, assustado. Xênia chegou bem perto, apontou a arma na sua cara, tirou-lhe o cigarro de maconha da boca e, com o cano dentro, detonou o tiro. Deixou o corpo ali mesmo, no meio do quarto, com o som ainda às alturas. Xênia detestava rock.

    Agora, tinha pressa. A ansiedade a mil. Precisava acabar logo com o serviço e sumir dali. Só restava um último quarto, no fim do corredor. E, antes que pensasse em abrir a porta, um homem o fez por ela. Vestia uma espécie de roupão, era calvo, barrigudo e com cara de idiota. O que mais a impressionou foram seus olhos. Cansados e sem brilho. Olhos de uma idiotice clara e assumida. Convidou-a a entrar no quarto, andou calmamente até a cama e sentou-se. Xênia sentiu um arrepio percorrer seu corpo e, antes que pudesse se arrepender, disparou. Mal o homem tombou sem vida na cama, ela já se encontrava de costas, saindo do quarto.

    Não tinha mais nada a fazer. Surpreendeu-se agora bem disposta e empolgada. Conferiu se não havia ninguém no apartamento e saiu. O porteiro sequer notou a sua passagem. Missão cumprida.

    O português tricolor enfim trouxe a Malzbier e os torresmos. Xênia agradeceu, deu um gole na cerveja e fechou, por um momento, os olhos. A imaginação podia mitigar a realidade. No entanto, se achava longe de conhecer suas verdades e pôr um fim em seus tormentos e inquietações. O filme das execuções ainda passava na sua cabeça. Ao menos, sentia-se, de alguma forma, aliviada. Mastigou com vontade o pedaço de torresmo. Xênia estava morrendo de fome.

  • Luzia e o dia a dia

    Passa das onze e o casal se prepara para dormir. Ele, já na cama, lê o jornal. Ela entra no banheiro da suíte. Ele sempre lia o jornal antes de dormir e ela tomava seu banho. O segundo do dia; o primeiro era ao acordar.

    Ele acaba de ler e ela ainda no banho.

    — Luzia, não demora, quero dormir.

    Ela, no chuveiro, não escuta. A água morna batendo na cabeça, por cima da toca de banho e ela pensando na vida. Mais especificamente no seu casamento. Completariam seis anos de casados.

    — Luzia, porra, vem logo dormir!

    Agora Luzia tinha escutado. Ela já estava acabando de se enxugar. Por que tanto estresse? Nem tinha demorado assim no banho.

    Quando chega ao quarto, o marido aparenta estar dormindo. Ela acha estranho porque ele nunca dorme antes dela e com a luz acesa. Ela coloca um short e o soutien. Gosta de dormir sem calcinha. Penteia o cabelo, prende com rabo de cavalo, puxa o lençol, entra na cama e se ajeita.

    — Pode apagar a luz.

    — Até que enfim, né, Luzia?

    Ela prefere não responder. Rememora o tempo do começo do casamento: dormiam e acordavam juntos, às vezes abraçados. E sexo.

    Muito sexo. Isso que a incomoda. Não trepam há bastante tempo. De deitar e despertar abraçados nem sente tanta falta. Mas sexo…Ela nem lembra quando foi a última vez. Será que ele tem outra? Não, ela teria notado. A fase da paixão havia passado. Casamento passa por fases. Não é o que a perturba, mas a sensação de que, no momento, parecem se detestar, se aturar.

    — Você não quer mais ficar comigo. Se for isso, pode me dizer.

    — Que besteira é essa, Luzia? Está sem sono?

    — Quero só saber. Diga sim ou não.

    — Quero ficar com você. Agora, dorme.

    Ela não sente firmeza na resposta.

    — Mas ficar por ficar, na acomodação de tantos casais por aí, ou porque quer de verdade? Se pudesse escolher, ainda ficaria comigo?

    — Mesmo se a outra opção fosse a Scarlett Johansen?

    — Não fuja da resposta, ficaria ou não?

    — Ficaria, Luzia. Vamos dormir?

    Ela tinha perdido o sono. E a culpa era dele. Tudo havia começado com aquele “Luzia, porra, vem logo dormir!”. Ele nunca tinha se referido a ela daquela maneira.

    — Acho que deveríamos ter uma conversa séria.

    — Luzia, não acredito, conversa séria agora?

    — Para ficar com uma pessoa se sentindo constrangido, obrigado, não vale a pena. A vida é curta. Temos de ter um mínimo de carinho e consideração um com o outro. E respeito, respeito é o básico. Não porque estamos juntos e casados há algum tempo que vamos esquecer a noção de civilidade e educação. Eu até acho que…

    Ela é interrompida pelos roncos do marido.

    — Meu Deus, você dormiu?

    Luzia queria acordá-lo, sacudir-lhe a cabeça e gritar para que ele nunca mais fizesse isso, deixá-la assim no vácuo, falando para as paredes, literalmente.

    O marido continua ressonando. Ela desiste, puxa o lençol e enfia a cabeça no travesseiro. Está puta da vida. Amanhã, sem falta, terá uma conversa franca com ele.

    O marido para de roncar. Menos mal, Luzia tem dificuldade para dormir com barulho. No silêncio do quarto, ainda destila sua raiva. Nem pensar em ficar com alguém que não a respeita. Onde já se viu ficar casada para conviver com desaforos. Começa com “porra, Luzia” aqui, outro “porra, Luzia” ali, e quem sabe o que virá a seguir?

    O marido volta a roncar.

    Ela sacode o corpo dele para que cessem os roncos. Lembra que amanhã terá de acordar cedo para a aula de musculação e ainda fazer o supermercado. Luzia solta uns peidos, vira para o lado e pega no sono.

  • O Sorriso Perdido

    Jandira teve uma infância de indigente. Criada com mais seis irmãos numa cidade pequena no interior, enquanto seu pai trabalhava na roça, ela ajudava a mãe a cuidar da casa e das crianças. Na tapera em que moravam, a miséria acompanhava de perto a família. Não havia comida todos os dias, faltava luz elétrica e, no caso de Jandira, lhe faltavam todos os dentes da frente. Era pobre, raquítica e banguela.

    Com dez anos, foi entregue aos cuidados de uma senhora para trabalhar na fazenda. Logo aprendeu as tarefas domésticas e se destacou na cozinha. Dava gosto a sua força de vontade e o esforço que fazia em aprender e melhorar. Seu jeito tímido e sempre sorridente cativava. Ela sorria, tapando a boca com a mão. “Jandira, abre essa boca, menina, onde se viu rir assim de boca tampada”.

    Com o tempo Jandira foi se tornando peça-chave na fazenda, uma espécie de faz tudo. Movida por aspirações maiores, mudou-se para a cidade grande e arrumou emprego como ajudante de cozinha numa lanchonete.

    Ela não pensava em namoro, diversão, em mais nada, somente trabalhar e guardar dinheiro quando sobrava algum. Vendendo quentinhas nas horas vagas, obteve certa prosperidade. Seu tempero era comentado. Nessa toada foi levando a vida, sorrindo de boca fechada e sonhando com o dia de deixar de ser banguela e poder dar gargalhadas com seus dentes à mostra. A vida por uma dentadura completa.

    Com obstinação e alguma sorte, finalmente conseguiu no programa do SUS um implante dentário. O procedimento envolvia cirurgia, seguida de osseointegração e colocação da base fixa. Jandira nunca tinha ouvido falar daquilo, apavorou-se e quase desistiu. Mas a longa espera por uma dentadura falou mais alto. Tomou coragem e confirmou o bendito implante.

    Os pinos de titânio foram fixados no osso maxilar de Jandira que aguentou firme, como só Deus sabe. Enfim, teria de volta a função estética do sorriso. Tudo o que sempre havia sonhado.

    Com dentes novos, era outra mulher. Durante o dia, vivia de boca aberta mostrando os dentes por qualquer motivo, orgulhosa que só. À noite, rezava fervorosamente para que não houvesse nenhuma infecção ou rejeição. Eventuais dores e algum sangramento na gengiva, mas nada de grave. O implante múltiplo tinha sido um sucesso. Somente uma singularidade: com o tempo, foi percebendo que quando ia sorrir, involuntariamente tapava a boca. Talvez reminiscências antigas e enraizadas. Bem no fundo, sua alma ainda trazia o seu velho sorriso desdentado.

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar