Poesias de 1 a 99

Poema #20: Mar e Voz

O fraco risco frágil
e trêmulo uma voz
uma voz apenas
ruído longínquo e espesso
uma voz
um frasco, risco
murmúrio e sonho
voo largo e concreto da voz
num desencontro imponderável
a pedra a areia o risco
inevitável
voz das brumas
voz das sombras
voz apenas
de tudo o que se podia
tudo o que se queria
tudo que se sonhava
e nada se via
voz apenas
voz de melancolia
mar marulhar marulho
bruma
a escuna no escuro
o som da voz
na voz
foz
inominável voz
trêmula, espessa, rara
inevitável desencontro
voz das sombras
voz apenas
voz das brumas
coisas poucas que se ouvia
e, no entanto, nada havia
mais que a vida
uma via
voz apenas
voz enfraquecida
no ar zoar zunir
a sombra
a figura
o som
na voz uma voz
outra voz
outro ser
longínquo e espesso
e fraco
frágil
desencontro apenas
voz apenas
voz das brumas
voz das sombras
claras espumas
olhos e ondas
nada se via
do tudo que se sentia
no mar que havia

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Campista Cabral

Campista Cabral, leitor assíduo dos portugueses Camões e Pessoa, do poetinha Vinícius, herdou deles o gosto pelo soneto. A condensação dos temas do cotidiano, assim como a reflexão sobre o fazer poético, parece procurar a sua existência empírica ou, nas palavras do poeta, um rosto perfeito, na estrutura do soneto. Admirador e também leitor obsessivo de Umberto Eco, Ítalo Calvino, José Cardoso Pires, Lobo Antunes, do mestre Machado de Assis e do moçambicano Mia Couto, retira dessas leituras o gosto pela metalinguagem, o prazer em trabalhar um espaço de discussão da criação literária em sua prosa. A palavra, a todo instante, é objeto base dos contos e das crônicas. A memória, o dia-a-dia, o amor, as sensações do mundo e os sentidos e significados da vida estão presos nos mistérios e assombros da palavra.

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