O fraco risco frágil
e trêmulo uma voz
uma voz apenas
ruído longínquo e espesso
uma voz
um frasco, risco
murmúrio e sonho
voo largo e concreto da voz
num desencontro imponderável
a pedra a areia o risco
inevitável
voz das brumas
voz das sombras
voz apenas
de tudo o que se podia
tudo o que se queria
tudo que se sonhava
e nada se via
voz apenas
voz de melancolia
mar marulhar marulho
bruma
a escuna no escuro
o som da voz
na voz
foz
inominável voz
trêmula, espessa, rara
inevitável desencontro
voz das sombras
voz apenas
voz das brumas
coisas poucas que se ouvia
e, no entanto, nada havia
mais que a vida
uma via
voz apenas
voz enfraquecida
no ar zoar zunir
a sombra
a figura
o som
na voz uma voz
outra voz
outro ser
longínquo e espesso
e fraco
frágil
desencontro apenas
voz apenas
voz das brumas
voz das sombras
claras espumas
olhos e ondas
nada se via
do tudo que se sentia
no mar que havia
Poema de Campista Cabral
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Poema #20: Mar e Voz
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Poema #82: A mim ensinou-me tudo
“… e a monotonia da vida será para mim
como a recordação dos amores
que me não foram advindos,
ou dos triunfos que não haveriam
de ser meus”
Fernando PessoaO pouco que sei,
sei de o não saber,
mas só o de sentir
e nunca poder alcançar.Tudo passou por mim
como as águas de enchente,
mas vi tudo fluir e o vazio
de nada reter nas mãos.Se escrevo é só uma fórmula
de sonhar possibilidades
enormes, como se fossem
passos de uma criança deitada.O Jardim Simultâneo
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Poema #19: Presente
O presente vivido é quase o infinito…
o presente amado a eternidade incompleta.
Ridícula a angústia, o cansaço tolhido,
começo de caminho, meia-volta discreta…Ansiedade é pequena eternidade no presente,
pedras e esforço inútil, chamado repetitivo.
Tormento, fingimento, ser em estar ausente.
Velho e novo, refundidos, abertos num livro…Os grãos de areia podem ser incontáveis,
mas o mar recolhe um a um, a toda hora.
O resto são espumas, simples brincadeira…Do tempo incerto, mãos postas e flecha ligeira
tangem no pensamento cenas impublicáveis,
pois o que habita hoje, amanhã já não mora… -
Poema #14: Fluxo
E vem
é frio é pouco
e quente e certo
incertoé leve é tarde
e breve e louco
soltoé muito é medo
e mesmo e igual
realparte e vem
vem e parte
uma parte
e vai… -
Poema #10: OUÇO RUMORES
Ouço os passos do vento
Ouço e estremeço…Tempo
Entretempo
Ouço rumores de vento
E penso que sou eu
o vento
e o rumorMomento…
E o meu corpo
descolado das palavras
é brisa marinha
As ondas me invademuma a uma
e a sensação da vida e do amorpreenchem os espaços outrora vazios
preenchem cada canto
o olhar de sale as mãos que se quebram de tanto escrever
As ondas e o vento
e o meu corpo ainda intacto
Depois?Não ouço mais nada…
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INTERTEXTUALIDADES
.
Um escritor nunca escreve sozinho…
Antes, escreve com todas as vozes
Que sussurram a todo instante
histórias e versos
Acertos e desacertos
Melodias e ilhas
Desconcertos…Sou Cecília…
Oswald, Mário, Carlos… Andrades!
Sou também Bandeira!Camões, Pessoa, Castro e muito mais.
Sou Clarice…
Veríssimo, Graciliano, Rosa,
Sou também o cais.Jorge e Murilo e muito mais.
Sou o que sou: olha só os tais!
Pouco, muito…
E até coisas banais.E desfaço o ser quando entender…
e é o que basta,
masnão sou sozinho, sou inteiro,
sou vários, por vezes inabitável,
propenso e líquidoe, ao mesmo tempo,
uma cidade inteira
contrassensoSou Mia, Leminski, Milton
Caetano!
E não há engano!Sou Machado
E o texto, ironicamente,
É mais afiado.Sou Carlitos, o vagabundo,
Sou parte itineranteDas lembranças do mundo!
Sou e não sou a cada hora.
E o relógio não tarda.Agora
Sou todos os textos e canções
Sou todas as rimas e emoçõesUm escritor nunca escreve sozinho…
Antes, escreve com todas as vozes
Que sussurram a todo instante
histórias e versos
Acertos e desacertos
Melodias e ilhas
Desconcertos… -
#08 – Ofício
E todo verso que faço
Um pedaço de mim está e fica e se vê
Um outro ninguém sabe, um laço
que não se sabe onde fica e nenhuma vista lêE toda estrofe que nasce
Meus sonhos e verdades lá estão
Num outro canto, outras verdades
No esquecimento ficarãoQuando o poema, inteiro, surge diante de mim
É meu o rosto e é meu o nome
Mas é um outro que não sou eu
Não sei se isso é o começo ou o fim…E então me refaço e me reescrevo
Junto ou em pedaços o tempo inteiro
Sou e não sou, tenho ou não tenho
É este o poeta e o seu ofício primeiro -
#07 – O Homem dos Muros
O homem dos muros
É um ser sombrio,
Sua imagem causa arrepio
E gera confusão.O homem dos muros
Grita e divide
E com força Insiste
Em mais desunião.O homem dos muros
É uma grande desgraça
Incita arruaça
Morte e destruição.O homem dos muros
Nem parece um homem
A razão e o senso somem
Na sua louca ambição.O homem dos muros
É um menino mimado
Birrento e enjoado
O caos é a sua motivação.O homem dos muros
É o pior presidente
Não gosta de gente
Não tem empatia nem coração.Coitado do mundo!
Que dano profundo
Se um outro discípulo
Medonho e ridículo
Pudesse aparecer!
Coitado do mundo!
Que dano profundo!
Se um louco varrido
De pedra cingido
Pudesse crescer!Ainda bem que no Brasil
Um país muito gentil
Isso não há de suceder!Aqui o buraco é mais embaixo!
Tão incerto e tão escuro
Que não dá nem pra ver!Coitado do mundo
Que dano profundo
Se outro homem dos muros
De atos impuros
Pudesse aparecer!
Não haveria mais poesia
Seria tudo monotonia
Difícil sobreviver!Mas enquanto for possível o poema
Mas enquanto for possível a escrita
A palavra liberdade estará em cena
A palavra resistência terá vida!