Márcio Paschoal

  • Glória e o dia dos namorados

    No início não dei tanta atenção. Podia ser só implicância ou mania besta. Cismou com o meu biquíni de oncinha. Até aí, tudo bem, tentei relevar. A maioria dos homens é inseguro mesmo. O curioso é que ele não via problema com as outras mulheres.

    — Glória, você vai à praia com esse biquíni?

    — Vou, por quê?

    — Tem pouco pano pra muito peito.

    Eu tentava manter a calma.

    — Você acha?

    — A calcinha está entrando na bunda.

    — Tem dó, Ernesto, todo mundo usa assim.

    O biquíni só era indecente no meu corpo. Estava começando a me irritar com aquilo. Agora dera também para reclamar do vestido, das calças justas, da blusa transparente, tudo era motivo de discussão. Troço mais chato.

    Procurei uma blusa sem manga e não achei. Podia ter deixado no varal. Revirei as gavetas, fucei todo o armário e nada. Deixei pra lá. Me lembro de o Ernesto ter comentado que era curta demais e deixava o umbigo à mostra. Na semana seguinte, a calça jogging desaparece. Não podia ser coincidência. Ernesto estava sumindo com minhas roupas, justamente as que ele criticava. Claro que negou, Ernesto não assume seus erros. Imagine se eu resolvo sumir com as sungas dele.

    Ele argumenta que não quer me ver exposta ao ridículo, que me vejam como vulgar. Diz que só quer me proteger. Muita cara de pau. Isso não é amor, apenas dominação. Disso, eu sei bem.

    Ernesto nunca me bateu. Nem meus pais me bateram, não seria ele. Mas me sinto agredida quando ele quer me impedir de sair para beber com minhas amigas. Tentou sugerir que eu devia selecionar as amizades. Amiga solteira não presta para companhia, me avisava. Para mim, são as melhores, mais alegres. E vivas.

    “Glória, aonde você vai? Vai sair com quem? Glória, você vai de novo ao shopping gastar com bobagens?”. Me sentia vigiada, bisbilhotada, invadida. Se dependesse dele, eu teria de dar satisfação de cada ato, de cada passo. Por falar em satisfação, o pior é que meu tesão foi para as cucuias. Custo a me excitar e torço para não ser tocada. Ernesto não quer saber e se eu ameaço recusar, ele diz que não o amo mais. Faz drama. Vou para a cama coagida, para manter a paz e as aparências. Faço sexo e penso no Matt Dillon.

    Ernesto se queixa da minha frieza. Distante. Gelada. Pergunta se tenho outro homem. Na hora, respondo “que bobagem é essa, Ernesto? Claro que isso nunca me passou pela cabeça”. Internamente, vivo sonhando com isso.

    O casamento anda por um fio e ele nem nota. Ou pouco se importa. Num raro acesso de autocrítica, ele, uma noite, me perguntou se o problema com o sexo era dele. Pensei duas vezes e resolvi dizer que não, que ele era ótimo, coisa e tal. Menti descaradamente para não parecer que mentia a mim mesma.

    Não sei por quanto tempo vou esticar a corda. Ernesto é tóxico e se acha o suprassumo do homem moderno, compreensivo e calhorda. O calhorda é por minha conta.

    Decidi que não consigo – nem pretendo – mudar meu marido. Pau torto que nasce torto…Por falar em pau, o Ernesto tem o dele pequeno.

    Há limite para tudo.

    O amor, que antes parecia um filme romântico da sessão da tarde, tinha virado um Almodóvar do início de carreira, com cenas de um casamento imaginadas por Bergman, de mau humor e exilado numa ilha da Suécia em pleno inverno. Nosso amor deu uma esfriada. Eu e Ernesto, perdidos em um labirinto sufocante. Quando me olho no espelho, percebo o quanto de mim desapareceu para caber nas expectativas dele.

    12 de junho. Ernesto não esquece o dia dos namorados. Anoitece. Ambiente com luz indireta, velas seria um exagero. Mesa posta para dois. Lasanha. Ernesto adora lasanha. Bem podia colocar veneno de rato no molho bolonhesa, mas minha índole é pacífica. Vinho na taça. Malbec com toques de cicuta, revelando um vinho com mais tempo de envelhecimento. Como nosso relacionamento. Podre de velho. Meu maior presente neste dia continua sendo o silêncio confortável de um filme mudo. Daqui a pouco o Ernesto está chegando.

  • INVISÍVEIS

    Karolayne, ou Lane para os mais chegados, leva uma vida normal. Mora sozinha, de aluguel, numa casa de vila. Uma sala apertada acoplada à cozinha e, no andar de cima, um quartinho com banheiro: “minha suíte”, como ela chama. Acorda cedo, por volta das cinco da manhã, com o despertador do celular. Não que precise, seu corpo, moldado à rotina, já sabe a hora de levantar. Assim como a de dormir. Vai para a cama sempre antes das dez.

    Toda manhã parece se repetir. Escova os dentes antes e depois do café, come seu pão esquentado na torradeira e bebe de um gole o leite gelado sem açúcar. Quando não há pão, se vira com biscoitos.

    A rotina se repete como um ritual insondável e cada amanhecer traz os mesmos rumos e planejamentos. Enquanto acaba de se arrumar para sair, pensa nas tantas vezes em que sua existência se confunde com o próprio ato de seguir automaticamente.

    No caminho para pegar o ônibus e ir ao trabalho – Lane é diarista – ela reflete como a vida é difícil e, por vezes, sem sentido. Cuida da casa dos outros, tira o pó dos móveis, varre e passa aspirador, lava a louça acumulada, troca as roupas de cama, limpa banheiros e desentope ralos e pias. Pequenas ações que exigem uma vigilância constante, quase mecanizada. Lane sempre teve mania de limpeza.

    O curioso é que não tem quase tempo para si. Sua mania de limpeza termina assim que chega em casa. Se comparada com os apartamentos das madames onde trabalha, a sua moradia parece um local deixado de lado e malconservado. O cansaço justifica seu desleixo.

    Ocasionalmente, pensa desistir. Todo dia é a mesma droga. Mora afastado e pega um ônibus que leva em torno de uma hora e meia. Isso se não houver trânsito. Durante o trajeto, dentro do coletivo, geralmente em pé e espremida com outros passageiros, Lane se pergunta se o resultado do seu esforço é feito para ser invisível. O olhar cansado, os gestos repetidos, a paciência infinita, tudo transformado em banal.

    A maioria de suas patroas, com certeza, não saberia viver sem sua ajuda. Ela, no entanto, começa a perceber a condição de invisibilidade do seu trabalho.

    E se não fosse ela para arrumar a casa, ordenar as coisas, fazer as compras no supermercado, até servir de psicóloga para ouvir as queixas e lamentações das madames? As ações de Lane nunca são reconhecidas e ela, sem rancor, aparenta se resignar.

    À noite, logo que chega, toma seu banho. Chuveiro elétrico. Lane não costuma usar o chuveiro nas casas onde trabalha. Questão de princípios, que ela nem sabe a razão. Talvez cerimônia. De roupa de dormir, vai à cozinha e prepara uma xícara de chá, que fumega como um prêmio secreto. Ali, no instante em que o mundo se aquieta, ela se reconhece como uma pessoa que tem a percepção da sua própria invisibilidade, entre silêncios e coisas triviais. Reside aí um certo orgulho velado. A xícara de chá funciona como uma metáfora de recompensa e reconhecimento pessoal. Nesses raros momentos, Lane pressente que pode haver alguma poesia no ordinário.

  • Eu não devia me chamar BETHÂNIA

    Meus pais me deram esse nome porque se conheceram no show da cantora num teatro na Lagoa. Engraçado que nem gosto assim dela. Talvez por ter ouvido tanto minha mãe cantar. Após a morte de meu pai, então, era quase todo dia. Da Bethânia eu só gostava de “Olhos nos Olhos” do Chico Buarque. Ficou impregnada em mim, uma espécie de hino materno. Toda vez que ela ensaiava ficar melancólica, punha o disco com a música. A razão de eu gostar da canção era a letra, uma resposta feminina a um abandono. Para mim, a melhor versão de uma doce vingança.

    Pesquisei o nome. Bethânia vem do original hebraico que faz referência a uma pequena cidade no Monte das Oliveiras. Nada a ver comigo, meu sobrenome nem é Oliveira. Outra coisa irritante era, por causa do meu nome, me associarem a um determinado comportamento. Pela escolha sexual da cantora, alguns me viam como uma possível transgressora. Uma associação que nunca entendi bem. No meu caso, soava como uma antítese. Sou hetero convicta e tento disfarçar meu preconceito com lésbicas. Com gays também. Não devo ser uma pessoa razoável nesse aspecto, admito.

    Bethânia, a cantora, é feia demais. Eu sou linda, branca, loura e de olhos claros. E imodesta, claro. Cultivo a exteriorização do belo e deglutível, um mundo onde a fantasia não se oponha à realidade.

    Com o tempo, surgiram fortes crises de identidade e angústia. Muito do que eu sentia vinha do desgaste diário de esconder dos outros quem eu verdadeiramente era: uma burguesinha chata.

    Sem me esforçar, eu parecia o tipo da garota, cujo comportamento era considerado convencional. Devia ter sido chamada de Patrícia. Patricinha, em vez de Bethânia. Ao contrário do que pode sugerir o meu nome, sou vaidosa ao extremo, adepta de procedimentos estéticos e skincare. A maquiagem tem de ser impecável. Levo horas escolhendo roupa, mesmo para ir só na esquina. Coloquei silicone nos seios para aumentar o volume e botox a fim de suavizar minhas linhas de expressão. Posto fotos sensuais de biquíni no Instagram e não me importo de sexualizarem minha imagem. Não tenho orgulho disso, mas é mais forte do que eu.

    Não vou dizer a minha idade.

    Sou católica sem convicção e sem frequentar a igreja. Implico com padres, além de achar a missa um porre. Penso que Jesus foi um hippie revolucionário. Não sou ateia declarada por medo do desconhecido. Carrego bastante culpa dentro de mim.

    O corpo é minha doutrina filosófica. A existência humana é a matéria. Sigo dietas variadas, de low carb a zero lactose. Quando conveniente, alardeio veganismo, embora nunca abra mão de um churrasco se a carne for de primeira. Linguiça, coração de galinha e asa de frango fazem um estrago na pele. Evito. Já tentei jejum intermitente e não deu certo.

    Fiz análise durante um tempo e não consegui pôr para fora uma parte de quem eu era: uma pessoa vazia. Guardar dentro de mim aquilo que acreditava conseguir esconder me causou forte dependência a remédios. Ansiolíticos tarja preta. Minha analista deu a entender que eu tinha dupla personalidade. Preferi não levar a sério.

    Quando meu pai era vivo, costumava ouvir música erudita com ele. Se estou sozinha, gosto de escutar a Sinfonia Surpresa, de Haydn ou o Concerto para Piano em Lá Menor, de Schumann. Pouca gente sabe disso. Na minha playlist, Dylan, The Cure e Beto Guedes. Ecletismo musical é comigo.

    Quando posso, vou ao cinema. Herdei o gosto dos meus pais. Wim Wenders, Goddard, Pasolini e Bergman. Não perco os filmes do Woody Allen e do Almodóvar. Assisti umas cinco vezes ao Fitzcarraldo, do Herzog. Amo a cena em que Klaus Kinski cruza de barco o Amazonas ao som da ária “A Te, o Cara”, de Vincenzo Bellini. Minhas amigas temem tubarões assassinos, aliens e sextas-feiras treze, já meus medos têm mais a ver com o jogo de xadrez com a morte, no “Sétimo Selo”. Quando quero, sou um bocado cult.

    Vivo na Internet. Curto uma relação parassocial. Amar pessoalmente dá trabalho e causa desilusões. Evito interações profundas que me causem tédio imediato.

    Não posso ver um mendigo na rua que logo me enterneço. Empatia absoluta com a miséria alheia. Às vezes posso parecer até ingênua ou demagoga. Nem ligo.

    Sou contra as drogas. De alucinada, basta a vida. Prefiro estar consciente, embora deteste o concreto, o tangível. Fumo cigarros eletrônicos e, vez em quando, bebo gim tônica ou dry martini. Tomo creatina, malho na academia e faço bronzeamento artificial. Detesto ir à praia. Já peguei micose na areia. Piscina de clube nem pensar. Confesso que sofro com essa pressão social e midiática que impõe certos padrões estéticos. Ainda bem que sou bonita e magra.

    Tenho pavor da rejeição. De qualquer tipo.

    Sei que não combina com meu estilo de vida, mas gosto de ler. Tenho uma queda por escritores da contracultura que rejeitam os valores tradicionais. Talvez atração do que é contrário. Li Kerouac, tenho livros sobre a vida de Ginsberg e curto a poesia marginal de Leminski e alguma coisa do Bukowski. Para impressionar, levo sempre comigo um livro para ler no metrô. Nem leio, fico vendo se estão me notando. Gosto de passar essa imagem intelectual. Jovem socialite, colunável e cerebral. Repito, sou o próprio contrassenso. Adoro incongruências, a começar pelo meu nome. Bethânia. Não tem nada a ver comigo.

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