Crônicas

A nora de REBECA

Quando completou 65 anos, Rebeca deu uma festa em casa e chamou o filho, a nora e os netos. Morando sozinha, não podia se dar ao luxo de extravagâncias na cozinha, então encomendou salgadinhos e um bolo de chocolate com nozes, que o filho amava.

Pediu que não chegassem tarde por causa das crianças. Ela também queria dormir cedo. Depois da novela das oito, que começava nove e meia, normalmente era a hora em que o sono chegava.

Tinha recusado o convite do filho para ir morar com ele. Sabia que o filho a convidava por convidar, já que ela e a mulher dele não se davam. Desde que a nora dissera que ela tinha necessidade de monitorar e invadir a privacidade deles. A partir daí, desistiu de tentar alguma aproximação. Não ia levar avante aquela provocação. Seu filho a escolhera como mulher e mãe de seus filhos, paciência.

Para ela, a nora necessitava de terapia e medicação.

Rebeca notou que passara a cair com frequência. Havia a suspeita de sarcopenia. Foi ao médico que não constatou nenhuma anomalia. Mesmo assim, fez exame de densitometria óssea. Nada. Tinha os ossos em bom estado, em conformidade com sua faixa etária.

Rebeca continuava caindo.

A cada nova queda, mais medo de cair. Esse medo gerava ansiedade, restringia as atividades e começava a gerar um certo isolamento social.

Imaginou que talvez lhe tivessem feito uma macumba. Imediatamente pensou na nora. Por precaução, procurou um lar espiritual para se benzer. Uns passes cairiam bem, literalmente a quem estava caindo a toda hora. Riu-se do efeito cômico inesperado. Podia perder o equilíbrio e dar seus tombos, mas mantinha o humor.

Mesmo com os passes e as benzeduras, continuava tropeçando e caindo. Vivia com joelhos ralados, marcas roxas pelo corpo e alguns cortes nos braços e cotovelos.

Uma amiga sugeriu, com todo o cuidado, que ela talvez estivesse fóbica, ou seja, com medo de cair. Rebeca achou graça: “quer dizer que vivo caindo e não devo ter medo de cair?”. A amiga desistiu.

Ao visitar o filho, quando se queixou das quedas, ele disse que era comum as pessoas perderem, com a idade, um pouco a estabilidade corporal. Rebeca fingiu não notar que a nora prendia o riso. Procurou se controlar e respondeu ao filho que estava amedrontada, afinal morava sozinha, podia cair, se machucar e não haver ninguém para a socorrer. O filho não levou a sério, e a nora recomendou que ela andasse de joelheiras. Rebeca quase perdeu a calma e o controle.

No dia seguinte, acordou com o celular. Era a nora, reclamando que ela parasse de criar problemas para chamar atenção. Havia deixado o marido dela preocupado e até as crianças estavam assustadas. Ela ouviu, calada, quase sem acreditar. A nora insistiu para que ela procurasse o que fazer: ler para cegos, praticar ioga, ir à missa, qualquer coisa. Também seria bom que arranjasse um homem! Rebeca desligou. Pensou seriamente em contratar alguém para matar a nora. Querendo explodir de tanta raiva, ao levantar para ir ao banheiro, caiu e bateu com a cabeça na quina da mesa. A dor foi forte. Sentiu o sangue escorrer. Tentou levantar, foi ficando tonta e perdendo as forças. A imagem da nora lhe veio à cabeça. Caso não morresse, clicaria no Google por assassinos de aluguel. Com sorte, acharia um bem barato e discreto.

Márcio Paschoal

Marcio Paschoal nasceu no Rio de Janeiro, onde também se formou em Economia. Escritor e redator de longa estrada, construiu uma obra diversa, com mais de dez livros publicados entre romances, crônicas, ensaios e literatura infantil. Trabalhou na Fundação Getúlio Vargas, no Cederj (Centro de Ensino Universitário a Distância), e colaborou com o Jornal do Brasil, escrevendo sobre música e literatura. Entre seus romances estão Sofá branco — menção honrosa no Prêmio Graciliano Ramos e pré-selecionado para o Prêmio Nestlé de Literatura —, além de Odara e Os atalhos de Samanta. No campo do humor, publicou Cada louco com sua mania, ilustrado por Jaguar, e o Horóscopo sexual para praticantes. Também é autor de A morte tem final feliz e do livro de crônicas A maconha está bêbada. Na literatura infantil, escreveu O livro maluco e a caneta sem tinta. É ainda autor das biografias do compositor maranhense João do Vale, da atriz e travesti Rogéria e do romance biográfico João Antônio e os Bee Gees.

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