Contos

Paulo, o jardineiro

Paulo é aquela pessoa que aparece na nossa vida e sabe fazer tudo. Eletricista, encanador, pintor, jardineiro e, quem sabe, até cantor lírico. Tirando a última opção, ele já fez de tudo aqui em casa.

Tudo caminhava tranquilo até acontecer a explosão dos preços dos ovos e despertar o multitarefa para adotar um novo lastro monetário: o ovo.

— Aí, Paulo, quanto ficou seu trabalho?

— Me dê 80 “real”.

— Mas, amigo, 80 reais…

— Seu Luciano, 80 “real” não compra nem duas caixas de ovos.

O mais interessante era que não havia uma unidade padrão. Enquanto a minha caixa de ovos era com seis unidades, a dele era com quarenta e oito — e caipira.

É a mesma coisa que trocar nossa moeda por libra esterlina.

Na troca de uma lâmpada, já me cobrou uma caixa de ovos e 200 gramas de presunto Parma. Na pisada que ele está indo, chega já na picanha.

Mas, por ironia do destino, hoje liguei para ele vir cortar a grama. Um minúsculo espaço que minha mulher insiste em deixar com mato, digo, grama.

Ele acertou o dia e a hora, deixando em aberto o valor. Mandei um áudio falando para acertarmos o preço e anexei a foto de uma caixa de ovos com o preço. Pronto, tudo resolvido.

Não. No meu retorno do supermercado, encontro Paulo e ele foi me explicar o motivo dos preços indexados.

— Nós que é empresário sabe como é. Eu tenho ferramenta. Só furadeira tenho três.

Tudo eu tenho em três. Agora, se eu não tivesse ferramenta, aí eu cobrava barato.

Eu olhava para ele e pensava: Jesus, é a encarnação do Antônio Ermírio de Moraes.

Falta somente o paletó amarrotado.

Meu amigo, ele me levou da alegria por ter sido nivelado a empresário à lama, por não ter nenhuma ferramentazinha, nem para fazer um chá.

Deve ser por isso que não fui para a frente. Devia ter investido em martelo e alicate e hoje estaria aí, empresário, empilhando caixas de ovos até umas horas.

Bom, meu amigo, na quinta-feira o empresário vem cortar o filete de grama com um cortador elétrico que ele, com certeza, deve ter três.

E o preço?

Vai ser em caixa de ovo mesmo. Quem sou eu para cortar a proteína de alguém?

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Luciano Veiga Fernandes

É potiguar de Natal (RN), onde vive e escreve. Cronista amador e atento às peculiaridades do dia a dia, dedica suas linhas às experiências pessoais, aos flagrantes do cotidiano e às coisas absurdas da vida, sempre com o olhar atento ao bom humor. Compartilha seus textos no blog espacodolucianoveiga.blogspot.com.

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