Contos

Os Doentes Imaginários

Só sentimos o nosso corpo quando dói. É a única vantagem da doença, fazer despertar em nós a iluminação de que estamos vivos. É onde o hipocondríaco tem razão: é melhor estar doente, nem que seja de uma doença imaginária, do que estar morto.

O Dr. Ivan Peixoto, médico do interior de São Paulo, se livrou para sempre de dois aporrinhadores da paciência alheia com suas dores abstratas, mas sempre superlativas. A primeira foi a Dona Amélia, que estava com uma cólica insuportável, que vinha suportando há seis ou há dez semanas. “Não será nó nas tripas, Doutor?” O médico cofiou o cavanhaque inexistente, alisou as rugas da testa, que as doenças de certos pacientes vinham acentuando: “É bem possível, minha senhora. Tudo leva a crer que seu problema é grave, gravíssimo.” A Dona Amélia apalpou o ventre protuberante, sentindo-se inchar de preocupação: “E o que eu posso fazer, Doutor? Eu tenho salvação?” O médico, escolado por tantas escoriações na paciência, perorou: “Senhora Dona Amélia, eu preciso lhe fazer uma série de exames muito sérios, seriíssimos. Eu preciso investigar com a máxima acuidade, sem a mínima margem de erro, o seu problema. Muitíssimas pessoas viram chegar a sua hora extrema, quando sentiram os sintomas que a senhora está sentindo.” A Dona Amélia já imaginava qual dos vários modelos de caixão que vira na funerária lhe ficaria bem, quem seria convidado para o enterro, quem lhe faria a desfeita de não comparecer nessa ocasião solene, que inscrição mandaria gravar na sua lápide de mármore, encimada pela estátua de uma Madona sofredora chorando. “Dona Amélia, a senhora não está prestando atenção. Estou lhe prescrevendo os procedimentos exatos, a melhor falha pode lhe custar riscos ingentes.” A Dona Amélia não sabia o que eram ingentes, mas anotou muito bem: deveria tomar uns dois litros d’água, os dois comprimidos que tinha na mão e que ela não sabia que eram um diurético forte, fortíssimo, como frisava o Dr. Ivan para todas as coisas, mas não frisou nem de leve desta vez. E não deveria urinar de jeito nenhum, para não comprometer os exames de que dependia a sua vida. E ficou quase duas horas na sala de espera do Pronto Socorro Municipal, vermelha, roxa de vontade de urinar, a sala cheia de gente, e o médico chamando todo mundo menos ela, que acabou urinando ali mesmo, depois de tanta, de tão infinita dor, agora uma dor real, para espanto do público e vergonha dela, tão pudica, coitada. Até que a enfermeira anunciou: “Dona Amélia, o Doutor Peixoto já foi embora, disse que o seu problema não é problema não, que é só a senhora tomar um diurético e urinar que passa, não passou?”

O outro caso foi o da mordida de macaco. O Geraldo sempre inventava alguma para chamar a atenção, esta vez foi um arranhãozinho de nada nas costas da mão, que parecia a maior ferida do mundo. “Um macaco me mordeu, Doutor. O que é que eu faço? O senhor precisa me receitar um remédio senão eu posso até morrer. Não existe vacina contra mordida de macaco?” O Doutor Ivan cofiou o bigode, coçou o cenho, etc. O Geraldo, inquieto: “Se o senhor não me salvar eu vou me matar, Doutor.” O médico, muito calmamente, abriu as portas de um armário e mostrou infinitos frascos, ampolas, vidrinhos e mais vidrinhos, e disse: “São muitas as vacinas, cada uma para um caso específico, uma não pode ser dada no lugar da outra ou o resultado certamente será fatal. É preciso saber que macaco foi que lhe mordeu. Conforme o macaco, a vacina. Tenho certeza que você sabe a raça do macaco, não sabe?” “Não sei, não senhor”, disse o Geraldo, saindo de fininho, com o rabo entre as pernas, resmungando: “Nessa o Doutor me pegou.” Mas no dia seguinte, ei-lo no consultório, com toda empáfia. Mas irreconhecível: estava arranhado da cabeça aos pés, sangue pingando das sobrancelhas, do nariz, lábios, orelhas, braços e mãos; a camisa estava suja de sangue, a calça também. Trazia um saco com a boca amarrada, que parecia vivo – que estava vivo: “Eis aqui o orangotando, Doutor. O senhor veja por si mesmo de que raça é a fera.” O médico abriu de leve a boca do saco e, com a solenidade que o momento exigia, vaticinou: “Esse macaquinho não oferece nenhum perigo não, Geraldo. Não é preciso nenhuma vacina para essa raça de macaco. Pode ficar sossegado, descansado, em paz.” E em paz foi ficando o Dr. Ivan Peixoto, com a sua fama de apaziguador de dores imaginárias correndo o mundo – as adjacências, o seu mundo, pelo menos.

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José Carlos Mendes Brandão

José Carlos Brandão nasceu em Dois Córregos, SP, em 28 de janeiro de 1947. Mora em Bauru. Em 2025 publicou “Matéria e memória”, que reúne sua poesia de 1975 a 2025, 9 livros publicados, mais 3 inéditos. Publicou também 2 livros de crônicas. Escreveu um romance, que permanece inédito, apesar de ter ganhado o Prêmio Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte, em 2000. Tem uma dezena de contos premiados em concursos e publicados em antologias. Escreveu ainda microcontos.

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