José Carlos Brandão no Crônicas Cariocas

  • O menino que se apagou num sopro

    Eram três meninos vendo os pais derrubar uma árvore. Quando a peroba foi derrubada, um dos meninos se apagou no sopro – o enorme deslocamento de ar que ela provocou. Parecia que tinha morrido, era o que os outros dois pensavam.

    Na cidade, o médico disse que estava em coma. Não tinha nenhum tratamento, o jeito era esperar.

    Ficou em coma por um tempo imenso. Os outros dois morriam de preocupação, esperando que ele acordasse.

    Passavam os dias, passavam as noites, e o menino durinho na cama.

    Como se estivesse morto, todo mundo pensava.

    Quando acordou, disse:

    – Preferia não ter acordado – ninguém entendeu por quê.

  • O mundo além do horizonte

    O vô Júlio tinha umas ideias esquisitas. Uma tarde ele estava cortando cavacos – uma pilha de cavacos, todos iguais: um palmo, e um palmo tinha que ter vinte e dois centímetros. Encostou o pequeno machado no cepo onde realizava a delicada operação, enxugou o suor com o lenço do pescoço, e ficou olhando o horizonte.

    – O que é que tem para lá do horizonte, vô? – eu perguntei.

    – Ara, nada – ele disse.

    Eu fiquei matutando um tempo, o sol se pondo no alto do morro, sobre os cafezais e um pedaço de pasto com os seus altos coqueiros e umas árvores esparsas. O sol parecia queimar a paisagem, como uma coivara fumegando entre os troncos ainda verdes.

    Criei coragem:

    – Mas, vô. As terras depois daquele morro. Como é que são?

    – Não existem terras além do horizonte – ele pôs ponto final na conversa.

    Voltou a seus cavacos milimetrados: estendeu o palmo sobre uma acha de lenha, fez sinal de aprovação com os beiços, e cortou em dois, em quatro, em oito pequenos cavacos.

    Eu voltei àquele mesmo lugar, hoje, sessenta anos depois, não, minto, mais de setenta anos, depois de ter visto o mundo além do horizonte, e vejo que o vô Júlio tinha razão.

    A casa velha, quase em ruínas, as árvores secas, o pasto seco, o vento seco. É um mundo morto, onde estou. O vulto do vô Júlio é a única coisa viva. O vô Júlio está mais vivo do que quando era vivo. E estica o beiço mostrando o horizonte, quase com arrogância, enquanto balança a cabeça teimosa, resmungando seco:

    – Ara.

  • A galinha manca

    A galinha atravessa vagarosamente o terreiro. Cada passo é quase uma queda. A galinha é torta, tem uma perna mais curta que a outra. É uma galinha manca.

    Atravessa o terreiro compenetrada como se estivesse calculando cada movimento. O terreiro é largo, clareado aqui e ali por algumas réstias de sol. O chão é coberto de terra vermelha, uma ou outra pedra preta, folhas, penas e dor.

    A galinha é um bicho só. Procura algum grão de milho, uma minhoca, procura a sombra, procura o sol. A galinha conjuga os verbos da solidão. Nenhuma outra galinha, nenhum galo. A vida parece sem sentido.

    A galinha ergue a cabeça, apruma o corpo, soluça e volta a caminhar. É preciso presto caminhar. A galinha olha para um lado, para o outro, olha fixo para um objetivo determinado, um ponto que só ela vê. E caminha.

    Sente falta de uma muleta, talvez de uma bengala. Mas caminha, tropeçando na própria perna, caindo, levantando. Caminha, intrépida, poderosa. A galinha mínima domina o seu mundo mínimo.

  • O PARDALZINHO

    O nenê era como um pardal palpitando na palma da mão. Estava morto?

    Não sei o que vou fazer. Depósito com cuidado na covinha, aberta no jardim, cercada de flores.

    Aí ele pára de se mexer. Dá uma respirada comprida, dá que nem uma tossinha engasgada, dá outra respirada já meio sumida, e pronto: agora está morto.

    A Cida ainda está chorando. Mulher chora por qualquer coisa. Era o filho dela? Também era o meu filho.

    Nunca mais vou-me esquecer daquele montinho de terra, parecia que estava pulsando, como se o Eusébio estivesse vivo ali dentro. Eu quis homenagear o meu pai dando o nome dele ao meu filho.

    E agora está morto embaixo da terra. E eu o sinto pulsando embaixo da terra. Se o meu Eusébio morreu duas vezes – se ele estava vivo quando o deixamos embaixo da terra?

    A Cida me culpa, eu me culpo, a minha mãe me culpa, o mundo me culpa – e eu culpo todo mundo. Deus é o grande culpado! Se o Eusébio ia morrer, por que nasceu?

    E eu o vejo vivo como um pardalzinho palpitando na palma da mão, pulsando muito de levezinho – embaixo da terra.

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