José Carlos Brandão no Crônicas Cariocas

  • A vaca atropelada

    O carro do professor foi guinchado até ao Plantão Policial de Franca para registrar um boletim de ocorrência de acidente na estrada. Sobre o porta-malas, com as patas para cima, uma vaca morta. O que é isso, professor? Uma vaca em cima do carro? E com as pernas para cima? Que desconfortável!

    Mas está rindo do quê? Ah, já passou o susto! E que susto, hein?! Ele voltava de Franca para São Joaquim da Barra, quando viu três vacas no meio da estrada. Desviou da primeira, driblou a segunda, mas não conseguiu se safar da terceira. Pegou em cheio a coitada. Nem viu onde foi parar, nem imaginou onde poderia ter ido parar a desgraçada da vaca: em cima do porta-malas do carro.

    Ainda estava viva. Parece que sorria, a imprudente. Achando graça do quê? Já disposto a descarregar toda a sua raiva sobre a danada, viu-a exalar o último suspiro, um suspiro gostoso, bem prolongado. O que fazer agora? Chamou o guincho, e toca para a Delegacia. Verdade que estava ferido só na mão esquerda, mas alguém tinha que pagar pelo carro amassado – e quase me mata, corri perigo de vida!, diz. Fez lavrar o boletim de ocorrência, a Polícia vai ter que se virar e descobrir o dono da vaca.

    Já pensaram? O cara chegar na Delegacia com uma vaca em cima do carro! Isso é que é matar a cobra e mostrar o pau! Mostrou a vaca, o que é bem mais difícil. Não tinha outra alternativa? Poderia levar a vaca para casa, daria um bom churrasco. Chamaria os amigos, e os amigos dos amigos, e os cachorros da vizinhança, os gatos, os mendigos, quem quisesse saborear um delicioso churrasco – teria carne para todos. Sem miséria! Sirvam-se à vontade, meus amigos e meus inimigos. Desse momento em diante, não teria mais nenhum inimigo. Um bom naco de carne compra qualquer amizade.

    Mas o dono não iria reclamar? Se reclamasse, teria antes que pagar o prejuízo. Depois, seria comprado com um belo churrasco. Já disse um sábio (o guru do Meyer, Millôr Fernandes) que todos somos venais, é só questão de combinar o preço. E a um churrasco quem poderia resistir? Seria um preço muito bem pago. O problema foi o transporte: o carro avariado, mais que arrebentado – como transportaria a vaca? Se nem saía do lugar! Pois não teve que chamar o guincho? O quê?! O guincho não poderia levar o carro e a vaca para casa? Tinha que levar para a Delegacia?

    Lembro-me de um conto de Rubem Fonseca. Uma vaca foi atropelada por um trem, ficou lá estirada na linha. O que fez a população? Comeu a bicha. Um prato suculento, os favelados em volta morrendo de fome, não deixaram por menos: retalharam posta por posta de carne, distribuída equitativamente – ou mais para quem pudesse mais. Quem parte, reparte e não fica com a melhor parte ou é burro ou não entende da arte. Gozado que Rubem Fonseca era um escritor sério, que sabe o que faz, não iria fazer um plágio – justo com uma vaca! Sem querer, uma bruta coincidência, mas acontece que Stanislaw Ponte Preta já tinha contado a mesma história. Cruzes! A vaca foi retalhada duas vezes.

    E se fosse uma vaca na Índia? Ou por aqui mesmo, que temos muitos herdeiros do xintoísmo hindu. A vaca é sagrada. É mais do que sagrada. Poderia ser a encarnação da mãe do dono, ou da avó, da bisavó. De alguém da família. De um recém-nascido, que não teve forças para suportar este mundo imundo, foi-se – mas retornou na pele, ou no couro, de uma vaca. Não faça mal à vaca – isto daria um poema, poderia ser um refrão, um mantra, uma jaculatória. Não faça mal à vaca!

    Fez muito mal o professor em levar a vaca à Delegacia. Fez mais mal em não comer a vaca, tão apetitosa. Fez mais mal ainda em não ver o que de sagrado, de poético, de encantatório não havia por trás, por dentro da vaca. Não foi à toa que Jorge de Lima compôs um de seus melhores poemas dedicado à vaca: “A garupa da vaca era palustre e bela”. Por que teria o poeta chamado a garupa da vaca – e não anca, muito menos bunda – de palustre? Os poetas têm iluminações que ninguém entende – por isso são iluminações, por isso são, eles, poetas.

    Ah, o professor não poderia ter levado a vaca à Delegacia – que crime cometeu ela? Nem poderia ter comido a vaca – comem-se vacas anônimas, mas essa já ficou fazendo parte da minha mitologia particular. Muito menos poderia ter matado a vaca – que essa vaca, se não é santa, se não é fada, se não é nenhuma mulher amada, ah, essa vaca entrou no meu sonho e os sonhos não podem ser mortos. Professor, ou pelo menos você, meu improvável leitor, faça uma prece pensando na minha vaca – eu dormirei mais tranquilo sabendo que ela foi pelo menos motivo de uma prece, que é a forma mais poética de sonhar. Amém.

  • O expresso Oriente

    Dizem que japonês bebe muito, mas eu não imaginava que fosse tanto. Dizem que bebe, fuma e se suicida muito.

    O fumo não é problema; fuma quem quer, e japonês fuma uns cigarros pequenininhos, intragáveis, uns estoura-peitos de matar, que eu já provei, no tempo em que chafurdava nesse vício.

    O suicídio é um grande problema, mas podemos suavizar, dourar a pílula, dizendo que quem se suicida enjoou de viver, e, portanto, um enjoado a menos.

    Agora, a bebida é um problema enorme, que só vem crescendo com o passar do tempo e dos trens. Exatamente isso, é um problema tão grande porque pode até descarrilhar trens.

    Por isso não é de se lamentar o feito de Shoichi Kanai, que, se exagerou na bebida, se bebeu além de qualquer limite, pelo menos não descarrilhou nenhum trem.

    A bebida desestrutura a família, provoca acidentes de trânsito, é grande colaboradora do desemprego, da violência, prejudica a saúde física e mental, etc., mas o máximo é descarrilhar um trem, e foi o que Shoichi Kanai não fez.

    Tem 73 anos de idade; não é nenhuma criança, portanto; sabia o que fazia, ou tinha tudo para saber, menos a consciência, que a bebida levou.

    Dizem que tomou uma tremenda bebedeira; ele, porém, já não diz que bebeu tanto; aproxima o indicador do polegar, como que indicando que foi só um traguinho, talvez mais um pouco, mas não além de uma dose.

    Diz que teve sono, muito sono, muitíssimo sono; e deitou-se entre os trilhos do trem; e dormiu. Não dormiu um sono normal, como o do comum dos mortais. Dormiu um sono pesado, muitíssimo pesado. Daqueles de que não se acorda nem que um trem passe por cima.

    E foi o que aconteceu: um trem passou por cima. O condutor ainda acionou o freio de emergência, mas não adiantou: o trem passou por cima de Shoichi Kanai.

    São 27 centímetros da linha até o trem; ainda bem que Shoichi Kanai era muito magrinho; ainda bem que não era nenhum bebedor de cerveja, não tinha nenhuma barriguinha.

    O trem passou voando por cima, e Shoichi Kanai nem acordou.

    Foi em Tobata, no sul do Japão, e as cerejeiras estavam floridas. Se não estavam, deveriam estar, em homenagem a Shoichi Kanai, que bem merecia.

    Devemos praticar os nossos vícios com parcimônia, para não prejudicar ninguém, nem descarrilhar nenhum trem.

    O expresso de Tobata, no Sul do Japão, passou voando por cima de Shoichi Kanai, que nem acordou.

    Sofreu apenas pequenos cortes na mão e na coxa, mas ninguém pode assegurar que foram causados pelo trem. E algum dano que o trem possa ter sofrido, ninguém poderá assegurar que foi causado por Shoichi Kanai.

  • Um corpo que cai

    A Cida foi encontrada boiando no rio Pardo, a cabeça cortada, mal grudada no corpo.

    Tinha exigido do namorado Zé que largasse a mulher e fosse morar com ela. O danado só mandava esperar, mas ela estava cansada de ser enrolada. Ou deixasse a mulher duma vez, e os dois filhos, ou não ia mais querer saber dele. Pior, e tinha mostrado os braços fortes, de melhor cortadeira de cana da cidade.

    O Zé não era de ter medo, mas estava com o facão de cortar cana na mão, e perdeu a cabeça. Que ele se cuidasse, a Maria se cuidasse, as crianças? A Cida exagerou. Não precisava ameaçar. Ele gostava da Cida, mas ela exagerou. E o que as coitadas das crianças tinham com isso? A Cida deu burrada, e perdeu a cabeça.

    O Zé segurava a cabeça pelos cabelos:

    – Conheceu, papuda!

    Mas logo se arrependeu: – Eu não queria.

    Como não tinha mais jeito, botou em cima da mula e tocou para o rio. Foi deixando um rastro de sangue, da casa da Cida até o rio.

    Era ao pôr do sol, o céu azul pintado de vermelho como se estivesse em chamas. Como uma coivara, os tocos chamuscados ainda
    queimando. Até as águas no rio estavam se queimando.

    O Zé admirava, implicado com o sangue pingando nas calças e na camisa:

    – Esse trambolho!

    O Manuel da Venda e o João Venâncio estavam pescando. Nem viram o corpo ali perto deles.

    – A gente estava entretido, Doutor.

    O corpo enroscado nuns galhos, a água fazendo gluglu no buraco da garganta. Foi jogado de um barranco a dois passos dali, um baque na água.

    – A gente não ouviu barulho nenhum. Não é, Venâncio?

    – Dava para ver o vestido vermelho, boiando na água – disse o Venâncio, – mas nós não vimos nada.

    – Não era vermelho nada – disse o Manuel, – era sujeira de terra, de lama.

    – Por isso que não dava peixe, Manuel.

    – Que nada, aqui nunca deu peixe, Venâncio.

    – Por que é que a gente pesca, então?

    – Porque a gente é burro.

  • O menino que se apagou num sopro

    Eram três meninos vendo os pais derrubar uma árvore. Quando a peroba foi derrubada, um dos meninos se apagou no sopro – o enorme deslocamento de ar que ela provocou. Parecia que tinha morrido, era o que os outros dois pensavam.

    Na cidade, o médico disse que estava em coma. Não tinha nenhum tratamento, o jeito era esperar.

    Ficou em coma por um tempo imenso. Os outros dois morriam de preocupação, esperando que ele acordasse.

    Passavam os dias, passavam as noites, e o menino durinho na cama.

    Como se estivesse morto, todo mundo pensava.

    Quando acordou, disse:

    – Preferia não ter acordado – ninguém entendeu por quê.

  • O mundo além do horizonte

    O vô Júlio tinha umas ideias esquisitas. Uma tarde ele estava cortando cavacos – uma pilha de cavacos, todos iguais: um palmo, e um palmo tinha que ter vinte e dois centímetros. Encostou o pequeno machado no cepo onde realizava a delicada operação, enxugou o suor com o lenço do pescoço, e ficou olhando o horizonte.

    – O que é que tem para lá do horizonte, vô? – eu perguntei.

    – Ara, nada – ele disse.

    Eu fiquei matutando um tempo, o sol se pondo no alto do morro, sobre os cafezais e um pedaço de pasto com os seus altos coqueiros e umas árvores esparsas. O sol parecia queimar a paisagem, como uma coivara fumegando entre os troncos ainda verdes.

    Criei coragem:

    – Mas, vô. As terras depois daquele morro. Como é que são?

    – Não existem terras além do horizonte – ele pôs ponto final na conversa.

    Voltou a seus cavacos milimetrados: estendeu o palmo sobre uma acha de lenha, fez sinal de aprovação com os beiços, e cortou em dois, em quatro, em oito pequenos cavacos.

    Eu voltei àquele mesmo lugar, hoje, sessenta anos depois, não, minto, mais de setenta anos, depois de ter visto o mundo além do horizonte, e vejo que o vô Júlio tinha razão.

    A casa velha, quase em ruínas, as árvores secas, o pasto seco, o vento seco. É um mundo morto, onde estou. O vulto do vô Júlio é a única coisa viva. O vô Júlio está mais vivo do que quando era vivo. E estica o beiço mostrando o horizonte, quase com arrogância, enquanto balança a cabeça teimosa, resmungando seco:

    – Ara.

  • A galinha manca

    A galinha atravessa vagarosamente o terreiro. Cada passo é quase uma queda. A galinha é torta, tem uma perna mais curta que a outra. É uma galinha manca.

    Atravessa o terreiro compenetrada como se estivesse calculando cada movimento. O terreiro é largo, clareado aqui e ali por algumas réstias de sol. O chão é coberto de terra vermelha, uma ou outra pedra preta, folhas, penas e dor.

    A galinha é um bicho só. Procura algum grão de milho, uma minhoca, procura a sombra, procura o sol. A galinha conjuga os verbos da solidão. Nenhuma outra galinha, nenhum galo. A vida parece sem sentido.

    A galinha ergue a cabeça, apruma o corpo, soluça e volta a caminhar. É preciso presto caminhar. A galinha olha para um lado, para o outro, olha fixo para um objetivo determinado, um ponto que só ela vê. E caminha.

    Sente falta de uma muleta, talvez de uma bengala. Mas caminha, tropeçando na própria perna, caindo, levantando. Caminha, intrépida, poderosa. A galinha mínima domina o seu mundo mínimo.

  • O PARDALZINHO

    O nenê era como um pardal palpitando na palma da mão. Estava morto?

    Não sei o que vou fazer. Depósito com cuidado na covinha, aberta no jardim, cercada de flores.

    Aí ele pára de se mexer. Dá uma respirada comprida, dá que nem uma tossinha engasgada, dá outra respirada já meio sumida, e pronto: agora está morto.

    A Cida ainda está chorando. Mulher chora por qualquer coisa. Era o filho dela? Também era o meu filho.

    Nunca mais vou-me esquecer daquele montinho de terra, parecia que estava pulsando, como se o Eusébio estivesse vivo ali dentro. Eu quis homenagear o meu pai dando o nome dele ao meu filho.

    E agora está morto embaixo da terra. E eu o sinto pulsando embaixo da terra. Se o meu Eusébio morreu duas vezes – se ele estava vivo quando o deixamos embaixo da terra?

    A Cida me culpa, eu me culpo, a minha mãe me culpa, o mundo me culpa – e eu culpo todo mundo. Deus é o grande culpado! Se o Eusébio ia morrer, por que nasceu?

    E eu o vejo vivo como um pardalzinho palpitando na palma da mão, pulsando muito de levezinho – embaixo da terra.

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