Coluna Contos

  • Bodas de prata

    Meus pais fizeram bodas de prata e eu dei de presente um jogo de malas de couro acastanhado. Uma bem grande, para viagens prolongadas, uma média, para pequenas ausências, e uma menorzinha, para passeios de bate e volta. “Aposentar e viajar, esses dois verbos se completam”, costumava dizer o meu agora aposentado pai. Assim que viu o regalo, os olhos do velho marejaram. Andou em volta da maior, avaliou seu tamanho e capacidade. Sem que eu conseguisse evitar, abriu, entrou e se fechou nela por dentro. Minha mãe, depois de agradecer pelo presente, ligou a televisão para ver a novela. Passei o resto da noite tentando abrir a mala e tirar meu pai de lá, sem sucesso. De vez em quando ele dava pequenos golpes por dentro da tampa para dizer que estava bem e que eu ficasse tranquilo. Num acesso de nervos, empunhei um facão disposto a rasgar o couro novinho da mala e forçá-lo a sair, mas não consegui. Meu pai se mexia o tempo todo e fiquei com medo de feri-lo. Minha mãe continuava vendo televisão. “Não perca tempo com seu pai, ele sempre gostou de fazer fricote. Logo se cansa. Conheço essa história há vinte e cinco anos e sei como termina. Vai lá na cozinha, filho, tem bolo.”

  • Luzia e o dia a dia

    Passa das onze e o casal se prepara para dormir. Ele, já na cama, lê o jornal. Ela entra no banheiro da suíte. Ele sempre lia o jornal antes de dormir e ela tomava seu banho. O segundo do dia; o primeiro era ao acordar.

    Ele acaba de ler e ela ainda no banho.

    — Luzia, não demora, quero dormir.

    Ela, no chuveiro, não escuta. A água morna batendo na cabeça, por cima da toca de banho e ela pensando na vida. Mais especificamente no seu casamento. Completariam seis anos de casados.

    — Luzia, porra, vem logo dormir!

    Agora Luzia tinha escutado. Ela já estava acabando de se enxugar. Por que tanto estresse? Nem tinha demorado assim no banho.

    Quando chega ao quarto, o marido aparenta estar dormindo. Ela acha estranho porque ele nunca dorme antes dela e com a luz acesa. Ela coloca um short e o soutien. Gosta de dormir sem calcinha. Penteia o cabelo, prende com rabo de cavalo, puxa o lençol, entra na cama e se ajeita.

    — Pode apagar a luz.

    — Até que enfim, né, Luzia?

    Ela prefere não responder. Rememora o tempo do começo do casamento: dormiam e acordavam juntos, às vezes abraçados. E sexo.

    Muito sexo. Isso que a incomoda. Não trepam há bastante tempo. De deitar e despertar abraçados nem sente tanta falta. Mas sexo…Ela nem lembra quando foi a última vez. Será que ele tem outra? Não, ela teria notado. A fase da paixão havia passado. Casamento passa por fases. Não é o que a perturba, mas a sensação de que, no momento, parecem se detestar, se aturar.

    — Você não quer mais ficar comigo. Se for isso, pode me dizer.

    — Que besteira é essa, Luzia? Está sem sono?

    — Quero só saber. Diga sim ou não.

    — Quero ficar com você. Agora, dorme.

    Ela não sente firmeza na resposta.

    — Mas ficar por ficar, na acomodação de tantos casais por aí, ou porque quer de verdade? Se pudesse escolher, ainda ficaria comigo?

    — Mesmo se a outra opção fosse a Scarlett Johansen?

    — Não fuja da resposta, ficaria ou não?

    — Ficaria, Luzia. Vamos dormir?

    Ela tinha perdido o sono. E a culpa era dele. Tudo havia começado com aquele “Luzia, porra, vem logo dormir!”. Ele nunca tinha se referido a ela daquela maneira.

    — Acho que deveríamos ter uma conversa séria.

    — Luzia, não acredito, conversa séria agora?

    — Para ficar com uma pessoa se sentindo constrangido, obrigado, não vale a pena. A vida é curta. Temos de ter um mínimo de carinho e consideração um com o outro. E respeito, respeito é o básico. Não porque estamos juntos e casados há algum tempo que vamos esquecer a noção de civilidade e educação. Eu até acho que…

    Ela é interrompida pelos roncos do marido.

    — Meu Deus, você dormiu?

    Luzia queria acordá-lo, sacudir-lhe a cabeça e gritar para que ele nunca mais fizesse isso, deixá-la assim no vácuo, falando para as paredes, literalmente.

    O marido continua ressonando. Ela desiste, puxa o lençol e enfia a cabeça no travesseiro. Está puta da vida. Amanhã, sem falta, terá uma conversa franca com ele.

    O marido para de roncar. Menos mal, Luzia tem dificuldade para dormir com barulho. No silêncio do quarto, ainda destila sua raiva. Nem pensar em ficar com alguém que não a respeita. Onde já se viu ficar casada para conviver com desaforos. Começa com “porra, Luzia” aqui, outro “porra, Luzia” ali, e quem sabe o que virá a seguir?

    O marido volta a roncar.

    Ela sacode o corpo dele para que cessem os roncos. Lembra que amanhã terá de acordar cedo para a aula de musculação e ainda fazer o supermercado. Luzia solta uns peidos, vira para o lado e pega no sono.

  • NA CHUVA

    Marcelo – marido de Patrícia
    Alice – 8 anos, filha de Patrícia e Marcelo
    Patrícia – psicóloga, trabalha numa delegacia
    Juvenal Cruz do Espírito Santo – pedófilo
    Anselmo – delegado
    Rosa – tia de Patrícia
    Ione – mãe de uma das vítimas

    Reunião com amigas da faculdade. Quinze anos de formatura. Na saída, começa a chover. Tempestade. Esqueci a chave de casa. Reviro a bolsa. Não tá. Ensopada na varanda. Esqueci o guarda-chuva. Frio. Vento gelado assobiando. Marcelo, abre a porta! Você tá aí, Marcelo? Pegou a Alice na escola? Aliiiice! É a mesma pessoa, só pode ser ele. O rádio. Desliga o rádio! Não! Aumenta o volume! Falaram o nome dele de novo. Não é um nome comum. Foi preso, tá na delegacia. Quanto tempo faz? Uns 30 anos. Nojento! Asqueroso! Pega a bala, menina, é pra você. Uva, abacaxi e morango. Gosta de hortelã? Vem comigo, lá em casa tem mais. Fica quieta, não faz barulho. Não fala pra sua mãe. Você não vai contar, né? Shhh… Nosso segredo, menina. Patrícia, vem aqui, preciso que você passe na delegacia. Você tem de conversar com as garotas. Com os pais também. Tentaram agredi-lo. Tá todo mundo aqui, muita gente. Da imprensa inclusive. O suspeito se chama Juvenal Cruz do Espírito Santo. Falo suspeito, mas foi ele mesmo, não temos dúvida. Ele tá enrolado. Depois te conto os detalhes. São cinco, todas meninas. Não vou, não posso ir, não consigo. Esse nome… Todas falam basicamente a mesma coisa. Age sempre da mesma maneira. Isso de ficar oferecendo doces e presentes. Estratégia batida, mas são crianças, sabe como é. Depois leva pra casa dele. Setenta e um anos, branco, olhos castanhos, cabelos grisalhos, cicatriz do lado esquerdo perto do nariz, 1,69 m de altura. A esposa morreu tem 6 anos. Um troço meio esquisito, acidente de carro, caiu de uma ponte… Sem filhos, netos, parente nenhum pelo que se apurou. Encontramos muitos cachorros e gatos na casa. Patrícia, tá me escutando? Não vou, não posso ir, não consigo. Pega a bala, é pra você. Lá no quarto tem uma boneca beeeeeem grande, assim do seu tamanho. Quer? Sobe a escada. Vai, sobe a escada. A boneca tá te esperando. Em cima da cama. Que nome você vai dar pra ela? Pode escolher o nome. Anselmo, você já conversou com os pais? As fotos, me mostra as fotos primeiro. Anselmo, pelo amor de Deus, esse nome… Repete o nome. Não! Não fala esse nome. Eu sei… Deixa eu ver as crianças, quero falar com as meninas. Quantas foram? Quatro? Cinco? Sete a onze anos? Eu tinha 8. Tinha acabado de fazer 8. Festa na casa da vó. Tema princesas. Eu tinha 8 anos, e a decoração era mundo das princesas, tá percebendo? Ganhei o vestido da tia Rosa. O mesmo vestido vermelho. Tava chovendo muito. Trovoadas. Meu pai ainda era vivo. Raios. Temporal. Anselmo. Porra, você não tá entendendo! Não fico calma, não posso ficar calma. Vem aqui na minha sala. Tem uma mãe muito nervosa, pediu pra conversar com uma psicóloga. Doutora, ele era nosso vizinho, nunca desconfiei. Frequentava a mesma paróquia, ajudava na missa, era amigo do padre… Não tem culpa, a senhora não tem culpa, dona… Como é mesmo o seu nome? A menina também não tem culpa. Anselmo, vou sair um minuto. Quero ver, preciso ver… Olho pelo vidro, não me aproximo. Sei que é ele… Só pode ser. A senhora me dá licença, dona Ivone? Ione? Desculpe. Anselmo, tá chovendo. Fecha essa janela. Tá entrando água pela janela. Sobe, menina, a boneca é sua, comprei pra você. Graaaande, do seu tamanho. Como você vai chamar ela? O nome da boneca, menina? Deixa. Levanta um pouco, só um pouquinho. O vestido. Vai, um pouco, só um pouquinho… Patrícia, você pode me dizer o que está acontecendo? É ele, Anselmo, sei que é. Trinta anos. Está mais velho, mas tenho certeza. Nunca que eu ia esquecer…

  • O menino que se apagou num sopro

    Eram três meninos vendo os pais derrubar uma árvore. Quando a peroba foi derrubada, um dos meninos se apagou no sopro – o enorme deslocamento de ar que ela provocou. Parecia que tinha morrido, era o que os outros dois pensavam.

    Na cidade, o médico disse que estava em coma. Não tinha nenhum tratamento, o jeito era esperar.

    Ficou em coma por um tempo imenso. Os outros dois morriam de preocupação, esperando que ele acordasse.

    Passavam os dias, passavam as noites, e o menino durinho na cama.

    Como se estivesse morto, todo mundo pensava.

    Quando acordou, disse:

    – Preferia não ter acordado – ninguém entendeu por quê.

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