As mulheres de Márcio Paschoal

  • Dona ÚRSULA não pode reclamar

    Recostada em minha poltrona, reflito sobre a vida. Não pode ser somente coincidência: de uns tempos para cá, sinto que tudo dá errado. Um acúmulo de desencontros e aporrinhações.

    Olho pela janela e vejo a mesma paisagem. Amanhã, o sol nascerá de novo para repetir o mesmo espetáculo. O marasmo impera. Tem tempo que não faço uma viagem. Tem tempo que não faço nenhuma loucura. Porra nenhuma.

    Por que resolvi eu mesma tingir os fios brancos do cabelo? Resultado: três cores distintas, um arco-íris brega na cabeça. Fiz tudo para melhorar a aparência. Preenchimento labial, laser para manchas do rosto, lifting, rejuvenescimento profundo, toxina botulínica e o escambau. Para, no final, ver meu último namorado sumir sem deixar rastros. O miserável nem reconheceu meu esforço. Dá no mesmo, ele não valia nada. Nem como passatempo. Com ele, o tempo demorava a passar. Sujeito chato.

    E a maldita rotina doméstica? Um dia me rebelo. Não vou fazer faxina, vou deixar a casa apodrecer, tomada de pó, louça suja na pia, plantas por regar, paredes por pintar, roupas para lavar, roupa de cama para tirar. Tédio.

    Para piorar, agora a incontinência urinária. Toda vez que rio muito, me mijo toda. Vivo com absorventes na bolsa. Um inferno. Menos mal que, ultimamente, está difícil dar uma boa risada. São os percalços da terceira idade. Paciência. Para isso tomo creatina, evito enlatados e me encho de ansiolíticos.

    A dermatologista alertou sobre o sol: Dona Úrsula, cuidado com o câncer de pele. Pareço um pote de creme ambulante. Parei de fumar e não sei por que ainda continuo tossindo. Já estou sentindo o nariz entupido. Nunca perdi as campanhas de vacinação. Volta e meia sofro reação à vacina. O certo é que, prevenida ou não, vivo gripada. E o plano de saúde não para de encarecer. O preço dos remédios? Pela hora da morte. Por isso tantas drogarias pela cidade. Lucro certo.

    Admito sofrer de transtorno de humor. Bipolar, mesmo. Culpa da menopausa e das malditas ondas de calor pelo corpo. A pipoca mais cara que o cinema, o metrô lotado, as agências bancárias sumindo, o mar poluído, meu time na zona de rebaixamento, as ruas e os bairros inseguros, a cidade toda insegura. Quando vou caminhar, levo xerox dos documentos e deixo os originais em casa. Já me roubaram o celular duas vezes. Na primeira nem vi, e na segunda, me tomaram com um empurrão. Ainda me deram um chute quando estava caída. Fiquei toda roxa, hematomas diversos, suspeitei de trombose.

    Estou um pouco acima do peso. Na realidade, bem acima. Gorda e cevada. Daqui a pouco, obesa mórbida, com certeza. Adoro comer pão, macarrão, nhoque, lasanha e empada. Com certeza a razão de meu Índice de Massa Corporal ter só massa. O médico me aconselhou a fazer exercícios. Correr, o joelho me impede, andar na esteira me aflige. Vejo-me como um hamster em fuga contínua. Bicicleta, nem cogitar. Não sou louca de encarar o trânsito. Desisti da hidroginástica. No começo fui bem, mas a visão dantesca das pessoas caindo aos pedaços, de touca e se mexendo na água como tartarugas provectas, me causava profunda depressão. Abandonei as aulas quando uma senhora entrou na piscina de bengala.

    Se sou uma mulher que reclama e exige as coisas, me taxam de desatinada e inconformada. As amigas comentam que tenho temperamento forte. Por trás, sou Úrsula, a perua maluca.

    É preciso coragem e certa teimosia para seguir adiante. Enfrentar as frustrações ajuda a repensar a vida. Podia ser pior. Na hora parece que o mundo vai acabar, depois a gente descobre que o mundo é uma bosta. Não vou me desesperar: ainda tenho tevê por assinatura, um garoto lindo que mora em frente e vive pelado, contas de luz e gás pagas, o sol da manhã, o George Clooney, discos de jazz, bingo aos sábados, nenhum ex-marido a encher o saco, livros, alguns sonhos e meu travesseiro.

  • Luzia e o dia a dia

    Passa das onze e o casal se prepara para dormir. Ele, já na cama, lê o jornal. Ela entra no banheiro da suíte. Ele sempre lia o jornal antes de dormir e ela tomava seu banho. O segundo do dia; o primeiro era ao acordar.

    Ele acaba de ler e ela ainda no banho.

    — Luzia, não demora, quero dormir.

    Ela, no chuveiro, não escuta. A água morna batendo na cabeça, por cima da toca de banho e ela pensando na vida. Mais especificamente no seu casamento. Completariam seis anos de casados.

    — Luzia, porra, vem logo dormir!

    Agora Luzia tinha escutado. Ela já estava acabando de se enxugar. Por que tanto estresse? Nem tinha demorado assim no banho.

    Quando chega ao quarto, o marido aparenta estar dormindo. Ela acha estranho porque ele nunca dorme antes dela e com a luz acesa. Ela coloca um short e o soutien. Gosta de dormir sem calcinha. Penteia o cabelo, prende com rabo de cavalo, puxa o lençol, entra na cama e se ajeita.

    — Pode apagar a luz.

    — Até que enfim, né, Luzia?

    Ela prefere não responder. Rememora o tempo do começo do casamento: dormiam e acordavam juntos, às vezes abraçados. E sexo.

    Muito sexo. Isso que a incomoda. Não trepam há bastante tempo. De deitar e despertar abraçados nem sente tanta falta. Mas sexo…Ela nem lembra quando foi a última vez. Será que ele tem outra? Não, ela teria notado. A fase da paixão havia passado. Casamento passa por fases. Não é o que a perturba, mas a sensação de que, no momento, parecem se detestar, se aturar.

    — Você não quer mais ficar comigo. Se for isso, pode me dizer.

    — Que besteira é essa, Luzia? Está sem sono?

    — Quero só saber. Diga sim ou não.

    — Quero ficar com você. Agora, dorme.

    Ela não sente firmeza na resposta.

    — Mas ficar por ficar, na acomodação de tantos casais por aí, ou porque quer de verdade? Se pudesse escolher, ainda ficaria comigo?

    — Mesmo se a outra opção fosse a Scarlett Johansen?

    — Não fuja da resposta, ficaria ou não?

    — Ficaria, Luzia. Vamos dormir?

    Ela tinha perdido o sono. E a culpa era dele. Tudo havia começado com aquele “Luzia, porra, vem logo dormir!”. Ele nunca tinha se referido a ela daquela maneira.

    — Acho que deveríamos ter uma conversa séria.

    — Luzia, não acredito, conversa séria agora?

    — Para ficar com uma pessoa se sentindo constrangido, obrigado, não vale a pena. A vida é curta. Temos de ter um mínimo de carinho e consideração um com o outro. E respeito, respeito é o básico. Não porque estamos juntos e casados há algum tempo que vamos esquecer a noção de civilidade e educação. Eu até acho que…

    Ela é interrompida pelos roncos do marido.

    — Meu Deus, você dormiu?

    Luzia queria acordá-lo, sacudir-lhe a cabeça e gritar para que ele nunca mais fizesse isso, deixá-la assim no vácuo, falando para as paredes, literalmente.

    O marido continua ressonando. Ela desiste, puxa o lençol e enfia a cabeça no travesseiro. Está puta da vida. Amanhã, sem falta, terá uma conversa franca com ele.

    O marido para de roncar. Menos mal, Luzia tem dificuldade para dormir com barulho. No silêncio do quarto, ainda destila sua raiva. Nem pensar em ficar com alguém que não a respeita. Onde já se viu ficar casada para conviver com desaforos. Começa com “porra, Luzia” aqui, outro “porra, Luzia” ali, e quem sabe o que virá a seguir?

    O marido volta a roncar.

    Ela sacode o corpo dele para que cessem os roncos. Lembra que amanhã terá de acordar cedo para a aula de musculação e ainda fazer o supermercado. Luzia solta uns peidos, vira para o lado e pega no sono.

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